domingo, 27 de junho de 2010

CAPÍTULO


A vida de Alice havia realmente mudado muito. O mês de março se foi e levou consigo muitas coisas. Já não se via tão presa a Henrique. Depois de um longo ano, depois de sobreviver sozinha a todas as estações, depois de chorar uma ausência que nunca foi presença, ela decidiu retornar ao mundo de maravilhas do qual dispunha e voltar a ser feliz assim, como sempre fora. Depois de procurar em conhecidos o encanto de um desconhecido e, fatalmente, não encontrar, ela decidiu que haveria de encontrar em si mesma aquilo que, insistentemente, faltava. Quem sabe ela mesma não fosse a peça perdida?

Decidiu, acima de tudo, que cantaria. E, assim como fizera com todas as outras decisões que já havia tomado na vida, determinou que perseguiria o sonho até o fim. O pote de ouro sempre esteve atrás do arco-íris mas, naquele momento, por alguma razão totalmente desconhecida, ele brilhava mais do que nunca. E, atraída pelo brilho, ela percorria todos os caminhos multicoloridos do arco-íris enquanto aproveitava todos os carinhos do mundo.

A música invadiu a vida dela e ocupou os espaços vazios. Não sobravam mais faltas e nem faltavam sobras. Estava tudo em seu lugar. Mas as canções, inexplicavelmente, ainda eram para Henrique.


ps: Esse texto é parte de um dos capítulos de uma história. Parte da minha história. É que, escrevendo, eu sempre pude ser o que bem quis. Escrevendo eu me permito. E, nessa permissão, decidi inventar uma Alice e um Henrique. Decidi inventar um amor. Só pra me distrair. Mas é que, por acreditar demais nas próprias fantasias, Alice, Henrique e o amor têm ganhado vida dentro de mim. Depois de inventados, eles não mais me deixam em paz. Devo toda a inspiração e motivação à vocês, que leem minhas linhas e fazem o mais difícil: leem minhas entrelinhas. Se será um livro? Não sei. Mas eu me comprometo a buscar incansavelmente o pote de ouro que se esconde no final do arco-íris, porque, assim como Alice, eu persigo meus sonhos. E, assim como eu sempre digo, não tenho asas, mas tenho coragem suficiente pra voar.

ps²: Só pra constar: entre mim e Alice, qualquer semelhança é mera coincidência.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

PRESENTE

- Seu presente chegou. Ele está ali.

Senti borboletas na barriga quando ouvi isso. Como eu desejava tudo o que viesse de você o quanto antes! Como eu tinha pressa, urgência, loucura pelo que quer que tivesse seu nome. Seu nome... Seu nome... Seu nome, seu nome, seu nome.

Era amarela a caixa. Amarela e grande. Tudo bem. Não há nada de tão surpreendente nisso. Afinal, todas as caixas do SEDEX são amarelas. Mas o amarelo é minha cor preferida. A caixa tinha a cor e o tom que me faziam feliz. E eu me recuso a acreditar que seja mera coincidência. Sempre fui assim. Escolhi acreditar na sorte. No destino marcado. No amor ali, escrito nas estrelas. Escolhi entender a conspiração e a inspiração. Escolhi fazer pedidos às estrelas. Escolhi apostar nessa idéia romântica de que, em algum canto por aí, você vê a mesma lua que eu enquanto peço, em segredo, pra te ter na minha visão. Escolhi brincar de bem-me-quer nas margaridas sem me lembrar que existe mal-me-quer. Escolhi te encontrar nos livros, nos sons, nos versos, nas cartas, nos traços, nos riscos, nos rabiscos e nas letras de caneta. Escolhi te encontrar no seu próprio dia. Escolhi te encontrar em mim e me encontrar no nosso encontro. Escolhi seguir a intuição e fiz de cada movimento seu, um passo da nossa dança que seguia por si, sem obedecer à música que tocava. Sempre segui meu ritmo.

Procurei o lugar mais bonito para abrir o que era nosso. Nosso caso precisava de cena e de cenário. E assim, facilmente, viraria história de filme. (Se é que já não era).

Examinei primeiro a sua letra que preenchia os campos de destinatário e remetente. Seus traços tortos (pra mim, perfeitos), seus pingos nos “Ís” em formato de bolinhas e seu nome, sobrenome e endereço. De dentro da caixa saiu um amor visível. Tudo, nos mínimos detalhes, me agradava. Já não me lembro do que foi que vi primeiro. Mas sei que, em segundos, inúmeros amores estavam espalhados em cima da minha cama. Cada surpresa continha, em si, um carinho enorme que brilhava tanto que cegava os olhos. O amor estava em todos os cantos, inclusive em mim. O amor invadia o quarto e, orgulhoso, tomava conta de todo espaço, preenchia todos os vazios e se encaixava perfeitamente em tudo o que era meu. Seu amor parecia ter sido moldado aos meus próprios sonhos. Cada detalhe era poesia.

Você enviou, de longe, um cheiro que se instalou em mim. Posso convocar, em pensamento, esse cheiro, porque impregnou. O perfume, por si, explodiu meus sentidos e, mais uma vez, me fez feliz. E então, dei o primeiro jato. Bem sei que é pra manter o HUMOR.

Os corações vieram embalados, um a um. Confesso que não soube, de cara, o que havia dentro até que você, gentilmente, me contou que era óleo para a pele. Mas, decididamente, eu não iria estourá-los por nada. Repito: me fale sobre esses corações daqui a mil anos, e eu ainda os terei comigo.

O cachecol é vermelho e xadrez. Gosto de vermelho e gosto de xadrez. Isso também não foi acaso. De alguma forma, você vai me proteger do frio que tanto me incomoda. Vou te combinar com todas as cores e com todos os amores que eu puder inventar. Vou te levar comigo e será bonito ter um pedaço seu em mim. Pensando bem, já tenho vários pedaços seus em mim. Mais do que eu poderia supor. Muito mais, amor.

O crucifixo é proteção. Sei que ele tem mais energia do que qualquer outro que eu pudesse comprar. É a nossa fé que move as montanhas. Sempre foi assim. A fé, a coragem, o amor e, lá no fundo, a insensatez. Essa mesma insensatez me faz, agora, querer te ver menino. Mas eu sei que, no fundo, menino você não é mais. Mas te chamar assim é algo que te torna infinito em mim, daqui até a eternidade. Aprendi que eterno é exatamente aquilo que não cabe no tempo. Somos assim. Esbarramos no tempo o tempo todo. Mas eu ainda tenho voz e disposição pra gritar o mais alto que eu puder na esperança de que, em algum momento, o som da minha voz possa, quem sabe, chegar aí.

As suas palavras vão pra minha coleção. Admirei sua letra, os pingos nos “Ís” em formato de coração e a pureza de sempre. Foi através de palavras que eu te conheci e te reconheci. Foi através de letras, desenhos, traços, fotos, músicas e cheiros que eu me apresentei pra você e exigi, com muita convicção, a sua presença. E foi assim que entendi que gosto de você e que não é de hoje. Gosto porque gosto. Gosto porque gostar de você é bom. Gosto porque o gosto de gostar de você é doce. E foi assim mesmo que começou a nossa história. Eu te disse: “Que seja doce!” E foi.

O seu olhar eu vou colocar na estante. Pra eu ter um dia feliz.

E quanto ao seu amor... Será sempre o meu amor.


domingo, 13 de junho de 2010

PRA JUSTIFICAR TODO O RESTO


Não tente entender nada do que eu disser. Já te adianto que nada fará sentido enquanto não for sentido de verdade. Não gaste suas aspas comigo. Nem suas aspas, nem seu tempo e nem sua atenção. Hoje eu não mereço. Não reproduza nenhuma das minhas falas. Não repita nada do que eu disser. Não cultive essa mania tola de tentar me imitar. E tente não usar nada do que eu disser contra mim no futuro, pra que eu nunca me canse de te dizer. E pra que eu te diga sempre que for preciso.

Sou sutilmente humana. É todo meu o direito à contradição e, por isso, não faço questão de ser coerente. Eu posso sim, coexistir. É muito bom quando me permito florear. E é ainda melhor quando você acredita em cada vírgula minha. Sorte a minha porque não me deixo ser interrompida por nenhuma pontuação. Sorte a sua porque às vezes perco a fala e, assim, nosso silêncio é indizível. Sorte a nossa porque eu quase nunca desisto da exclamação. E porque, quando desisto, tenho você pra insistir. E pra existir. E pra me distrair. E pra me corrigir. E pra me seduzir. (Me seduzo).


Sou melhor quando invento. Mundos improváveis, amores platônicos, planos infalíveis, crimes imperdoáveis, histórias impossíveis. Todo o meu mundo fica cinza quando emudeço. Sou muito melhor quando grito do que quando me calo, pode acreditar. Talvez seja essa a razão de nunca me calar. Pra tentar ser melhor. Um pouco melhor. Um tanto quanto melhor.


Os outonos me permitem ser diferente a cada estação. Ora menina de riso fácil e coração aberto, ora mulher. Mulher de fases. Me permito ser inconstante e faço disso, um charme. Espero pelo instante seguinte como uma criança espera pelo doce. É assim mesmo: coleciono instantes doces. Exijo que aguardem sempre o próximo capítulo. Nenhuma linha será previsível. Um aviso? Não espere que eu seja exatamente como você espera. Espere exatamente o que não espera que eu seja. Porque assim, serei o que espera. (Tudo bem, eu sabia que você não entenderia.)


Não preciso escapar do verso. Nem mesmo tento. Sempre estive pelo avesso, e essa versão é inegável. Sou afavelmente dengosa. Tenho um lado frágil, delicado, inseguro e carente. Mas sou cheia de exigências. Exijo, por exemplo, segundos inteiros. Só faço questão do que amo. E, por isso, já não faço questão de muita coisa. Exijo também dias claros, só pra manter o humor. Sei que é capricho meu. Choro, de vez em quando. Principalmente nos dias frios. Mas sei despistar. Sou da sorte. Estou constantemente entregue aos sonhos, especialmente aos não concretizados. Vivo a procurar. Vivo em busca. Vivo na busca. Foi durante a busca que eu descobri quem sou. E descobri que, irrevogavelmente, preciso de palavras tanto quanto preciso de ar.


Sempre carreguei dentro da mochila, algum sonho. Pelo menos uma dúzia de canetas coloridas pra traçar o caminho. Papel pra rabiscar a minha falta de jeito. Inspiração pra inventar no vento. E amor, pra justificar todo o resto.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

BURACOS COLORIDOS

Há quem diga que feliz é aquele que tem seu quebra-cabeça montado. Aquele que tem todas as peças no lugar e todos os espaços milimetricamente ocupados. Há quem acredite que tudo o que falta é considerado lacuna que deve, em qualquer hipótese, ser preenchida. Enquanto houver algo em branco, os lápis de cor não podem cair ao chão. Enquanto houver carta fora do baralho, a busca não deve terminar. Assim, há aqueles que afirmam convictos que todo espaço é buraco e que todo buraco é negro.

Mas eu me nego a ter os amores na palma da mão. Me recuso a ter todas as verdades na ponta da língua e todos os versos prontos na ponta da caneta. Preciso inventar. Preciso cair na minha própria armadilha e, docemente, me iludir. Preciso percorrer meio mundo ao sabor de um sonho. Preciso continuar acreditando na minha própria fantasia. Preciso ouvir a utopia, seguir a intuição e me deixar enganar pela miopia. Preciso mais da busca do que do encontro. Faço mais questão da escalada do que do topo da montanha. Enquanto o meu coração acreditar que a peça que falta está em algum canto do mundo, à minha espera, terei força e coragem pra procurá-la. E, pelo caminho, tenho poesias de sobra pra me consolar.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

COM CONVICÇÃO

Por apenas um dia, aceito ser colocada à prova e aguardo aprovação. Reconheço os pesares que pesam no peso da minha leveza e levo comigo um leve sorriso que afasta, em minutos, tudo o que é leviano. Assino embaixo daquilo que se funde a mim e confesso que tudo, sem exceção, foi feito pra confundir. Aposto no oposto que se opõe às apostas e segue acreditando na sua própria posição de felicidade. Idealizo aquele que se diz dono de idéias e ideais e exige indenização a cada identidade roubada. Peço que soltem o sol que me foi solidário e que sublima tudo o que um dia foi solidificado. Imploro que liberem a lua que lidera a noite e lhe dera a sorte de linear o amor da gente. Insisto na proposta maluca de, propositalmente, proporcionar preposições não previsíveis e nem preparadas ao predicado que não tem sentido. Aquele que não tem sentido precisa urgentemente de um coração que lhe faça sentir, porque sem ti é que o verbo não pode ficar. Sobre os nomes, digo que nenhum sobrenome é capaz de nomear aquilo que não é sóbrio. O que não é sóbrio é quase ilícito e, por isso, é só sonho. Afirmo, com convicção, que aquele que se convence fácil não converte nenhum cidadão. E que é uma pena que não se possa penalizar àqueles que são covardes, porque a covardia é a pior maneira de tornar tardios os sonhos e fazer com que tudo o que é belo não atravesse o travesseiro. Travessão para as falas bonitas! De coisas bonitas é feito o amor que não pode emudecer.

terça-feira, 18 de maio de 2010

SOBRE A DONA DAS PERNAS CURTAS


Honesto e limpo seria o mundo se nós disséssemos sempre a verdade. Se fôssemos sempre sinceros a respeito de nossos próprios amores, crenças, medos, tentações. Se a verdade fosse vista nos olhos nos olhos e nos olhos. Se as paixões fossem sempre sinceras e os olhares, sem exceção, fossem verdadeiros. Mas é inegável que, de vez em quando, inventamos amores, reescrevemos os contos, acrescentamos meros detalhes, poetizamos as velhas poesias, passamos nossos rascunhos a limpo, rebuscamos os fatos. É própria do homem essa mania de interpretar.

Contamos mentiras sinceras pra nos distrair. Distorcemos as coisas miúdas pra não ferir. Pra colorir o mundo. Pra criar finais felizes. Pra passar o tempo. Pra narrar desfechos surpreendentes. Pra impressionar. Pra florear as histórias. Pra intensificar a paixão. Pra mistificar a crença. Pra suavizar a prosa. Pra disfarçar a solidão. Pra nos parecer com os melhores personagens. Pra viver caso de novela. Pra tentar ser emocionante. Pra convencer os outros. Pra nos auto-afirmar. Pra iludir. Pra ludibriar. Pra reformar o feio. Pra conservar o belo. Pra rimar os versos. Pra se apaixonar. Pra se aproximar. Pra ignorar o impossível. Pra voar um pouco mais alto. Pra tocar o inatingível. Pra viver o sonho. Pra cicatrizar as feridas. Pra ficar bonito. Pra trazer alguém pra perto. Pra não perder esse alguém. Pra fingir que é amor. Pra ser mais sutil. Pra não falar palavrão. Pra não descer do salto. Pra não perder o controle. Pra não chorar. Pra não sair de cena. Pra ser legal. Pra continuar na pose. Pra não revelar o segredo. Pra fazer vista grossa. Pra sair da rotina. Pra não parecer bobo. Pra entrar na dança. Pra chegar no clima. Pra alcançar o inalcançável. Pra ser um pouco mais feliz.

Idealizamos um outro cenário para o nosso filme, mudamos de lugar os objetos aparentemente indiferentes ao produto final, acreditamos na encenação dos atores (inclusive na nossa própria encenação), reorganizamos as falas, alteramos o script. É isso: nossa vida é um filme gravado ao vivo e sem ensaios.

A verdade é que a mentira pode ser incrivelmente linda, assim como as fantasias que, vez ou outra, nos permitimos vestir. Tudo bem. Ser você mesmo a vida toda não é fácil, eu bem sei. A realidade inventada pode nos fazer momentaneamente felizes. O imaginário pode nos fazer criativos. Mas o mergulho no abstrato também pode nos fazer perdidamente loucos. Fora da realidade e sem tato. Não aceito me acostumar com o não palpável, por isso escolho a verdade. Aquela que me torna lúcida e sóbria. Vez ou outra me perco no que não existe. Mas, mesmo com a cabeça nas nuvens, insisto em manter os pés no chão e acreditar nessa utópica transparência que ilumina. A verdade eterniza.

sábado, 15 de maio de 2010

JUÍZO FINAL



Eu poderia muito bem deixar tudo isso pra lá e me calar diante de tal situação aparentemente (ou, quem sabe, verdadeiramente) irreversível. Sim, eu sei que poderia. Poderia conter essa minha urgência louca, desmedida, atrapalhada, apressada, atropelada e sem razão. Eu sou assim mesmo, você já deveria ter se acostumado. Não me peça pra ser compreensiva ou maleável. Eu não consigo. Não sei te levar e não te levar a sério. Sou, por natureza, inconformada. E, enquanto houver direito ao grito, eu vou gritar. Sou, por natureza, revolucionária. Dentro de mim, há um coração batendo forte, acelerado e descompassado. Sempre foi assim. Meu amor explode aqui dentro e só, mas já te disse antes que isso era segredo.

Enfim, sei que poderia não fazer dessa saudade uma sentença pronta ou não transformar essas palavras, antes soltas, no nosso próprio juízo final. Já sei que você detesta esses papos, sempre detestou. E sei que poderia te causar intensa agonia e insegurança nesse momento, caso me calasse. Caso desaparecesse e evaporasse sem te deixar pistas ou vestígios. Você se espantaria e questionaria o que é que, afinal, me ocorreu. Afinal de contas, eu nunca me calei. Em hipótese alguma. Sempre gritei o mais alto que pude, mesmo que, muitas vezes, o som da minha voz não tenha chegado aí. Nenhuma realidade ou fantasia, mesmo que finalizada, me levou ao tal ponto final. Sempre segui exclamando. É minha essa mania de exclamar.

(Exclamo pra me mostrar e, por fim, te mostrar.)

Poderia te deixar sem notícias por semanas, te afogar no meu silêncio e responder, dessa forma, a tudo o que nos aconteceu. Mas sempre há algo a ser dito. Releve isso também, por favor. Estou muito acostumada (e acomodada pelo costume) a te dizer tudo. Foi assim que começou, não foi? Comigo te dizendo. E é assim, desse mesmo jeito torto, que te digo até hoje. E sigo dizendo. Tome essas palavras como suas, porque, dessa vez, elas realmente são. E, fique você sabendo: sempre foram. Entendo perfeitamente suas ocupações, sua falta de tempo, seus atrasos, seus amigos, suas vontades, seus desenhos, suas histórias, seus papos. Mas entendo também, e com ainda mais perfeição, que a sua vida não me cabe. Sei que poderia simplesmente entender isso e, com esforço sobrenatural, esquecer tudo o que foi dito até aqui. Mas não consigo, porque preciso dizer ainda mais pra sentir que tudo está mais claro e limpo.

(Palavras sempre limparam e esclareceram a minha vida.)

Poderia não dramatizar tanto o nosso caso, não insistir tanto nessa história, não usar tantas falas prontas pra te convencer. Poderia, pelo menos dessa vez, deixar de lado as minhas ceninhas. Aqueles dramas que, no fundo, só pedem atenção. Afinal, eu nunca fui mesmo uma boa atriz. Poderia engolir o choro algumas vezes, e fingir ser forte e corajosa. Pelo menos enquanto você estivesse por perto. Mas, a vontade de não te deixar ir antes de me ouvir toma conta da possibilidade de, sabiamente, ignorar todas essas realidades imutáveis às quais eu não tenho mais (se é que um dia tive) poder de mudar. Mas, entenda o que eu vou dizer: eu nunca fui uma boa atriz. Assim, eu usaria minha mudez pra assombrar o seu mundo, invadir sua casa, pesar sua consciência, atormentar suas mentiras, prolongar seus dias, enfatizar suas horas, quebrar seus vidros, explodir sua audição. Poderia ser sutil como o tiquetaquear do relógio e te emudecer com o som intenso e alto do silêncio que grita, em algum canto, dentro de mim. Poderia te trazer pra cá em meios segundos pelo azedo da minha ausência, mas eu insisto em querer que você esteja aqui pelo doce da minha presença. Talvez, ao longo dos anos, tal doçura tenha se perdido, se dissipado pelo universo, ou mesmo se transformado em leve e sutil amargura nos dias de inverno. Bem sei que poderia despistar. Mas, afinal, eu nunca fui mesmo uma boa atriz.

Queria que, lendo tudo isso, você me sentisse perto, da maneira com que sempre tentei, do meu jeito, estar. Mais perto do que nunca. Você já deve saber que eu não gosto de lero-lero. Quem me conhece, sabe. E eu espero que você também me conheça. Espero que, no meio de tanta gente, você ainda não tenha se esquecido de quem eu sou. Sei que sou irônica quando algo me aborrece. Sei que somos como ouriços tentando nos aproximar. É claro que isso nunca poderia dar certo. Já te adianto que não pretendo, nunca pretendi, te machucar com meus espinhos. Desejo, de coração, que minhas palavras não te tirem o humor ou a alegria. Sei que você é alegre e sua alegria me alegra também. Por isso, guarde tudo isso sem dor, “embora, em segredo, doa”.

O que eu quero te dizer, nesse momento, é que está se tornando cada vez mais difícil pra mim, viver de idealizações. E manter vivo um sentimento desse jeito está se tornando impossível. Não posso continuar arquivando tudo o que quero te dizer pra um dia qualquer. Isso não faz bem pra mim e, por isso, não pode fazer bem pra você também. Portanto, não queira que eu guarde palavras que me arranham noite e dia por medo de ser arranhado. Eu não tenho garras, mas também não tenho meias verdades. Minhas palavras são inteiras. E suas.

Pensei ser forte, mas percebi (e da pior forma possível) que não sou. Pelo contrário, sou uma menina frágil, de pouco mais que um metro e meio, tentando, a todo custo, ser dona de algumas verdades. Sou uma colecionadora de palavras e de notas que, articuladas, criam muito mais do que frases e músicas. Criam amores. E foi assim que eu te criei em mim.

(Um dia me disseram que só o criador pode destruir a criação.)

Até pensei que seria fácil me ausentar de você ou te ausentar de mim. Tanto faz no fim das contas. Mas, honestamente, eu me enganei. A psicanálise diz que há duas maneiras de matar alguém: fisicamente ou psicologicamente. A segunda possibilidade me causou um êxtase. Confesso que pensei ter encontrado uma solução pra tal caso de amor impossível, levemente inviável ou desastrado, quando ouvi isso. Bastaria te matar do modo indolor e sutil, sem te eliminar da vida, que você tanto ama. Bastaria te matar de mim. Me disseram que o processo era simples. Só precisaria eliminar tudo, sem exceção, dos seus restos que ficaram em mim. Música, foto, livro, poesia, carta, porta-retrato, sonho, cheiro, pó, segredo, endereço, telefone, nome. Tudo, exatamente tudo. Eu teria que perder a memória por você. Mas eu descobri que isso não poderia ser tão fácil. Há mais de você em mim do que eu supunha. Somos o paraíso um do outro e, juntos, somos nosso próprio paraíso. Particular.

Sei que já disse demais. E imagino que você já deve ter entendido tudo, se é que isso já não havia acontecido enquanto eu silenciava. Mas sempre foi uma característica minha prolongar os fins. Não sei de nenhum modo bonito pra finalizar uma carta assim. Mas prometo que você continuará aqui comigo por um longo tempo. Prometo compreender, com carinho, toda a sua história. Prometo seguir com esse amor explosivo dentro de mim. E prometo cumprir todas essas promessas. E prometo, com ainda mais fervor, prometer tudo de novo, quantas vezes for preciso.

terça-feira, 27 de abril de 2010

ESTALO DE AMOR

Quero um sentimento bonito pra te contar
Quero um verso leve pra te encontrar
Quero um sabor de vento pra te inventar
Quero um brilho de estrela pra te iluminar


Quero um sorriso de cor pra te encantar

Quero um cheiro de flor pra te estontear

Quero um tom de fulgor pra te inebriar

Quero um estalo de amor pra te enfeitiçar

Eu quero é viver de sonho
Costurar lembranças

E morrer de amor
Precisa mais?

P.S.: Por perceber que o que escrevo aqui tem tomado uma proporção maior, atingido outros corações e despertado emoção em quem lê, decidi que é hora de deixar falar a voz do coração. Agradeço muito aos que me procuram com palavras de carinho e incentivo. A partir de agora o Bate-Coração tem um Mural de Recados na parte do perfil.
Então... Bate, coração! Emoticons

quarta-feira, 21 de abril de 2010

ANTES DA LARGADA


Ela sempre soube que pecaria nessa vida pelos seus excessos. Sempre soube que pagaria por esses pecados. Mas, se exagerar era mesmo um pecado, sempre esteve disposta a pagar o preço e seguir pecando. Nunca soube dosar, medir, calcular. A razão nunca falou mais alto. A realidade nunca lhe prendeu. É que ela sempre viveu uma parte de si no imaginário. Num país de maravilhas. Num mundo encantado. Provavelmente no seu próprio mundo. Ela era quase Alice.

É incrível como a facilidade com a matemática nunca pôde lhe dar sequer uma mãozinha na hora dos cálculos que envolviam sua própria vida. Apesar de não ter problema algum com as contas, nunca conseguiu entender como seria esse difícil desafio de se reduzir. De diminuir algo em si a cada tempestade. De ser menos a cada desencontro. De lutar menos a cada causa perdida. De se encantar menos com o futuro a cada desencanto do passado. De se apressar menos a cada parada no meio do caminho. De se acomodar mais com situações mornas a cada vez que o caldo fervia tanto que transbordava. Ela deveria ter aprendido antes que os seus advérbios de intensidade estavam fora do lugar. E que talvez ela mesma estivesse fora do lugar. Deveria ter aprendido antes a se equilibrar, a se neutralizar, a caminhar em linha reta. Já deveria ter aprendido a não tomar frente de tudo e não defender causas que não são suas. Já deveria ter aprendido que dar a cara à tapa pode ser perigoso, que sinais vermelhos, às vezes, são necessários e que, parar quando um sinal se fecha, pode evitar dores do futuro. Já deveriam ter lhe dito que “Deus escreve certo por linhas tortas”, e que se conformar com uma situação nem sempre é sinal de fraqueza. Muitas vezes é sinal de sabedoria.

Já passou da hora de parar de andar em labirintos que ela mesma inventa. Já passou da hora de parar de fazer tempestade em gotas d’água. Já passou da hora de tirar essa fantasia bonita e limpar a maquiagem que borrou. Já passou da hora de parar de correr sem saber pra onde. Já passou da hora de descer do salto. Já passou da hora de aprender a respeitar certos limites e aceitar tudo aquilo que ela não pode mudar.

Ela precisava entrar num consenso sobre suas duas partes extremas que gritavam tão alto. Precisava ficar em cima do muro de vez em quando e não ter vontade de pular pra nenhum dos lados. Precisava entender que era hora de se reservar, se prevenir, entrar no casulo, sair de cena. Precisava ter a paciência pra se sentar e, tranquilamente, esperar que a vida acontecesse. Precisava se equilibrar em uma corda bamba, porque a vida era um fio. E o amor também. Precisava aprender sobre banho-maria. Precisava cortar os vícios. Conter a pressa. Manter o peso. Organizar os horários. Seguir a agenda. Não podia ser tão difícil! Ela precisava parar de misturar tudo e colocar cada coisa no seu lugar. Precisava encontrar as partes de si que estavam espalhadas por aí, juntar tudo isso e descobrir quem afinal ela era. Mas ela promete que, assim que descobrir, vem aqui pra contar.

terça-feira, 6 de abril de 2010

SEGREDO

Tem certos dias, especialmente os chuvosos, em que a vontade de te contar tudo o que você nunca soube preenche todas as páginas do nosso livro. Tem certos dias, especialmente os saudosos, em que as palavras que eu tenho pra te dar, por si mesmas, escalariam qualquer montanha que ameaçasse delimitar fronteiras entre o que eu sou e o que eu quero ser ao seu lado. Tem certos dias, especialmente os sonoros, em que o desejo de dizer tudo isso no seu ouvido se transforma em urgência de gritar. Tem certos dias, especialmente os dengosos, em que eu queria poder exigir que você nunca mais fosse pra longe, sem ter que argumentar demais. Tem certos dias, especialmente os amargos, em que eu gostaria de me ausentar de você pra, finalmente, contar o que sobraria de mim. Tem certos dias, especialmente os dolorosos, em que a vontade de te ter em palavras simples, olhares longos, frases curtas e dias claros, parece não se conter mais no silêncio. Tem certos dias, especialmente os calorosos, em que o desejo de perder as palavras, a razão e o juízo com você é maior do que toda essa ponte, contada em milímetros. Tem certos dias, especialmente os tortuosos, em que eu poderia te assegurar que trocaria todos os cheiros do mundo pelo seu, sem sequer saber ao certo que perfume você usa. Tem certos dias, especialmente os generosos, em que você parece se sentar mais perto. Tem certos dias, especialmente os numerosos, em que a minha pressa vence a própria razão e não te esquece. Tem certos dias, especialmente os duvidosos, em que o medo duvida da certeza, o sonho desafia os limites e o sentimento, que já não cabe em mim, transcende o tangível.

Eu te contaria tudo e com detalhes, te explicaria quantas vezes fosse necessário e te faria entender tudo o que eu também não entendo... Mas, não posso. Existe uma parte minha em você e uma parte sua em mim, mas isso é segredo. Se não fosse, eu te contaria. Mas é. E em dias como estes, o real desaparece, as palavras urgentes explodem o silêncio, as rimas já não têm tanta importância. Equipei meu coração com mil alto-falantes. Gritei o mais alto que pude, mas o som da minha voz não chegou aí. Não, não vai ser mais segredo que eu te quero aqui.