sábado, 31 de julho de 2010
RELATO
quarta-feira, 28 de julho de 2010
PRIMEIRAS VEZES
Toda primeira vez tem certa mágica. Não existe um jeito de ser diferente. Não existe, nem mesmo, outra palavra para definir o novo, senão esta: mágica. Aquilo que nunca antes se fez. Aquilo que nunca talvez se tenha imaginado. Aquilo que nem se sabia que existia. Assim era a vida pra ela. Um presente de embrulho irresistível. Um presente que ela precisaria abrir para descobrir. Não era possível prever o que se escondia naquela caixa. O tato falhava, porque o futuro não era palpável. Nunca fora. Mas ela tinha coragem para abrir o presente e, só então, descobrir o que o futuro reservava. Fosse bom ou fosse mau, ela aceitaria de coração aberto.
Decidiu que assassinaria, então, todas as segundas, terceiras, quartas ou infinitas vezes. A vida dela seria feita apenas das primeiras vezes. Ela seria apenas tentativa. E, tentando, acabaria por se transformar em alguma coisa bonita, possivelmente parecida com os contos de fada que insistia em não abandonar. Ela poderia até adentrar alguma constelação de estrelas ou riscar bem forte o destino. Seu traço era forte o suficiente para rasgar as entrelinhas da sua história, que já estava inteiramente escrita. Mas o que ela não queria mesmo era passar o imaginário para a memória. Queria que tudo fosse apenas ápice. Queria que os segundos acendessem e ascendessem, como mágica. Queria que tudo durasse apenas o necessário para ser inesquecível. Queria que tudo terminasse bem na hora de acontecer, pra que o gosto sempre fosse doce. Não fazia questão de entender, não requisitava nenhuma explicação. A vida não tinha e nem pedia explicações. A vida pedia pra ser vivida. E ela vivia, com coragem.
terça-feira, 13 de julho de 2010
CONTOS E CANTOS

Quando sou frase, minha meta é trocar a ordem das palavras. Eu, que nunca soube contar, não tenho numerais. Meus advérbios, especialmente aqueles de intensidade, oscilam sem pensar. E eu, à mercê desses advérbios, por vezes violentos, outras vezes apaixonados, mas sempre com alguma alucinação, fico totalmente rendida. A despropósito, essa luta é meio desigual. Não há um modo certo de lutar contra o que me domina. O advérbio da vez sempre acaba vencendo. Mas os adjetivos não mudam. Eu continuo a mesma. Sem disfarces. Continuo tentando ser dona. De verdades. De histórias. De amores. De palavras. De sonhos. E do meu próprio universo, que é e sempre será o pais de maravilhas. Os substantivos, sempre abstratos. O comum cansa, o simples também. O concreto então, enjoa. Sempre tive certa recaída pelo que não existe.
Mas, quanto a mim, sou histérica. Sou histórica. Não sou lúcida, mas ainda sou legível. Prefiro ser o sujeito da minha própria oração. Sobre os meus traços, não deixo pistas. Não me obrigue a apagar o que foi escrito porque, uma vez apagado, nunca mais te reescrevo. Escrevo forte, eu sei. Dizem que é característica dos gênios indomáveis. Talvez seja. Mas que fique claro que, ainda que eu tenha marcado todas as próximas folhas com o que escrevi, se um dia eu tiver que apagar tudo, não deixo marcas. E nem escrevo de novo. O que eu apago é passado. As palavras enchem meu coração de presente e futuro. O passado é só relato.
Por estar sempre em dúvida quanto ao verbo perfeito, vivo me transformando. Acho que vivo exatamente pra isso: pra me transformar. Nos últimos tempos, tenho me transformado, principalmente, em palavras. Em versos. Em estrofes. Em parágrafos. Em rimas. Talvez isso revele o que eu realmente sou. Talvez eu seja poeta. Vivo ritmada na minha própria canção. Vivo dentro ou fora do compasso, mas sempre recupero o tempo.
O segredo é que estou sempre me encaixando perfeitamente nas vidas que imagino e digo serem alheias. Mas, na verdade, não são. Cada vida nova que surge aqui dentro é, em partes, a minha própria vida. Cada terceira pessoa que cabe na minha prosa é, no fundo, um pouco da primeira pessoa. Terceira e primeira pessoa, nessa oração, já não sabem viver separadas. Já não sou nada sem os infinitos outros que existem em mim e que se multiplicam a cada vez que me deparo com a folha em branco. É que, a cada vez que escrevo, chego um pouco mais perto daquilo que eu sempre quis ser. Deixo parte de mim no ar, dispersa, dissipada ao bel-prazer do universo. Vôo rumo àquilo que mais me agrada, que mais se aproxima dos meus sonhos, das minhas utopias, das minhas miragens, da minha miopia. Viro etc. Já não faço questão de me contar. Tudo vira encanto e eu só canto. Não me sobra nenhuma molécula de sanidade. Me deixo enganar por esses personagens que me rondam e me t r a n s f o r m o.
Essa liberdade inconseqüente que voa ao meu redor explica tudo. E é por isso que faço tanta questão de ser livre. Sempre procurei por explicações. Escrevendo, eu me explico pra mim mesma. Finjo ter descoberto os mistérios da vida e acredito nas minhas versões. Escrevendo, eu entendo o passado, aceito o presente e prevejo o futuro com os mesmos olhos molhados de luz. Comparo minha vida com uma miragem. O presente, que divide o passado e o futuro, é exatamente a linha do horizonte que divide o céu e o mar. Me deparo com cada pedaço meu como se fosse peça única de um quebra-cabeça que poucos se atrevem a tentar montar. Mas, escrevendo, eu me atrevo. Admiro o que sou. Vejo meu perfil reluzindo nos textos. Porque eu fico mais bonita quando redijo. Conto dos meus amores e desamores através de mil nomes bonitos. Por isso, vivo tropeçando em mim mesma em cada linha. Vivo me encontrando, com ar de surpresa, casualidade ou coincidência, nos casos e nos caos que invento. Vivo me vestindo de personagens irreais, só para me proteger. Vivo me encaixando nos contos. Vivo me escondendo atrás do que não existe tentando, quem sabe, constatar a própria existência. Vivo observando o mundo com olhos de criança e acreditando que cada mínimo detalhe é dádiva. Já disse antes sobre o mundo de maravilhas do qual disponho. É nesse mundo que vivo. E é desse jeito louco e poeta que eu quero viver. Eis-me.
quarta-feira, 7 de julho de 2010
SOBRE NÓS
Ela era uma doce criança à espera de um amor para a vida inteira. Um amor como aqueles dos livros que lia. Um amor parecido com aqueles dos filmes que a faziam chorar. Esperava, muitas vezes na janela, por alguém que ficasse. Alguém que simplesmente ficasse. Seria assim tão difícil ficar? Ficar, não ir embora, não deixar só. Era simples. Ela escrevia poesias inocentes endereçadas a esse alguém que ainda não tinha nome. Um alguém que ela ainda não sabia se existia, se falava português, se morava na mesma cidade ou país. Não importava o lugar do mapa. Ela acreditava que o amor transcendia os limites e atravessava todos os passos.
Ele surgiu numa das voltas da vida. Surgiu soprando no céu com sussurros que soavam silenciosos como sílaba suave que não sabe a hora de cessar. Chegou trajado de poeta, propondo ser amigo e se mostrando sonhador. Chegou comprovando todos os poemas e mostrou que ali havia uma emoção que precedia os fatos. Ela acreditava em tudo o que lhe diziam e, talvez por isso, acreditou que aquele amor era tudo o que buscava. Apostou fundo na miragem que se aproximava tanto dos seus sonhos e se permitiu. Entendeu que o que sentia era ainda mais bonito do que os filmes e mais sincero do que os livros. Entendeu que nenhuma palavra jamais descreveria tudo o que acontecia quando ela via todo o seu futuro dentro dos olhos dele. E, entendendo isso, assumiu que ele era passado, presente e futuro. Ele era. Era ele.
Sei que as lembranças hão de lhe importunar vida afora. Sei das inúmeras canções que ainda se encaixam perfeitamente em tudo o que já aconteceu e em tudo o que teria acontecido se ele tivesse ficado. Mas, ao que parece, ficar não é mesmo coisa tão simples. Ficar é mais difícil do que pode parecer. Será possível? “Se passaram anos”, ela repetia para si mesma. Sei que aquela imagem não vai desgrudar do pensamento. Sei que o reencontro será sempre a hipótese inviável. Sei que o amor já acabou, ainda que ela tivesse jurado, em seu nome, que jamais acabaria. Sei que o sol se pôs e a noite escondeu tudo o que ela sentia. Sei que a roda gira e gira sem parar. E num desses giros, ele surgiu. Em outro, ressurgiu.
Mas sobre nós, tenho a dizer que, uma vez desatados, não mais haverá tempo e espaço para que sejam refeitos. Garanto que ela, com toda a infantilidade, apertou o nó com toda força que não tinha. Posso assegurar o quanto ela, a menina, chorou ao ter que ver o mundo rodar. E posso assegurar ainda, com muita convicção, que os olhos correm e que tudo o que é fruto apenas da nossa invenção se vai. E, ainda com a volta, revolta.
domingo, 27 de junho de 2010
CAPÍTULO

Decidiu, acima de tudo, que cantaria. E, assim como fizera com todas as outras decisões que já havia tomado na vida, determinou que perseguiria o sonho até o fim. O pote de ouro sempre esteve atrás do arco-íris mas, naquele momento, por alguma razão totalmente desconhecida, ele brilhava mais do que nunca. E, atraída pelo brilho, ela percorria todos os caminhos multicoloridos do arco-íris enquanto aproveitava todos os carinhos do mundo.
A música invadiu a vida dela e ocupou os espaços vazios. Não sobravam mais faltas e nem faltavam sobras. Estava tudo em seu lugar. Mas as canções, inexplicavelmente, ainda eram para Henrique.
ps²: Só pra constar: entre mim e Alice, qualquer semelhança é mera coincidência.
quinta-feira, 17 de junho de 2010
PRESENTE
Senti borboletas na barriga quando ouvi isso. Como eu desejava tudo o que viesse de você o quanto antes! Como eu tinha pressa, urgência, loucura pelo que quer que tivesse seu nome. Seu nome... Seu nome... Seu nome, seu nome, seu nome.
Era amarela a caixa. Amarela e grande. Tudo bem. Não há nada de tão surpreendente nisso. Afinal, todas as caixas do SEDEX são amarelas. Mas o amarelo é minha cor preferida. A caixa tinha a cor e o tom que me faziam feliz. E eu me recuso a acreditar que seja mera coincidência. Sempre fui assim. Escolhi acreditar na sorte. No destino marcado. No amor ali, escrito nas estrelas. Escolhi entender a conspiração e a inspiração. Escolhi fazer pedidos às estrelas. Escolhi apostar nessa idéia romântica de que, em algum canto por aí, você vê a mesma lua que eu enquanto peço, em segredo, pra te ter na minha visão. Escolhi brincar de bem-me-quer nas margaridas sem me lembrar que existe mal-me-quer. Escolhi te encontrar nos livros, nos sons, nos versos, nas cartas, nos traços, nos riscos, nos rabiscos e nas letras de caneta. Escolhi te encontrar no seu próprio dia. Escolhi te encontrar em mim e me encontrar no nosso encontro. Escolhi seguir a intuição e fiz de cada movimento seu, um passo da nossa dança que seguia por si, sem obedecer à música que tocava. Sempre segui meu ritmo.
Procurei o lugar mais bonito para abrir o que era nosso. Nosso caso precisava de cena e de cenário. E assim, facilmente, viraria história de filme. (Se é que já não era).
Examinei primeiro a sua letra que preenchia os campos de destinatário e remetente. Seus traços tortos (pra mim, perfeitos), seus pingos nos “Ís” em formato de bolinhas e seu nome, sobrenome e endereço. De dentro da caixa saiu um amor visível. Tudo, nos mínimos detalhes, me agradava. Já não me lembro do que foi que vi primeiro. Mas sei que, em segundos, inúmeros amores estavam espalhados em cima da minha cama. Cada surpresa continha, em si, um carinho enorme que brilhava tanto que cegava os olhos. O amor estava em todos os cantos, inclusive em mim. O amor invadia o quarto e, orgulhoso, tomava conta de todo espaço, preenchia todos os vazios e se encaixava perfeitamente em tudo o que era meu. Seu amor parecia ter sido moldado aos meus próprios sonhos. Cada detalhe era poesia.
Você enviou, de longe, um cheiro que se instalou em mim. Posso convocar, em pensamento, esse cheiro, porque impregnou. O perfume, por si, explodiu meus sentidos e, mais uma vez, me fez feliz. E então, dei o primeiro jato. Bem sei que é pra manter o HUMOR.
Os corações vieram embalados, um a um. Confesso que não soube, de cara, o que havia dentro até que você, gentilmente, me contou que era óleo para a pele. Mas, decididamente, eu não iria estourá-los por nada. Repito: me fale sobre esses corações daqui a mil anos, e eu ainda os terei comigo.
O cachecol é vermelho e xadrez. Gosto de vermelho e gosto de xadrez. Isso também não foi acaso. De alguma forma, você vai me proteger do frio que tanto me incomoda. Vou te combinar com todas as cores e com todos os amores que eu puder inventar. Vou te levar comigo e será bonito ter um pedaço seu em mim. Pensando bem, já tenho vários pedaços seus em mim. Mais do que eu poderia supor. Muito mais, amor.
O crucifixo é proteção. Sei que ele tem mais energia do que qualquer outro que eu pudesse comprar. É a nossa fé que move as montanhas. Sempre foi assim. A fé, a coragem, o amor e, lá no fundo, a insensatez. Essa mesma insensatez me faz, agora, querer te ver menino. Mas eu sei que, no fundo, menino você não é mais. Mas te chamar assim é algo que te torna infinito em mim, daqui até a eternidade. Aprendi que eterno é exatamente aquilo que não cabe no tempo. Somos assim. Esbarramos no tempo o tempo todo. Mas eu ainda tenho voz e disposição pra gritar o mais alto que eu puder na esperança de que, em algum momento, o som da minha voz possa, quem sabe, chegar aí.
As suas palavras vão pra minha coleção. Admirei sua letra, os pingos nos “Ís” em formato de coração e a pureza de sempre. Foi através de palavras que eu te conheci e te reconheci. Foi através de letras, desenhos, traços, fotos, músicas e cheiros que eu me apresentei pra você e exigi, com muita convicção, a sua presença. E foi assim que entendi que gosto de você e que não é de hoje. Gosto porque gosto. Gosto porque gostar de você é bom. Gosto porque o gosto de gostar de você é doce. E foi assim mesmo que começou a nossa história. Eu te disse: “Que seja doce!” E foi.
O seu olhar eu vou colocar na estante. Pra eu ter um dia feliz.
E quanto ao seu amor... Será sempre o meu amor.
domingo, 13 de junho de 2010
PRA JUSTIFICAR TODO O RESTO

Sou sutilmente humana. É todo meu o direito à contradição e, por isso, não faço questão de ser coerente. Eu posso sim, coexistir. É muito bom quando me permito florear. E é ainda melhor quando você acredita em cada vírgula minha. Sorte a minha porque não me deixo ser interrompida por nenhuma pontuação. Sorte a sua porque às vezes perco a fala e, assim, nosso silêncio é indizível. Sorte a nossa porque eu quase nunca desisto da exclamação. E porque, quando desisto, tenho você pra insistir. E pra existir. E pra me distrair. E pra me corrigir. E pra me seduzir. (Me seduzo).
Sou melhor quando invento. Mundos improváveis, amores platônicos, planos infalíveis, crimes imperdoáveis, histórias impossíveis. Todo o meu mundo fica cinza quando emudeço. Sou muito melhor quando grito do que quando me calo, pode acreditar. Talvez seja essa a razão de nunca me calar. Pra tentar ser melhor. Um pouco melhor. Um tanto quanto melhor.
Os outonos me permitem ser diferente a cada estação. Ora menina de riso fácil e coração aberto, ora mulher. Mulher de fases. Me permito ser inconstante e faço disso, um charme. Espero pelo instante seguinte como uma criança espera pelo doce. É assim mesmo: coleciono instantes doces. Exijo que aguardem sempre o próximo capítulo. Nenhuma linha será previsível. Um aviso? Não espere que eu seja exatamente como você espera. Espere exatamente o que não espera que eu seja. Porque assim, serei o que espera. (Tudo bem, eu sabia que você não entenderia.)
Não preciso escapar do verso. Nem mesmo tento. Sempre estive pelo avesso, e essa versão é inegável. Sou afavelmente dengosa. Tenho um lado frágil, delicado, inseguro e carente. Mas sou cheia de exigências. Exijo, por exemplo, segundos inteiros. Só faço questão do que amo. E, por isso, já não faço questão de muita coisa. Exijo também dias claros, só pra manter o humor. Sei que é capricho meu. Choro, de vez em quando. Principalmente nos dias frios. Mas sei despistar. Sou da sorte. Estou constantemente entregue aos sonhos, especialmente aos não concretizados. Vivo a procurar. Vivo em busca. Vivo na busca. Foi durante a busca que eu descobri quem sou. E descobri que, irrevogavelmente, preciso de palavras tanto quanto preciso de ar.
Sempre carreguei dentro da mochila, algum sonho. Pelo menos uma dúzia de canetas coloridas pra traçar o caminho. Papel pra rabiscar a minha falta de jeito. Inspiração pra inventar no vento. E amor, pra justificar todo o resto.
quarta-feira, 9 de junho de 2010
BURACOS COLORIDOS
Mas eu me nego a ter os amores na palma da mão. Me recuso a ter todas as verdades na ponta da língua e todos os versos prontos na ponta da caneta. Preciso inventar. Preciso cair na minha própria armadilha e, docemente, me iludir. Preciso percorrer meio mundo ao sabor de um sonho. Preciso continuar acreditando na minha própria fantasia. Preciso ouvir a utopia, seguir a intuição e me deixar enganar pela miopia. Preciso mais da busca do que do encontro. Faço mais questão da escalada do que do topo da montanha. Enquanto o meu coração acreditar que a peça que falta está em algum canto do mundo, à minha espera, terei força e coragem pra procurá-la. E, pelo caminho, tenho poesias de sobra pra me consolar.
terça-feira, 18 de maio de 2010
SOBRE A DONA DAS PERNAS CURTAS

Contamos mentiras sinceras pra nos distrair. Distorcemos as coisas miúdas pra não ferir. Pra colorir o mundo. Pra criar finais felizes. Pra passar o tempo. Pra narrar desfechos surpreendentes. Pra impressionar. Pra florear as histórias. Pra intensificar a paixão. Pra mistificar a crença. Pra suavizar a prosa. Pra disfarçar a solidão. Pra nos parecer com os melhores personagens. Pra viver caso de novela. Pra tentar ser emocionante. Pra convencer os outros. Pra nos auto-afirmar. Pra iludir. Pra ludibriar. Pra reformar o feio. Pra conservar o belo. Pra rimar os versos. Pra se apaixonar. Pra se aproximar. Pra ignorar o impossível. Pra voar um pouco mais alto. Pra tocar o inatingível. Pra viver o sonho. Pra cicatrizar as feridas. Pra ficar bonito. Pra trazer alguém pra perto. Pra não perder esse alguém. Pra fingir que é amor. Pra ser mais sutil. Pra não falar palavrão. Pra não descer do salto. Pra não perder o controle. Pra não chorar. Pra não sair de cena. Pra ser legal. Pra continuar na pose. Pra não revelar o segredo. Pra fazer vista grossa. Pra sair da rotina. Pra não parecer bobo. Pra entrar na dança. Pra chegar no clima. Pra alcançar o inalcançável. Pra ser um pouco mais feliz.
Idealizamos um outro cenário para o nosso filme, mudamos de lugar os objetos aparentemente indiferentes ao produto final, acreditamos na encenação dos atores (inclusive na nossa própria encenação), reorganizamos as falas, alteramos o script. É isso: nossa vida é um filme gravado ao vivo e sem ensaios.
A verdade é que a mentira pode ser incrivelmente linda, assim como as fantasias que, vez ou outra, nos permitimos vestir. Tudo bem. Ser você mesmo a vida toda não é fácil, eu bem sei. A realidade inventada pode nos fazer momentaneamente felizes. O imaginário pode nos fazer criativos. Mas o mergulho no abstrato também pode nos fazer perdidamente loucos. Fora da realidade e sem tato. Não aceito me acostumar com o não palpável, por isso escolho a verdade. Aquela que me torna lúcida e sóbria. Vez ou outra me perco no que não existe. Mas, mesmo com a cabeça nas nuvens, insisto em manter os pés no chão e acreditar nessa utópica transparência que ilumina. A verdade eterniza.
sábado, 15 de maio de 2010
JUÍZO FINAL
Enfim, sei que poderia não fazer dessa saudade uma sentença pronta ou não transformar essas palavras, antes soltas, no nosso próprio juízo final. Já sei que você detesta esses papos, sempre detestou. E sei que poderia te causar intensa agonia e insegurança nesse momento, caso me calasse. Caso desaparecesse e evaporasse sem te deixar pistas ou vestígios. Você se espantaria e questionaria o que é que, afinal, me ocorreu. Afinal de contas, eu nunca me calei. Em hipótese alguma. Sempre gritei o mais alto que pude, mesmo que, muitas vezes, o som da minha voz não tenha chegado aí. Nenhuma realidade ou fantasia, mesmo que finalizada, me levou ao tal ponto final. Sempre segui exclamando. É minha essa mania de exclamar.
(Exclamo pra me mostrar e, por fim, te mostrar.)
Poderia te deixar sem notícias por semanas, te afogar no meu silêncio e responder, dessa forma, a tudo o que nos aconteceu. Mas sempre há algo a ser dito. Releve isso também, por favor. Estou muito acostumada (e acomodada pelo costume) a te dizer tudo. Foi assim que começou, não foi? Comigo te dizendo. E é assim, desse mesmo jeito torto, que te digo até hoje. E sigo dizendo. Tome essas palavras como suas, porque, dessa vez, elas realmente são. E, fique você sabendo: sempre foram. Entendo perfeitamente suas ocupações, sua falta de tempo, seus atrasos, seus amigos, suas vontades, seus desenhos, suas histórias, seus papos. Mas entendo também, e com ainda mais perfeição, que a sua vida não me cabe. Sei que poderia simplesmente entender isso e, com esforço sobrenatural, esquecer tudo o que foi dito até aqui. Mas não consigo, porque preciso dizer ainda mais pra sentir que tudo está mais claro e limpo.
(Palavras sempre limparam e esclareceram a minha vida.)
Poderia não dramatizar tanto o nosso caso, não insistir tanto nessa história, não usar tantas falas prontas pra te convencer. Poderia, pelo menos dessa vez, deixar de lado as minhas ceninhas. Aqueles dramas que, no fundo, só pedem atenção. Afinal, eu nunca fui mesmo uma boa atriz. Poderia engolir o choro algumas vezes, e fingir ser forte e corajosa. Pelo menos enquanto você estivesse por perto. Mas, a vontade de não te deixar ir antes de me ouvir toma conta da possibilidade de, sabiamente, ignorar todas essas realidades imutáveis às quais eu não tenho mais (se é que um dia tive) poder de mudar. Mas, entenda o que eu vou dizer: eu nunca fui uma boa atriz. Assim, eu usaria minha mudez pra assombrar o seu mundo, invadir sua casa, pesar sua consciência, atormentar suas mentiras, prolongar seus dias, enfatizar suas horas, quebrar seus vidros, explodir sua audição. Poderia ser sutil como o tiquetaquear do relógio e te emudecer com o som intenso e alto do silêncio que grita, em algum canto, dentro de mim. Poderia te trazer pra cá em meios segundos pelo azedo da minha ausência, mas eu insisto em querer que você esteja aqui pelo doce da minha presença. Talvez, ao longo dos anos, tal doçura tenha se perdido, se dissipado pelo universo, ou mesmo se transformado em leve e sutil amargura nos dias de inverno. Bem sei que poderia despistar. Mas, afinal, eu nunca fui mesmo uma boa atriz.
Queria que, lendo tudo isso, você me sentisse perto, da maneira com que sempre tentei, do meu jeito, estar. Mais perto do que nunca. Você já deve saber que eu não gosto de lero-lero. Quem me conhece, sabe. E eu espero que você também me conheça. Espero que, no meio de tanta gente, você ainda não tenha se esquecido de quem eu sou. Sei que sou irônica quando algo me aborrece. Sei que somos como ouriços tentando nos aproximar. É claro que isso nunca poderia dar certo. Já te adianto que não pretendo, nunca pretendi, te machucar com meus espinhos. Desejo, de coração, que minhas palavras não te tirem o humor ou a alegria. Sei que você é alegre e sua alegria me alegra também. Por isso, guarde tudo isso sem dor, “embora, em segredo, doa”.
O que eu quero te dizer, nesse momento, é que está se tornando cada vez mais difícil pra mim, viver de idealizações. E manter vivo um sentimento desse jeito está se tornando impossível. Não posso continuar arquivando tudo o que quero te dizer pra um dia qualquer. Isso não faz bem pra mim e, por isso, não pode fazer bem pra você também. Portanto, não queira que eu guarde palavras que me arranham noite e dia por medo de ser arranhado. Eu não tenho garras, mas também não tenho meias verdades. Minhas palavras são inteiras. E suas.
Pensei ser forte, mas percebi (e da pior forma possível) que não sou. Pelo contrário, sou uma menina frágil, de pouco mais que um metro e meio, tentando, a todo custo, ser dona de algumas verdades. Sou uma colecionadora de palavras e de notas que, articuladas, criam muito mais do que frases e músicas. Criam amores. E foi assim que eu te criei em mim.
(Um dia me disseram que só o criador pode destruir a criação.)
Até pensei que seria fácil me ausentar de você ou te ausentar de mim. Tanto faz no fim das contas. Mas, honestamente, eu me enganei. A psicanálise diz que há duas maneiras de matar alguém: fisicamente ou psicologicamente. A segunda possibilidade me causou um êxtase. Confesso que pensei ter encontrado uma solução pra tal caso de amor impossível, levemente inviável ou desastrado, quando ouvi isso. Bastaria te matar do modo indolor e sutil, sem te eliminar da vida, que você tanto ama. Bastaria te matar de mim. Me disseram que o processo era simples. Só precisaria eliminar tudo, sem exceção, dos seus restos que ficaram em mim. Música, foto, livro, poesia, carta, porta-retrato, sonho, cheiro, pó, segredo, endereço, telefone, nome. Tudo, exatamente tudo. Eu teria que perder a memória por você. Mas eu descobri que isso não poderia ser tão fácil. Há mais de você em mim do que eu supunha. Somos o paraíso um do outro e, juntos, somos nosso próprio paraíso. Particular.
Sei que já disse demais. E imagino que você já deve ter entendido tudo, se é que isso já não havia acontecido enquanto eu silenciava. Mas sempre foi uma característica minha prolongar os fins. Não sei de nenhum modo bonito pra finalizar uma carta assim. Mas prometo que você continuará aqui comigo por um longo tempo. Prometo compreender, com carinho, toda a sua história. Prometo seguir com esse amor explosivo dentro de mim. E prometo cumprir todas essas promessas. E prometo, com ainda mais fervor, prometer tudo de novo, quantas vezes for preciso.
quarta-feira, 21 de abril de 2010
ANTES DA LARGADA
É incrível como a facilidade com a matemática nunca pôde lhe dar sequer uma mãozinha na hora dos cálculos que envolviam sua própria vida. Apesar de não ter problema algum com as contas, nunca conseguiu entender como seria esse difícil desafio de se reduzir. De diminuir algo em si a cada tempestade. De ser menos a cada desencontro. De lutar menos a cada causa perdida. De se encantar menos com o futuro a cada desencanto do passado. De se apressar menos a cada parada no meio do caminho. De se acomodar mais com situações mornas a cada vez que o caldo fervia tanto que transbordava. Ela deveria ter aprendido antes que os seus advérbios de intensidade estavam fora do lugar. E que talvez ela mesma estivesse fora do lugar. Deveria ter aprendido antes a se equilibrar, a se neutralizar, a caminhar em linha reta. Já deveria ter aprendido a não tomar frente de tudo e não defender causas que não são suas. Já deveria ter aprendido que dar a cara à tapa pode ser perigoso, que sinais vermelhos, às vezes, são necessários e que, parar quando um sinal se fecha, pode evitar dores do futuro. Já deveriam ter lhe dito que “Deus escreve certo por linhas tortas”, e que se conformar com uma situação nem sempre é sinal de fraqueza. Muitas vezes é sinal de sabedoria.
Já passou da hora de parar de andar em labirintos que ela mesma inventa. Já passou da hora de parar de fazer tempestade em gotas d’água. Já passou da hora de tirar essa fantasia bonita e limpar a maquiagem que borrou. Já passou da hora de parar de correr sem saber pra onde. Já passou da hora de descer do salto. Já passou da hora de aprender a respeitar certos limites e aceitar tudo aquilo que ela não pode mudar.
Ela precisava entrar num consenso sobre suas duas partes extremas que gritavam tão alto. Precisava ficar em cima do muro de vez em quando e não ter vontade de pular pra nenhum dos lados. Precisava entender que era hora de se reservar, se prevenir, entrar no casulo, sair de cena. Precisava ter a paciência pra se sentar e, tranquilamente, esperar que a vida acontecesse. Precisava se equilibrar em uma corda bamba, porque a vida era um fio. E o amor também. Precisava aprender sobre banho-maria. Precisava cortar os vícios. Conter a pressa. Manter o peso. Organizar os horários. Seguir a agenda. Não podia ser tão difícil! Ela precisava parar de misturar tudo e colocar cada coisa no seu lugar. Precisava encontrar as partes de si que estavam espalhadas por aí, juntar tudo isso e descobrir quem afinal ela era. Mas ela promete que, assim que descobrir, vem aqui pra contar.
terça-feira, 6 de abril de 2010
SEGREDO
Eu te contaria tudo e com detalhes, te explicaria quantas vezes fosse necessário e te faria entender tudo o que eu também não entendo... Mas, não posso. Existe uma parte minha em você e uma parte sua em mim, mas isso é segredo. Se não fosse, eu te contaria. Mas é. E em dias como estes, o real desaparece, as palavras urgentes explodem o silêncio, as rimas já não têm tanta importância. Equipei meu coração com mil alto-falantes. Gritei o mais alto que pude, mas o som da minha voz não chegou aí. Não, não vai ser mais segredo que eu te quero aqui.
sábado, 6 de março de 2010
CAPRICHO
Queria que você fosse o meu caderno, pra que, ao menos dentro de você, tudo fosse possível. Queria uma verdade inventada pra te fazer feliz. Queria ter o poder de fantasiar um final de filme pra esse “eu e você” que insiste em não me deixar em paz... Um final que fosse o conto do nosso conto, o sonho do nosso sonho e que tivesse o nome e a cor da gente. Queria me escrever em você de caneta azul e nunca mais apagar. Queria te dar minhas melhores palavras, sem devolução. Sem borracha. Sem validade. As frases de caneta são eternas e você não pode apagar. Queria nos rabiscar, nos desenhar, nos enfeitiçar, nos grifar, nos colorir. Queria ter você entre uma palavra e outra, sem espaços, sem rimas prontas, no inverso de mim, na interjeição de nós. Queria te mostrar, capítulo por capítulo, essa nossa história, que já existia antes mesmo de nós. Queria te mostrar meus ensaios, os ensaios de mim mesma, pra você me tirar do rascunho e, finalmente, me viver.
Queria que você fosse o meu violão, pra simplesmente te tocar pra sempre como se a nossa música nunca fosse acabar. Como se as nossas notas notassem profundamente os nossos desejos, que são os mesmos. Como se os nossos acordes, a gente soubesse de cor e salteado, sem cifras. Queria cantar pra você, em segredo, os nossos versos, que são só nossos. Queria sussurrar pra você uma palavra bonita que te fizesse sorrir. Queria te afinar, te transformar em som, te unir à minha voz e nunca mais separar. Queria ter você no meu colo, perto do meu coração que, nesse momento, estaria batendo acelerado só por você estar comigo. Queria que você ouvisse tudo isso. Minha voz, meu som, minha rima, meu coração... Queria que você entrasse no meu palco, roubasse minha cena, tirasse minha fala, entendesse o meu tom. Queria que você me lembrasse da letra, caso eu esquecesse. Queria que me trouxesse de volta, caso eu resolvesse, inexplicavelmente, fugir. Queria que me moldasse e me modulasse, em tom e semitom, pra você.
Queria que você não fosse simplesmente você. Queria que você fosse exatamente o espaço entre nós, pra te aproximar, te apaixonar, te encantar, te seduzir, te poetizar. Queria ter você no cheiro, na respiração, na inspiração, no sonho, no verso. Não queria ser na sua vida apenas um simples rascunho. Não queria ser uma página qualquer onde você faz riscos pra se distrair. Acorde desse sono que nos aprisiona e me tire do sonho. Não espere eternamente pela força do acaso, pela largada, pelo “já”, pelo destino, pelo início do meio do nosso final.
Entenda que gostar não tem razão, não tem motivo. E é bom que seja assim. Não quero ter que explicar, não quero entender tudo, não quero ter certezas demais. Queria mesmo me perder pra, quem sabe, te encontrar. Capricho?
ps: eu vou andar com você...
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
CANTADA
Em canto, te canto e encanto.
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
SIMPLESMENTE ME ABRACE
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
@decotoledo
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
MANO VELHO

Desde muito antes de Cristo as pessoas já sentem essa necessidade maluca de serem controladas pelo tempo. Relógios de sol, de água, de areia. Relógios de pêndulo, de parede, de bolso, de pulso, digitais. Desapareceu do mapa o nosso relógio biológico. Somos controlados e cruelmente limitados por ele, que dita todas as regras. Que diz a hora certa de almoçar, jantar, acordar, ir dormir, sair para o trabalho, voltar pra casa, dormir com a esposa.
Quem acorda depois das nove é preguiçoso e não quer saber de nada. Onde já se viu? Quem acorda antes do despertador é ativo, animado, disposto, trabalhador. E “Deus ajuda quem cedo madruga”, então ta aí uma pessoa de sorte. Quem almoça as dez da manhã é um descarado, insano de tudo, totalmente sem noção. Perdido na vida. Dá dó. Quem almoça depois das três da tarde é um tremendo farrista. Festeiro nato, é claro. Deve ser meio folgado, não quer saber de trabalho e deixa a vida levar. Ah, e é provável que esteja comendo churrasco enquanto você, pessoa normal que acorda as seis pra trabalhar, faz o horário de almoço direitinho ao meio dia e chega de volta na hora certa todos os dias e às vezes faz até hora extra, que é pontual, trabalhador e correto com suas obrigações, que janta no horário certo e dorme cedo, está aí. Pois ainda digo que quem dorme tarde demais é meio vagabundo. Não tem muito o que fazer, provavelmente não tem emprego ou ocupações. Ah, e o que esse alguém fica fazendo até tão tarde também é de produtividade duvidosa. Talvez assista programas inúteis na televisão, talvez entre em sites de pornografia na internet, enfim. Esse é o perfil dos que arrastam madrugada afora de olhos bem abertos. Afinal, pessoas equilibradas dormem cedo, portanto assistem ao Jornal Nacional, à novela das nove e, quando muito, ao BBB. Certo?
Errado. É muito chato viver nessa correria idiota que a gente vive. Corremos sem saber pra onde, sem saber se chegaremos inteiros. E quase nunca chegamos. E a cada parada estamos mais vazios. A cada ponto em que paramos pra respirar, menos ar consegue chegar aos nossos pulmões e menos gente conseguimos enxergar, de fato, ao nosso lado. Tanta gente que desceu na estação anterior. Tanta gente que já se foi, não agüentou a pressão. Estamos sós. A nossa companhia é o tempo, nosso próprio assassino. Cada segundo é um segundo a mais e um segundo a menos. Um segundo que chegou e que se foi, muito antes de você notar. Não deu tempo nem de piscar os olhos e mais um ano de passou. Um ano, dois, três, quatro... Uma década. De vida.
O que a gente faz da vida da gente é responsabilidade nossa. Não, o acaso não tem culpa. O destino não é tão cruel assim. É errado a gente sempre se esconder na fatalidade e se consolar com impossibilidades. Mas é certo a gente pensar direito no que queremos para o próximo segundo, que era futuro, se fez presente e virou passado antes de você ler. Já dizia Cazuza, que o tempo não pára e a gente ainda passa correndo. Ouvi hoje uma coisa muito inteligente: pra gente conseguir ter orgulho do nosso passado, precisamos estar satisfeitos com nosso presente. Satisfação no hoje é isso. É presente.
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
AS MINHAS CORES
Não sei se abro os olhos para os tons do mundo ou se os mantenho fechados e me declaro eternamente virgem da vida. Não sei se entro em jejum por dias, semanas, meses, pela vida inteira, ou se engulo tudo de uma vez só. Não sei se espero a largada e por fim me comporto como gente sã que não sou ou se fujo agora mesmo e sem deixar pistas. Não sei se participo do jogo, se cumpro as regras, se entro na fila de qualquer migalha, se danço conforme a música ou se finalmente explodo nessas minhas cores que têm o péssimo costume de irritar os olhos de quem me vê. Minhas cores são luminosas e não fazem bem às retinas comuns como a sua. Preciso de uma pupila dilatada que vai, silenciosamente, me entender, sem fazer o menor ruído. Preciso de um coração pelo avesso que me ajude a fotografar a vida. Porque não sou eufônica, sou eufórica. Não sou dosada, não sei ter medidas, não sei quando parar e corro demais. Tenho todas as cores que existem no universo dentro de mim.
Preciso da minha caneta de fru-fru rosa e do meu caderno novo com desenho de bichinhos coloridos, pra simplesmente te contar.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
DO NOSSO MODO TORTO
De longe, cheguei a pensar que as semelhanças nos aproximariam em alguma esquina. Nossas músicas, nossas palavras, nossas cores, nossas rimas, nossos sonhos. Mais tarde vim a perceber que foram as ditas cujas semelhanças, malditas, que nos afastaram de um jeito talvez irreversível. A palavra dita não volta. É que nós, que sempre gostamos muito de dizer e dizer de tudo, dissemos demais. Porque ouvimos as mesmas músicas, lemos os mesmos livros e gostamos de cores que, de algum modo (talvez do nosso modo) combinam. Eu não sou delicada. Ela também não é. Por isso, não soubemos nos afastar de um jeito sutil, sem que ninguém percebesse e sem choque. Somos fortes. Somos feras. As duas. E, como fortes feras que somos, quase lutamos com toda a força que não tínhamos. Nossa força está no coração. E foi assim que eu lhe dei um apelido, ela me deu uma música. Eu lhe dei minha loucura, ela me deu um sorriso. Eu lhe dei minha palavra, ela me deu a melodia. E por fim, demos uma à outra o cheque-mate. Chegou ao fim, morreu. E foi assim que nos afastamos. No susto. No impulso. No ímpeto. De repente, nos repelimos, como dois átomos de cargas iguais que não se atraem. A diferença é que átomos de cargas iguais jamais se atraíram, em hipótese alguma. E nós... Nós chegamos a acreditar, em algum momento, que seríamos uma para a outra a irmã que jamais tivemos. Não fomos e nem seremos. Em certo momento, caminhamos lado a lado nos passos, mas nunca no sentimento. A verdade é essa e é preciso que ela seja dita, porque gosto de verdades. Acredito que ela também goste. E acredito que, no fundo, ela já saiba de cada palavra minha. Ela se conhece e me conhece muito bem.
Talvez nunca tenhamos gostado verdadeiramente uma da outra, mas sempre soubemos quem éramos. Estivemos por um longo tempo lado a lado, mas nunca no mesmo chão. Ela morava na Terra e eu talvez nem soubesse onde morava. Ela me julgava louca, mas eu sei que no fundo ela também era. Concorríamos na nossa loucura e em quase tudo, porque éramos diferentemente iguais, porque éramos ímpares, singulares. Tínhamos o mesmo contorno, mas nos preenchíamos de modos muito diferentes. Vivíamos em eixos simétricos. Éramos vetores de mesma direção, mas sentidos opostos. E apesar de todo o peso que nós mesmas colocamos em nossas próprias declarações, nunca houve amor.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
HOJE EU VOU ASSIM!
Ponto - pon-to: Sinal, marca ou mancha de dimensão mínima e formato arrendondado; pingo; pinta; furo feito com agulha enfiada em qualquer tecido; pedaço de linha que fica entre dois furos de agulha; matéria, assunto em disciplina escolar; sinal semelhante ao que deixa uma picada de agulha; pequeno adesivo que une bordas de ferida ou veda o sangue; limite ou intersecção de linhas; a extensão em abstrato, sem dimensões; sítio, passagem, lugar determinado, local; estado de questão; sinal de pontuação com que se encerra período; sinal usada em abreviaturas (ponto abreviativo) e sobre o “i” e o “j”; cada uma das pintas nas faces dos dados ou nas cartas do jogo, indicativas do respectivo valor; fim, termo; tempo marcado, ensejo; conjuntura; livro em que se marcam as faltas; grau ideal de cozimento de um alimento; grau na escala de medidas; ...
É. Parece que o ponto significa mesmo um tanto de coisas. Não é só um sinal de pontuação. É o ponto que encerra ciclos e abre espaço pra que outros se iniciem. É só o ponto que sabe a hora de parar e, portanto, a de começar. É ele que faz com que a gente entenda tudo. Ele permite que vivamos tudo o que existe antes dele intensamente, mas nos lembra que tem hora marcada pra acabar. Mas quem foi que disse que tempo limitado é ruim? Sinceramente, se a gente soubesse a hora das coisas terminarem tudo ficaria muito mais bonito na memória. As lembranças amargas dariam lugar apenas as doces recordações, registradas em retratos silenciosos que pra sempre farão sorrir. É o ponto (e não a vírgula, como dizem) que nos dá a paz, o descanso, a tranqüilidade. Que nos faz pensar e entender que nada, absolutamente nada, é por acaso. E que toda frase é bendita e bem dita. A vírgula é simplesmente um sinal de pontuação que pausa tudo por tempo determinado. Mas o ponto, esse sim tem o poder de determinar o tempo das coisas com sabedoria. Nada termina antes do fim, e isso é extremamente consolador. Não precisamos sofrer muito se entendermos que pontos sempre vêm para o bem. Se entendermos que é assim mesmo em toda parte: as pessoas chegam, as frases começam com uma alegre letra maiúscula, as pessoas nos conquistam, a frase começa a ganhar sentido, nos sentimos felizes por tê-las ao nosso lado e é exatamente nessa hora que elas se vão e o ponto, aquele cruel e insensível, entra em ação. É justamente no ápice. Pra ficar eterno sem ser infinito. É assim mesmo que tem que ser. O ponto propõe o desapego, simplifica tudo, divide tudo igualmente, sem complicar. O ponto mata todas as noites reticentes e todas as exclamações desenfreadas, mas nos traz a consciente realidade que, de um jeito ou de outro, manda todo dia na vida da gente.
O ruim é que só aprendemos a ser ponto bem mais tarde. Confesso que ainda não aprendi. Ainda me perco em todas as possibilidades das reticências, em toda euforia da exclamação, em toda insegurança da interrogação, em todo o receio da vírgula e em toda entrelinha dessa pontuação. Ainda acho muito difícil que tudo exista sem maiores detalhes, sem muitas emoções. Ainda acho difícil virar as costas e passar de palavra pra ponto assim, sem chorar um pouco. Ainda acho difícil colocar algum limite no meu coração, logo nele, que nunca teve freios ou controlar sentimentos e me posicionar fria e indiferente a tudo atrás de mim. Acho, digamos impossível, deixar de lado toda minha sensibilidade que me liberta e aprisiona incontestavelmente a troco de um fim, ainda que este seja a minha única saída. Eu gosto das saídas que não existem. Eu gosto de tudo o que não existe e me apaixono facilmente por pessoas que não conheço, é esse o meu castigo. Quero sempre mais de tudo do que o tudo pode me oferecer e não termino nunca. Minha frase é infinita, sempre foi. Meu coração é permeável, transparente, sonhador e até tem asas, mas não é resistente à quase nada. Eu literalmente não sei e até me recuso a resistir. Me recuso a ser forte o suficiente pra impor um final àquilo que eu não quero que seja finito. Não quero um ponto que me limite, sufoque, aprisione. Quero ter o direito de não saber o que dizer... De não saber o que sentir!!! Ou de simplesmente não saber? É. Me permito ser frágil e bagunçar tudo dentro de mim pra só arrumar quando for preciso. (É que eu tenho fases.)
E o que eu desejo nesse momento, pra mim e pra você, leitor, é que a gente saiba o ponto certo pra usar. A nossa vida é feita de escolhas, isso todo mundo sabe. Ou diz que sabe. Mas pouca gente sabe escolher direito. E nem deve. Acho que os erros são sim, construtivos quando o errante realmente quer aprender com eles. Mas que hoje, a gente consiga parar pra pensar e decidir com que ponto estamos. Com que ponto vamos. Pra nos assumirmos por inteiro, seja como for. Porque se assumir é a maior delícia à que temos direito.
Hoje eu vou assim!

