quarta-feira, 21 de abril de 2010

ANTES DA LARGADA


Ela sempre soube que pecaria nessa vida pelos seus excessos. Sempre soube que pagaria por esses pecados. Mas, se exagerar era mesmo um pecado, sempre esteve disposta a pagar o preço e seguir pecando. Nunca soube dosar, medir, calcular. A razão nunca falou mais alto. A realidade nunca lhe prendeu. É que ela sempre viveu uma parte de si no imaginário. Num país de maravilhas. Num mundo encantado. Provavelmente no seu próprio mundo. Ela era quase Alice.

É incrível como a facilidade com a matemática nunca pôde lhe dar sequer uma mãozinha na hora dos cálculos que envolviam sua própria vida. Apesar de não ter problema algum com as contas, nunca conseguiu entender como seria esse difícil desafio de se reduzir. De diminuir algo em si a cada tempestade. De ser menos a cada desencontro. De lutar menos a cada causa perdida. De se encantar menos com o futuro a cada desencanto do passado. De se apressar menos a cada parada no meio do caminho. De se acomodar mais com situações mornas a cada vez que o caldo fervia tanto que transbordava. Ela deveria ter aprendido antes que os seus advérbios de intensidade estavam fora do lugar. E que talvez ela mesma estivesse fora do lugar. Deveria ter aprendido antes a se equilibrar, a se neutralizar, a caminhar em linha reta. Já deveria ter aprendido a não tomar frente de tudo e não defender causas que não são suas. Já deveria ter aprendido que dar a cara à tapa pode ser perigoso, que sinais vermelhos, às vezes, são necessários e que, parar quando um sinal se fecha, pode evitar dores do futuro. Já deveriam ter lhe dito que “Deus escreve certo por linhas tortas”, e que se conformar com uma situação nem sempre é sinal de fraqueza. Muitas vezes é sinal de sabedoria.

Já passou da hora de parar de andar em labirintos que ela mesma inventa. Já passou da hora de parar de fazer tempestade em gotas d’água. Já passou da hora de tirar essa fantasia bonita e limpar a maquiagem que borrou. Já passou da hora de parar de correr sem saber pra onde. Já passou da hora de descer do salto. Já passou da hora de aprender a respeitar certos limites e aceitar tudo aquilo que ela não pode mudar.

Ela precisava entrar num consenso sobre suas duas partes extremas que gritavam tão alto. Precisava ficar em cima do muro de vez em quando e não ter vontade de pular pra nenhum dos lados. Precisava entender que era hora de se reservar, se prevenir, entrar no casulo, sair de cena. Precisava ter a paciência pra se sentar e, tranquilamente, esperar que a vida acontecesse. Precisava se equilibrar em uma corda bamba, porque a vida era um fio. E o amor também. Precisava aprender sobre banho-maria. Precisava cortar os vícios. Conter a pressa. Manter o peso. Organizar os horários. Seguir a agenda. Não podia ser tão difícil! Ela precisava parar de misturar tudo e colocar cada coisa no seu lugar. Precisava encontrar as partes de si que estavam espalhadas por aí, juntar tudo isso e descobrir quem afinal ela era. Mas ela promete que, assim que descobrir, vem aqui pra contar.

terça-feira, 6 de abril de 2010

SEGREDO

Tem certos dias, especialmente os chuvosos, em que a vontade de te contar tudo o que você nunca soube preenche todas as páginas do nosso livro. Tem certos dias, especialmente os saudosos, em que as palavras que eu tenho pra te dar, por si mesmas, escalariam qualquer montanha que ameaçasse delimitar fronteiras entre o que eu sou e o que eu quero ser ao seu lado. Tem certos dias, especialmente os sonoros, em que o desejo de dizer tudo isso no seu ouvido se transforma em urgência de gritar. Tem certos dias, especialmente os dengosos, em que eu queria poder exigir que você nunca mais fosse pra longe, sem ter que argumentar demais. Tem certos dias, especialmente os amargos, em que eu gostaria de me ausentar de você pra, finalmente, contar o que sobraria de mim. Tem certos dias, especialmente os dolorosos, em que a vontade de te ter em palavras simples, olhares longos, frases curtas e dias claros, parece não se conter mais no silêncio. Tem certos dias, especialmente os calorosos, em que o desejo de perder as palavras, a razão e o juízo com você é maior do que toda essa ponte, contada em milímetros. Tem certos dias, especialmente os tortuosos, em que eu poderia te assegurar que trocaria todos os cheiros do mundo pelo seu, sem sequer saber ao certo que perfume você usa. Tem certos dias, especialmente os generosos, em que você parece se sentar mais perto. Tem certos dias, especialmente os numerosos, em que a minha pressa vence a própria razão e não te esquece. Tem certos dias, especialmente os duvidosos, em que o medo duvida da certeza, o sonho desafia os limites e o sentimento, que já não cabe em mim, transcende o tangível.

Eu te contaria tudo e com detalhes, te explicaria quantas vezes fosse necessário e te faria entender tudo o que eu também não entendo... Mas, não posso. Existe uma parte minha em você e uma parte sua em mim, mas isso é segredo. Se não fosse, eu te contaria. Mas é. E em dias como estes, o real desaparece, as palavras urgentes explodem o silêncio, as rimas já não têm tanta importância. Equipei meu coração com mil alto-falantes. Gritei o mais alto que pude, mas o som da minha voz não chegou aí. Não, não vai ser mais segredo que eu te quero aqui.

sábado, 6 de março de 2010

CAPRICHO



Queria que você fosse o meu livro, pra eu te ler todo dia e te saber de cor. Queria te decorar, te prever, te rodear, te recitar, te frasear, te fantasiar, te soletrar, te interpretar. Queria repetir cada verso seu pra qualquer um que quisesse saber qualquer coisa sobre o amor. Queria conhecer cada página sua e me encantar. Queria ter você na ponta da língua e na palma da mão. Queria tocar suas letras e entender seu coração.

Queria que você fosse o meu caderno, pra que, ao menos dentro de você, tudo fosse possível. Queria uma verdade inventada pra te fazer feliz. Queria ter o poder de fantasiar um final de filme pra esse “eu e você” que insiste em não me deixar em paz... Um final que fosse o conto do nosso conto, o sonho do nosso sonho e que tivesse o nome e a cor da gente. Queria me escrever em você de caneta azul e nunca mais apagar. Queria te dar minhas melhores palavras, sem devolução. Sem borracha. Sem validade. As frases de caneta são eternas e você não pode apagar. Queria nos rabiscar, nos desenhar, nos enfeitiçar, nos grifar, nos colorir. Queria ter você entre uma palavra e outra, sem espaços, sem rimas prontas, no inverso de mim, na interjeição de nós. Queria te mostrar, capítulo por capítulo, essa nossa história, que já existia antes mesmo de nós. Queria te mostrar meus ensaios, os ensaios de mim mesma, pra você me tirar do rascunho e, finalmente, me viver.

Queria que você fosse o meu violão, pra simplesmente te tocar pra sempre como se a nossa música nunca fosse acabar. Como se as nossas notas notassem profundamente os nossos desejos, que são os mesmos. Como se os nossos acordes, a gente soubesse de cor e salteado, sem cifras. Queria cantar pra você, em segredo, os nossos versos, que são só nossos. Queria sussurrar pra você uma palavra bonita que te fizesse sorrir. Queria te afinar, te transformar em som, te unir à minha voz e nunca mais separar. Queria ter você no meu colo, perto do meu coração que, nesse momento, estaria batendo acelerado só por você estar comigo. Queria que você ouvisse tudo isso. Minha voz, meu som, minha rima, meu coração... Queria que você entrasse no meu palco, roubasse minha cena, tirasse minha fala, entendesse o meu tom. Queria que você me lembrasse da letra, caso eu esquecesse. Queria que me trouxesse de volta, caso eu resolvesse, inexplicavelmente, fugir. Queria que me moldasse e me modulasse, em tom e semitom, pra você.

Queria que você não fosse simplesmente você. Queria que você fosse exatamente o espaço entre nós, pra te aproximar, te apaixonar, te encantar, te seduzir, te poetizar. Queria ter você no cheiro, na respiração, na inspiração, no sonho, no verso. Não queria ser na sua vida apenas um simples rascunho. Não queria ser uma página qualquer onde você faz riscos pra se distrair. Acorde desse sono que nos aprisiona e me tire do sonho. Não espere eternamente pela força do acaso, pela largada, pelo “já”, pelo destino, pelo início do meio do nosso final.

Entenda que gostar não tem razão, não tem motivo. E é bom que seja assim. Não quero ter que explicar, não quero entender tudo, não quero ter certezas demais. Queria mesmo me perder pra, quem sabe, te encontrar. Capricho?

ps: eu vou andar com você...

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

CANTADA



Te conto um segredo. Te canto baixinho. Te encanto de fininho. Te levo pra vida. Te entrego minhas páginas. Te rabisco no céu. Te olho nos olhos. Te afago gostoso. Te desenho nas nuvens. Te mostro meu filme. Te trago pro enredo. Te digo uma verdade. Te cego me vendo. Te contorno em meus braços. Te acalmo em abraços. Te presenteio com meus olhos. Te abafo no peito. Te chamo de louco. Te leio num livro. Te sonho bonito. Te vejo no nada. Te gosto no tudo. Te peço uma rosa. Te escrevo um poema. Te apresento pra mim. Te aponto um planeta. Te imploro à uma estrela. Te toco em silêncio. Te invento no vento. Te grifo no verso. Te sinto no universo. Te identifico em toda parte. Te noto sozinho. Te chamo pra perto. Te transporto ao certo. Te marco em mim. Te engano assim. Te tomo enfim. Te encontro em fim. Te eternizo aqui. Te faço feliz.

Em canto, te canto e encanto.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

SIMPLESMENTE ME ABRACE

O abraço é o meu idioma. Por mais sem graça ou tímida que eu esteja, nunca vou te dar um abraço frouxo. Com pressa. Sem vontade. Sem cor. Sem calor. Não, me recuso. Não, não se assuste. Não recue. Não se intimide. Vamos conversar e não dizer nada. Vamos dizer tudo em um abraço. Vamos ser o mundo inteiro nesse momento. Seja o mundo inteiro pra mim nesse momento. Vamos fazer com que tudo o que sentimos caiba nesse abraço. Vamos fazer com que tudo o que sentimos seja infinitamente maior que nós mesmos. E que o espaço entre nós tenha sempre verdade. Que os nós de nós sejam desatados e que nosso abraço seja sempre a nossa verdade. A única que nos pertence.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

@decotoledo

Alguém de frases. Trilhas. Sonhos. Amores. Tatuagens. Vôos. Instintos. Idéias. Ideais. Sinceridade. Força. Transparência. Esperança. Cumplicidade. Alguém de fé e de luz. Talvez ele pareça louco, com tantas palavras bonitas, com tantas vontades infinitas, verdades e entrelinhas dentro do peito. Alguém talvez fora de moda que, antes de mais nada, sente muito. Sem joguinhos, artimanhas, meias verdades, reservas, máscaras, esconderijo. Alguém que, definitivamente, não se esconde. Que é avesso a mil coisas, que propõe que tudo seja mais simples e sincero, que já se encontrou, desencontrou e reencontrou com o amor mil vezes, mas ainda não deixou de acreditar que ele existe. Que quer filhos pulando na cama, mas não acredita em felicidades baratas que pulam da TV. Que quer olhar nos olhos e enxergar além do que é visível. Que quer alma-gêmea, destino marcado, reticências, cara metade. Que sonha com uma história escrita nas estrelas e sentida segundo por segundo na pele tatuada, no coração descompassado, no corpo quente. Que quer envelhecer junto, voar o mais alto possível, viajar o mais longe possível dentro de si mesmo e dentro de alguém. Quer estampar uma paixão sem limites pelo mundo afora, quer colorir a vida, quer se entupir de tudo o que for de verdade. Alguém que gosta do que dizem ser careta e está disposto a viver tudo de um jeito sem igual. Alguém que quer essência e não faz-de-conta. Que está cansado de faltas, ausências, buracos, multidões, vazios, poses, cascas, rótulos, modinhas. Que espera algo muito maior de um encontro perfeito, de um Natal feliz, de uma virada emocionante. Alguém que quer mais que um corpo malhado, um presente caro, um número bonito pra nos estimular a renovar e colorir a vida nova. Alguém que verbaliza a vida de um jeito simples, como se fosse fácil. Íntimo das palavras, ele combina letra por letra na sua prosa que acompanho há anos. É ele, o Deco. Canceriano de coração que nunca muda. Que sabe do que gosta, do que não gosta, o que procura, no que acredita, com o que sonha. E eu também sei.

domingo, 24 de janeiro de 2010

(IN)VERSO


Leia os versos que escrevi

E leia todos que ainda não escrevi
Me decifre por entrelinhas com ar de mistério
E me mostre a explicação, se houver

Me passe a limpo de um jeito muito melhor
Fale a minha língua e me conte um segredo
Me dê um livro, mas nunca me ofereça café
Sou você

Deixe que eu me sinta imprevisível
E me diga mil vezes que surpreendo
Permita que eu vista minha fantasia
E que acredite nela

Releve se sou menina e me nina
Ignore se às vezes sou meio boba
Cante pra mim quando eu estiver com sono
E brinque comigo sempre que eu precisar

Me carregue no colo como se fosse leve
Tire de mim todos esses medos que tanto pesam
Faça de conta que sou criança
Que eu deixo

Não me dê nenhum diamante
Me mostre a gota de orvalho na flor
Me faça sorrir de mim mesma
Se faça sorrir de nós mesmos

Enovele a nossa vida
Perdoe meus olhares
Conheça cada rima
E entenda

Conheça minhas fases e minhas frases
Mas fique perto em todas elas
Mesmo quando eu disser que prefiro que fique longe
É tudo mentira

Quando eu disser coisas demais
Me peça pra calar
O que é de verdade
Cabe no silêncio

Abra os olhos e me note, me anote
Às vezes só quero fazer pose pra você me ver
Abra os olhos e faça conta de mim
Quando eu quiser fazer de conta que sou de você

Me abrace o mais forte que puder
Conheça cada abraço meu
E se afaste de qualquer razão
Não diga nada

Esgote sua visão em mim
Me veja por inteiro
Me veja em relevo
Eu não te ofereço metades

Me escreva cartas pra eu guardar
Mesmo depois de anos e anos
Me escreva como se fosse a primeira vez
Palavras não ficam velhas

Nunca mude nenhuma letra
Daqueles nossos velhos rascunhos
Não conte nossa história pra ninguém
Pra que ela sempre seja nossa

Não me desenhe na pedra
Porque eu não sou eterna
Me risque sorrindo na onda
Ou na espuma branca daquele mar

Sofra as minhas dores
As dores desse amor bonito
Seja o primeiro a dizer sim
Enquanto todo o mundo disser não

Logo você que é nômade
Entrou em mim e ficou
Não preciso rimar mais nada
Você eu sou

No final de cada dia você parecerá louco
E quando nada disso te importar
Será a hora certa, o encontro que marcamos
E será daqui até a eternidade que desconhecemos


--

ps: Eu escrevo. Invento. Imagino. Sonho. E nesses sonhos, às vezes ultrapasso os limites da razão que eu vivo. Aqui eu expulso sim, meus sentimentos quase inconfessáveis. Mas nem sempre minhas palavras são fruto da minha realidade.
Esse blog não é um diário virtual. Faço das palavras do Cazuza, minhas palavras:

"
Cantando a gente inventa. Inventa um romance, uma saudade, uma mentira... Cantando a gente faz história."

Sigo fazendo história...

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

MANO VELHO



Às 6:30 da manhã acordo. Às 7:00, saio de casa. Às 9:40 como alguma coisa pra despistar a fome. Às 13:00, almoço. Mas não é assim pra todo mundo. Talvez a gente possa nos diferir pelos nossos próprios horários malucos. O servente do pedreiro que está trabalhando aqui perto da minha casa deve levantar mais ou menos no mesmo horário que eu. Mas nossas vidas tomam rumos diferentes a cada vez que o sol nasce outra vez. Às 7:00 ele começa a trabalhar. Às 9:40, continua trabalhando. Ao meio dia recebe sua marmita e come calado. Come quieto como bom mineiro. Às 17:00 ele recebe seus míseros trinta reais diários e volta pra casa. Encontra a esposa, talvez mal-humorada, reclamando das contas que chegaram. Ou quem sabe feliz, pelo simples fato de ter vencido mais um dia. Encontra os filhos chupando o dedo. E talvez ele chupe o dedo também. Quando estava voltando da viagem que fiz para a praia, vi um moço pela estrada, de madrugada. O relógio devia estar marcando umas 4:00, no máximo. Ele caminhava como quem já não quer nada.

Desde muito antes de Cristo as pessoas já sentem essa necessidade maluca de serem controladas pelo tempo. Relógios de sol, de água, de areia. Relógios de pêndulo, de parede, de bolso, de pulso, digitais. Desapareceu do mapa o nosso relógio biológico. Somos controlados e cruelmente limitados por ele, que dita todas as regras. Que diz a hora certa de almoçar, jantar, acordar, ir dormir, sair para o trabalho, voltar pra casa, dormir com a esposa.

Quem acorda depois das nove é preguiçoso e não quer saber de nada. Onde já se viu? Quem acorda antes do despertador é ativo, animado, disposto, trabalhador. E “Deus ajuda quem cedo madruga”, então ta aí uma pessoa de sorte. Quem almoça as dez da manhã é um descarado, insano de tudo, totalmente sem noção. Perdido na vida. Dá dó. Quem almoça depois das três da tarde é um tremendo farrista. Festeiro nato, é claro. Deve ser meio folgado, não quer saber de trabalho e deixa a vida levar. Ah, e é provável que esteja comendo churrasco enquanto você, pessoa normal que acorda as seis pra trabalhar, faz o horário de almoço direitinho ao meio dia e chega de volta na hora certa todos os dias e às vezes faz até hora extra, que é pontual, trabalhador e correto com suas obrigações, que janta no horário certo e dorme cedo, está aí. Pois ainda digo que quem dorme tarde demais é meio vagabundo. Não tem muito o que fazer, provavelmente não tem emprego ou ocupações. Ah, e o que esse alguém fica fazendo até tão tarde também é de produtividade duvidosa. Talvez assista programas inúteis na televisão, talvez entre em sites de pornografia na internet, enfim. Esse é o perfil dos que arrastam madrugada afora de olhos bem abertos. Afinal, pessoas equilibradas dormem cedo, portanto assistem ao Jornal Nacional, à novela das nove e, quando muito, ao BBB. Certo?

Errado. É muito chato viver nessa correria idiota que a gente vive. Corremos sem saber pra onde, sem saber se chegaremos inteiros. E quase nunca chegamos. E a cada parada estamos mais vazios. A cada ponto em que paramos pra respirar, menos ar consegue chegar aos nossos pulmões e menos gente conseguimos enxergar, de fato, ao nosso lado. Tanta gente que desceu na estação anterior. Tanta gente que já se foi, não agüentou a pressão. Estamos sós. A nossa companhia é o tempo, nosso próprio assassino. Cada segundo é um segundo a mais e um segundo a menos. Um segundo que chegou e que se foi, muito antes de você notar. Não deu tempo nem de piscar os olhos e mais um ano de passou. Um ano, dois, três, quatro... Uma década. De vida.

O que a gente faz da vida da gente é responsabilidade nossa. Não, o acaso não tem culpa. O destino não é tão cruel assim. É errado a gente sempre se esconder na fatalidade e se consolar com impossibilidades. Mas é certo a gente pensar direito no que queremos para o próximo segundo, que era futuro, se fez presente e virou passado antes de você ler. Já dizia Cazuza, que o tempo não pára e a gente ainda passa correndo. Ouvi hoje uma coisa muito inteligente: pra gente conseguir ter orgulho do nosso passado, precisamos estar satisfeitos com nosso presente. Satisfação no hoje é isso. É presente.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

AS MINHAS CORES

Não sei se abro os olhos para os tons do mundo ou se os mantenho fechados e me declaro eternamente virgem da vida. Não sei se entro em jejum por dias, semanas, meses, pela vida inteira, ou se engulo tudo de uma vez só. Não sei se espero a largada e por fim me comporto como gente sã que não sou ou se fujo agora mesmo e sem deixar pistas. Não sei se participo do jogo, se cumpro as regras, se entro na fila de qualquer migalha, se danço conforme a música ou se finalmente explodo nessas minhas cores que têm o péssimo costume de irritar os olhos de quem me vê. Minhas cores são luminosas e não fazem bem às retinas comuns como a sua. Preciso de uma pupila dilatada que vai, silenciosamente, me entender, sem fazer o menor ruído. Preciso de um coração pelo avesso que me ajude a fotografar a vida. Porque não sou eufônica, sou eufórica. Não sou dosada, não sei ter medidas, não sei quando parar e corro demais. Tenho todas as cores que existem no universo dentro de mim.

Preciso da minha caneta de fru-fru rosa e do meu caderno novo com desenho de bichinhos coloridos, pra simplesmente te contar.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

DO NOSSO MODO TORTO

Certa feita houve um alguém de nome composto e curioso que entrou na minha vida através de trocadilhos, talvez muito antes de participar dela. Alguém que, de longe, me parecia muito maior do que, mais tarde, vim a descobrir que é. Era alguém que sabia muito bem o que a vida era – digo, o que a vida é: um pisca-pisca. E entendia muito bem que a vida, especialmente a dela, era um rosário. Que recitava poemas de cor. E que escrevia poemas sem nenhuma cor. Era alguém de riso fácil e aberto, mas que dificilmente ficava feliz ou se abria verdadeiramente. Era contraditória, e aí estava o maior trocadilho de todos. Era alguém de humor variável, que tinha fases como a lua e como eu e que oscilava entre palavra e letra num riso de estrela. Ela estava condenada a uma prisão perpétua, dentro de si. Acho que eu também. Mas a diferença é que eu tinha fome de toda a liberdade do mundo. Meu coração tinha asas e coragem suficiente pra voar. Eu tinha sede da vida, e queria tomar a vida toda de uma vez, num gole só. Eu corria rápido demais, mas parava muito durante o caminho. Ela caminhava devagar e sem pressa, mas quase sempre chegava antes de mim. Nossa união foi um passeio, um role, um sonho de irmandade. E os sonhos eram nossa maior viagem. Viajávamos longe por eles e para eles e nem ligávamos se não dava em nada. Ela era alguém que temia as borboletas, temor esse que de alguma forma que eu não sei bem como explicar, me encantava. Era uma hipocondríaca, que tudo sentia sem nunca sentir nada. Era alguém que não tinha apenas duas caras, como todos nós temos. Ela tinha incontáveis faces que eu nunca conseguia desvendar. Ela era um paradoxo. Era ela paralela a si mesma. Era muita pretensão querer entender.

De longe, cheguei a pensar que as semelhanças nos aproximariam em alguma esquina. Nossas músicas, nossas palavras, nossas cores, nossas rimas, nossos sonhos. Mais tarde vim a perceber que foram as ditas cujas semelhanças, malditas, que nos afastaram de um jeito talvez irreversível. A palavra dita não volta. É que nós, que sempre gostamos muito de dizer e dizer de tudo, dissemos demais. Porque ouvimos as mesmas músicas, lemos os mesmos livros e gostamos de cores que, de algum modo (talvez do nosso modo) combinam. Eu não sou delicada. Ela também não é. Por isso, não soubemos nos afastar de um jeito sutil, sem que ninguém percebesse e sem choque. Somos fortes. Somos feras. As duas. E, como fortes feras que somos, quase lutamos com toda a força que não tínhamos. Nossa força está no coração. E foi assim que eu lhe dei um apelido, ela me deu uma música. Eu lhe dei minha loucura, ela me deu um sorriso. Eu lhe dei minha palavra, ela me deu a melodia. E por fim, demos uma à outra o cheque-mate. Chegou ao fim, morreu. E foi assim que nos afastamos. No susto. No impulso. No ímpeto. De repente, nos repelimos, como dois átomos de cargas iguais que não se atraem. A diferença é que átomos de cargas iguais jamais se atraíram, em hipótese alguma. E nós... Nós chegamos a acreditar, em algum momento, que seríamos uma para a outra a irmã que jamais tivemos. Não fomos e nem seremos. Em certo momento, caminhamos lado a lado nos passos, mas nunca no sentimento. A verdade é essa e é preciso que ela seja dita, porque gosto de verdades. Acredito que ela também goste. E acredito que, no fundo, ela já saiba de cada palavra minha. Ela se conhece e me conhece muito bem.

Talvez nunca tenhamos gostado verdadeiramente uma da outra, mas sempre soubemos quem éramos. Estivemos por um longo tempo lado a lado, mas nunca no mesmo chão. Ela morava na Terra e eu talvez nem soubesse onde morava. Ela me julgava louca, mas eu sei que no fundo ela também era. Concorríamos na nossa loucura e em quase tudo, porque éramos diferentemente iguais, porque éramos ímpares, singulares. Tínhamos o mesmo contorno, mas nos preenchíamos de modos muito diferentes. Vivíamos em eixos simétricos. Éramos vetores de mesma direção, mas sentidos opostos. E apesar de todo o peso que nós mesmas colocamos em nossas próprias declarações, nunca houve amor.