quarta-feira, 28 de julho de 2010

PRIMEIRAS VEZES

Ela ganhara, de presente, o futuro. A vida, dali em diante, seria um emaranhado de primeiras vezes. Ela sabia que o costume, em algum momento, tiraria a mágica. O hábito traria a monotonia. A rotina transformaria os dias, outrora pontuados com reticências, exclamações e interrogações, em um amontoado de segundos previsíveis que aguardam ansiosamente pelo ponto final. Segundos que se apóiam em vírgulas, em busca de mero descanso. Segundos que, pendurados nos pontos, fazem a pausa para a respiração. Mas ela insistia em segundos sem fôlego. Tudo aconteceria, com o tempo, conforme o esperado. Tudo caberia exatamente, talvez milimetricamente, na rotina. Mas ela não pensaria nisso agora. Aquele era o momento da primeira vez.

Toda primeira vez tem certa mágica. Não existe um jeito de ser diferente. Não existe, nem mesmo, outra palavra para definir o novo, senão esta: mágica. Aquilo que nunca antes se fez. Aquilo que nunca talvez se tenha imaginado. Aquilo que nem se sabia que existia. Assim era a vida pra ela. Um presente de embrulho irresistível. Um presente que ela precisaria abrir para descobrir. Não era possível prever o que se escondia naquela caixa. O tato falhava, porque o futuro não era palpável. Nunca fora. Mas ela tinha coragem para abrir o presente e, só então, descobrir o que o futuro reservava. Fosse bom ou fosse mau, ela aceitaria de coração aberto.

Decidiu que assassinaria, então, todas as segundas, terceiras, quartas ou infinitas vezes. A vida dela seria feita apenas das primeiras vezes. Ela seria apenas tentativa. E, tentando, acabaria por se transformar em alguma coisa bonita, possivelmente parecida com os contos de fada que insistia em não abandonar. Ela poderia até adentrar alguma constelação de estrelas ou riscar bem forte o destino. Seu traço era forte o suficiente para rasgar as entrelinhas da sua história, que já estava inteiramente escrita. Mas o que ela não queria mesmo era passar o imaginário para a memória. Queria que tudo fosse apenas ápice. Queria que os segundos acendessem e ascendessem, como mágica. Queria que tudo durasse apenas o necessário para ser inesquecível. Queria que tudo terminasse bem na hora de acontecer, pra que o gosto sempre fosse doce. Não fazia questão de entender, não requisitava nenhuma explicação. A vida não tinha e nem pedia explicações. A vida pedia pra ser vivida. E ela vivia, com coragem.

terça-feira, 13 de julho de 2010

CONTOS E CANTOS


Vivo me escrevendo. Me descrevendo. Vivo virando letra. A minha casa é a sintaxe. A minha frase não tem vocativo. Minha frase é sua, quase sempre sua. Mas, vez ou outra, não é. É que vivo me fraseando, me parafraseando. É essa a minha sina: engendrar contextos. E eu cumpro.

Quando sou frase, minha meta é trocar a ordem das palavras. Eu, que nunca soube contar, não tenho numerais. Meus advérbios, especialmente aqueles de intensidade, oscilam sem pensar. E eu, à mercê desses advérbios, por vezes violentos, outras vezes apaixonados, mas sempre com alguma alucinação, fico totalmente rendida. A despropósito, essa luta é meio desigual. Não há um modo certo de lutar contra o que me domina. O advérbio da vez sempre acaba vencendo. Mas os adjetivos não mudam. Eu continuo a mesma. Sem disfarces. Continuo tentando ser dona. De verdades. De histórias. De amores. De palavras. De sonhos. E do meu próprio universo, que é e sempre será o pais de maravilhas. Os substantivos, sempre abstratos. O comum cansa, o simples também. O concreto então, enjoa. Sempre tive certa recaída pelo que não existe.

Mas, quanto a mim, sou histérica. Sou histórica. Não sou lúcida, mas ainda sou legível. Prefiro ser o sujeito da minha própria oração. Sobre os meus traços, não deixo pistas. Não me obrigue a apagar o que foi escrito porque, uma vez apagado, nunca mais te reescrevo. Escrevo forte, eu sei. Dizem que é característica dos gênios indomáveis. Talvez seja. Mas que fique claro que, ainda que eu tenha marcado todas as próximas folhas com o que escrevi, se um dia eu tiver que apagar tudo, não deixo marcas. E nem escrevo de novo. O que eu apago é passado. As palavras enchem meu coração de presente e futuro. O passado é só relato.

Por estar sempre em dúvida quanto ao verbo perfeito, vivo me transformando. Acho que vivo exatamente pra isso: pra me transformar. Nos últimos tempos, tenho me transformado, principalmente, em palavras. Em versos. Em estrofes. Em parágrafos. Em rimas. Talvez isso revele o que eu realmente sou. Talvez eu seja poeta. Vivo ritmada na minha própria canção. Vivo dentro ou fora do compasso, mas sempre recupero o tempo.

O segredo é que estou sempre me encaixando perfeitamente nas vidas que imagino e digo serem alheias. Mas, na verdade, não são. Cada vida nova que surge aqui dentro é, em partes, a minha própria vida. Cada terceira pessoa que cabe na minha prosa é, no fundo, um pouco da primeira pessoa. Terceira e primeira pessoa, nessa oração, já não sabem viver separadas. Já não sou nada sem os infinitos outros que existem em mim e que se multiplicam a cada vez que me deparo com a folha em branco. É que, a cada vez que escrevo, chego um pouco mais perto daquilo que eu sempre quis ser. Deixo parte de mim no ar, dispersa, dissipada ao bel-prazer do universo. Vôo rumo àquilo que mais me agrada, que mais se aproxima dos meus sonhos, das minhas utopias, das minhas miragens, da minha miopia. Viro etc. Já não faço questão de me contar. Tudo vira encanto e eu só canto. Não me sobra nenhuma molécula de sanidade. Me deixo enganar por esses personagens que me rondam e me t r a n s f o r m o.

Essa liberdade inconseqüente que voa ao meu redor explica tudo. E é por isso que faço tanta questão de ser livre. Sempre procurei por explicações. Escrevendo, eu me explico pra mim mesma. Finjo ter descoberto os mistérios da vida e acredito nas minhas versões. Escrevendo, eu entendo o passado, aceito o presente e prevejo o futuro com os mesmos olhos molhados de luz. Comparo minha vida com uma miragem. O presente, que divide o passado e o futuro, é exatamente a linha do horizonte que divide o céu e o mar. Me deparo com cada pedaço meu como se fosse peça única de um quebra-cabeça que poucos se atrevem a tentar montar. Mas, escrevendo, eu me atrevo. Admiro o que sou. Vejo meu perfil reluzindo nos textos. Porque eu fico mais bonita quando redijo. Conto dos meus amores e desamores através de mil nomes bonitos. Por isso, vivo tropeçando em mim mesma em cada linha. Vivo me encontrando, com ar de surpresa, casualidade ou coincidência, nos casos e nos caos que invento. Vivo me vestindo de personagens irreais, só para me proteger. Vivo me encaixando nos contos. Vivo me escondendo atrás do que não existe tentando, quem sabe, constatar a própria existência. Vivo observando o mundo com olhos de criança e acreditando que cada mínimo detalhe é dádiva. Já disse antes sobre o mundo de maravilhas do qual disponho. É nesse mundo que vivo. E é desse jeito louco e poeta que eu quero viver. Eis-me.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

SOBRE NÓS

Ele procurava por uma brisa suave que pudesse ser enterrada em terra fértil. Se deparou com as ventanias soltas que se recusavam a ser enterradas. As palavras dela não queriam emudecer. As palavras dela nem sempre eram brisa. Eram palavras ao vento. Ele queria ouvir o silêncio dos pensamentos dela. Desejava conhecer a redoma que a protegia dos ventos frios e, atento a todos os sussurros, ouvia o que só o coração sentia e amava o que não se via. Assim. Ele aceitou os seus anseios de menina, carregou os sonhos dela junto aos dele e, com os olhos puros, cativou.

Ela era uma doce criança à espera de um amor para a vida inteira. Um amor como aqueles dos livros que lia. Um amor parecido com aqueles dos filmes que a faziam chorar. Esperava, muitas vezes na janela, por alguém que ficasse. Alguém que simplesmente ficasse. Seria assim tão difícil ficar? Ficar, não ir embora, não deixar só. Era simples. Ela escrevia poesias inocentes endereçadas a esse alguém que ainda não tinha nome. Um alguém que ela ainda não sabia se existia, se falava português, se morava na mesma cidade ou país. Não importava o lugar do mapa. Ela acreditava que o amor transcendia os limites e atravessava todos os passos.

Ele surgiu numa das voltas da vida. Surgiu soprando no céu com sussurros que soavam silenciosos como sílaba suave que não sabe a hora de cessar. Chegou trajado de poeta, propondo ser amigo e se mostrando sonhador. Chegou comprovando todos os poemas e mostrou que ali havia uma emoção que precedia os fatos. Ela acreditava em tudo o que lhe diziam e, talvez por isso, acreditou que aquele amor era tudo o que buscava. Apostou fundo na miragem que se aproximava tanto dos seus sonhos e se permitiu. Entendeu que o que sentia era ainda mais bonito do que os filmes e mais sincero do que os livros. Entendeu que nenhuma palavra jamais descreveria tudo o que acontecia quando ela via todo o seu futuro dentro dos olhos dele. E, entendendo isso, assumiu que ele era passado, presente e futuro. Ele era. Era ele.

Sei que as lembranças hão de lhe importunar vida afora. Sei das inúmeras canções que ainda se encaixam perfeitamente em tudo o que já aconteceu e em tudo o que teria acontecido se ele tivesse ficado. Mas, ao que parece, ficar não é mesmo coisa tão simples. Ficar é mais difícil do que pode parecer. Será possível? “Se passaram anos”, ela repetia para si mesma. Sei que aquela imagem não vai desgrudar do pensamento. Sei que o reencontro será sempre a hipótese inviável. Sei que o amor já acabou, ainda que ela tivesse jurado, em seu nome, que jamais acabaria. Sei que o sol se pôs e a noite escondeu tudo o que ela sentia. Sei que a roda gira e gira sem parar. E num desses giros, ele surgiu. Em outro, ressurgiu.

Mas sobre nós, tenho a dizer que, uma vez desatados, não mais haverá tempo e espaço para que sejam refeitos. Garanto que ela, com toda a infantilidade, apertou o nó com toda força que não tinha. Posso assegurar o quanto ela, a menina, chorou ao ter que ver o mundo rodar. E posso assegurar ainda, com muita convicção, que os olhos correm e que tudo o que é fruto apenas da nossa invenção se vai. E, ainda com a volta, revolta.

domingo, 27 de junho de 2010

CAPÍTULO


A vida de Alice havia realmente mudado muito. O mês de março se foi e levou consigo muitas coisas. Já não se via tão presa a Henrique. Depois de um longo ano, depois de sobreviver sozinha a todas as estações, depois de chorar uma ausência que nunca foi presença, ela decidiu retornar ao mundo de maravilhas do qual dispunha e voltar a ser feliz assim, como sempre fora. Depois de procurar em conhecidos o encanto de um desconhecido e, fatalmente, não encontrar, ela decidiu que haveria de encontrar em si mesma aquilo que, insistentemente, faltava. Quem sabe ela mesma não fosse a peça perdida?

Decidiu, acima de tudo, que cantaria. E, assim como fizera com todas as outras decisões que já havia tomado na vida, determinou que perseguiria o sonho até o fim. O pote de ouro sempre esteve atrás do arco-íris mas, naquele momento, por alguma razão totalmente desconhecida, ele brilhava mais do que nunca. E, atraída pelo brilho, ela percorria todos os caminhos multicoloridos do arco-íris enquanto aproveitava todos os carinhos do mundo.

A música invadiu a vida dela e ocupou os espaços vazios. Não sobravam mais faltas e nem faltavam sobras. Estava tudo em seu lugar. Mas as canções, inexplicavelmente, ainda eram para Henrique.


ps: Esse texto é parte de um dos capítulos de uma história. Parte da minha história. É que, escrevendo, eu sempre pude ser o que bem quis. Escrevendo eu me permito. E, nessa permissão, decidi inventar uma Alice e um Henrique. Decidi inventar um amor. Só pra me distrair. Mas é que, por acreditar demais nas próprias fantasias, Alice, Henrique e o amor têm ganhado vida dentro de mim. Depois de inventados, eles não mais me deixam em paz. Devo toda a inspiração e motivação à vocês, que leem minhas linhas e fazem o mais difícil: leem minhas entrelinhas. Se será um livro? Não sei. Mas eu me comprometo a buscar incansavelmente o pote de ouro que se esconde no final do arco-íris, porque, assim como Alice, eu persigo meus sonhos. E, assim como eu sempre digo, não tenho asas, mas tenho coragem suficiente pra voar.

ps²: Só pra constar: entre mim e Alice, qualquer semelhança é mera coincidência.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

PRESENTE

- Seu presente chegou. Ele está ali.

Senti borboletas na barriga quando ouvi isso. Como eu desejava tudo o que viesse de você o quanto antes! Como eu tinha pressa, urgência, loucura pelo que quer que tivesse seu nome. Seu nome... Seu nome... Seu nome, seu nome, seu nome.

Era amarela a caixa. Amarela e grande. Tudo bem. Não há nada de tão surpreendente nisso. Afinal, todas as caixas do SEDEX são amarelas. Mas o amarelo é minha cor preferida. A caixa tinha a cor e o tom que me faziam feliz. E eu me recuso a acreditar que seja mera coincidência. Sempre fui assim. Escolhi acreditar na sorte. No destino marcado. No amor ali, escrito nas estrelas. Escolhi entender a conspiração e a inspiração. Escolhi fazer pedidos às estrelas. Escolhi apostar nessa idéia romântica de que, em algum canto por aí, você vê a mesma lua que eu enquanto peço, em segredo, pra te ter na minha visão. Escolhi brincar de bem-me-quer nas margaridas sem me lembrar que existe mal-me-quer. Escolhi te encontrar nos livros, nos sons, nos versos, nas cartas, nos traços, nos riscos, nos rabiscos e nas letras de caneta. Escolhi te encontrar no seu próprio dia. Escolhi te encontrar em mim e me encontrar no nosso encontro. Escolhi seguir a intuição e fiz de cada movimento seu, um passo da nossa dança que seguia por si, sem obedecer à música que tocava. Sempre segui meu ritmo.

Procurei o lugar mais bonito para abrir o que era nosso. Nosso caso precisava de cena e de cenário. E assim, facilmente, viraria história de filme. (Se é que já não era).

Examinei primeiro a sua letra que preenchia os campos de destinatário e remetente. Seus traços tortos (pra mim, perfeitos), seus pingos nos “Ís” em formato de bolinhas e seu nome, sobrenome e endereço. De dentro da caixa saiu um amor visível. Tudo, nos mínimos detalhes, me agradava. Já não me lembro do que foi que vi primeiro. Mas sei que, em segundos, inúmeros amores estavam espalhados em cima da minha cama. Cada surpresa continha, em si, um carinho enorme que brilhava tanto que cegava os olhos. O amor estava em todos os cantos, inclusive em mim. O amor invadia o quarto e, orgulhoso, tomava conta de todo espaço, preenchia todos os vazios e se encaixava perfeitamente em tudo o que era meu. Seu amor parecia ter sido moldado aos meus próprios sonhos. Cada detalhe era poesia.

Você enviou, de longe, um cheiro que se instalou em mim. Posso convocar, em pensamento, esse cheiro, porque impregnou. O perfume, por si, explodiu meus sentidos e, mais uma vez, me fez feliz. E então, dei o primeiro jato. Bem sei que é pra manter o HUMOR.

Os corações vieram embalados, um a um. Confesso que não soube, de cara, o que havia dentro até que você, gentilmente, me contou que era óleo para a pele. Mas, decididamente, eu não iria estourá-los por nada. Repito: me fale sobre esses corações daqui a mil anos, e eu ainda os terei comigo.

O cachecol é vermelho e xadrez. Gosto de vermelho e gosto de xadrez. Isso também não foi acaso. De alguma forma, você vai me proteger do frio que tanto me incomoda. Vou te combinar com todas as cores e com todos os amores que eu puder inventar. Vou te levar comigo e será bonito ter um pedaço seu em mim. Pensando bem, já tenho vários pedaços seus em mim. Mais do que eu poderia supor. Muito mais, amor.

O crucifixo é proteção. Sei que ele tem mais energia do que qualquer outro que eu pudesse comprar. É a nossa fé que move as montanhas. Sempre foi assim. A fé, a coragem, o amor e, lá no fundo, a insensatez. Essa mesma insensatez me faz, agora, querer te ver menino. Mas eu sei que, no fundo, menino você não é mais. Mas te chamar assim é algo que te torna infinito em mim, daqui até a eternidade. Aprendi que eterno é exatamente aquilo que não cabe no tempo. Somos assim. Esbarramos no tempo o tempo todo. Mas eu ainda tenho voz e disposição pra gritar o mais alto que eu puder na esperança de que, em algum momento, o som da minha voz possa, quem sabe, chegar aí.

As suas palavras vão pra minha coleção. Admirei sua letra, os pingos nos “Ís” em formato de coração e a pureza de sempre. Foi através de palavras que eu te conheci e te reconheci. Foi através de letras, desenhos, traços, fotos, músicas e cheiros que eu me apresentei pra você e exigi, com muita convicção, a sua presença. E foi assim que entendi que gosto de você e que não é de hoje. Gosto porque gosto. Gosto porque gostar de você é bom. Gosto porque o gosto de gostar de você é doce. E foi assim mesmo que começou a nossa história. Eu te disse: “Que seja doce!” E foi.

O seu olhar eu vou colocar na estante. Pra eu ter um dia feliz.

E quanto ao seu amor... Será sempre o meu amor.


domingo, 13 de junho de 2010

PRA JUSTIFICAR TODO O RESTO


Não tente entender nada do que eu disser. Já te adianto que nada fará sentido enquanto não for sentido de verdade. Não gaste suas aspas comigo. Nem suas aspas, nem seu tempo e nem sua atenção. Hoje eu não mereço. Não reproduza nenhuma das minhas falas. Não repita nada do que eu disser. Não cultive essa mania tola de tentar me imitar. E tente não usar nada do que eu disser contra mim no futuro, pra que eu nunca me canse de te dizer. E pra que eu te diga sempre que for preciso.

Sou sutilmente humana. É todo meu o direito à contradição e, por isso, não faço questão de ser coerente. Eu posso sim, coexistir. É muito bom quando me permito florear. E é ainda melhor quando você acredita em cada vírgula minha. Sorte a minha porque não me deixo ser interrompida por nenhuma pontuação. Sorte a sua porque às vezes perco a fala e, assim, nosso silêncio é indizível. Sorte a nossa porque eu quase nunca desisto da exclamação. E porque, quando desisto, tenho você pra insistir. E pra existir. E pra me distrair. E pra me corrigir. E pra me seduzir. (Me seduzo).


Sou melhor quando invento. Mundos improváveis, amores platônicos, planos infalíveis, crimes imperdoáveis, histórias impossíveis. Todo o meu mundo fica cinza quando emudeço. Sou muito melhor quando grito do que quando me calo, pode acreditar. Talvez seja essa a razão de nunca me calar. Pra tentar ser melhor. Um pouco melhor. Um tanto quanto melhor.


Os outonos me permitem ser diferente a cada estação. Ora menina de riso fácil e coração aberto, ora mulher. Mulher de fases. Me permito ser inconstante e faço disso, um charme. Espero pelo instante seguinte como uma criança espera pelo doce. É assim mesmo: coleciono instantes doces. Exijo que aguardem sempre o próximo capítulo. Nenhuma linha será previsível. Um aviso? Não espere que eu seja exatamente como você espera. Espere exatamente o que não espera que eu seja. Porque assim, serei o que espera. (Tudo bem, eu sabia que você não entenderia.)


Não preciso escapar do verso. Nem mesmo tento. Sempre estive pelo avesso, e essa versão é inegável. Sou afavelmente dengosa. Tenho um lado frágil, delicado, inseguro e carente. Mas sou cheia de exigências. Exijo, por exemplo, segundos inteiros. Só faço questão do que amo. E, por isso, já não faço questão de muita coisa. Exijo também dias claros, só pra manter o humor. Sei que é capricho meu. Choro, de vez em quando. Principalmente nos dias frios. Mas sei despistar. Sou da sorte. Estou constantemente entregue aos sonhos, especialmente aos não concretizados. Vivo a procurar. Vivo em busca. Vivo na busca. Foi durante a busca que eu descobri quem sou. E descobri que, irrevogavelmente, preciso de palavras tanto quanto preciso de ar.


Sempre carreguei dentro da mochila, algum sonho. Pelo menos uma dúzia de canetas coloridas pra traçar o caminho. Papel pra rabiscar a minha falta de jeito. Inspiração pra inventar no vento. E amor, pra justificar todo o resto.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

BURACOS COLORIDOS

Há quem diga que feliz é aquele que tem seu quebra-cabeça montado. Aquele que tem todas as peças no lugar e todos os espaços milimetricamente ocupados. Há quem acredite que tudo o que falta é considerado lacuna que deve, em qualquer hipótese, ser preenchida. Enquanto houver algo em branco, os lápis de cor não podem cair ao chão. Enquanto houver carta fora do baralho, a busca não deve terminar. Assim, há aqueles que afirmam convictos que todo espaço é buraco e que todo buraco é negro.

Mas eu me nego a ter os amores na palma da mão. Me recuso a ter todas as verdades na ponta da língua e todos os versos prontos na ponta da caneta. Preciso inventar. Preciso cair na minha própria armadilha e, docemente, me iludir. Preciso percorrer meio mundo ao sabor de um sonho. Preciso continuar acreditando na minha própria fantasia. Preciso ouvir a utopia, seguir a intuição e me deixar enganar pela miopia. Preciso mais da busca do que do encontro. Faço mais questão da escalada do que do topo da montanha. Enquanto o meu coração acreditar que a peça que falta está em algum canto do mundo, à minha espera, terei força e coragem pra procurá-la. E, pelo caminho, tenho poesias de sobra pra me consolar.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

COM CONVICÇÃO

Por apenas um dia, aceito ser colocada à prova e aguardo aprovação. Reconheço os pesares que pesam no peso da minha leveza e levo comigo um leve sorriso que afasta, em minutos, tudo o que é leviano. Assino embaixo daquilo que se funde a mim e confesso que tudo, sem exceção, foi feito pra confundir. Aposto no oposto que se opõe às apostas e segue acreditando na sua própria posição de felicidade. Idealizo aquele que se diz dono de idéias e ideais e exige indenização a cada identidade roubada. Peço que soltem o sol que me foi solidário e que sublima tudo o que um dia foi solidificado. Imploro que liberem a lua que lidera a noite e lhe dera a sorte de linear o amor da gente. Insisto na proposta maluca de, propositalmente, proporcionar preposições não previsíveis e nem preparadas ao predicado que não tem sentido. Aquele que não tem sentido precisa urgentemente de um coração que lhe faça sentir, porque sem ti é que o verbo não pode ficar. Sobre os nomes, digo que nenhum sobrenome é capaz de nomear aquilo que não é sóbrio. O que não é sóbrio é quase ilícito e, por isso, é só sonho. Afirmo, com convicção, que aquele que se convence fácil não converte nenhum cidadão. E que é uma pena que não se possa penalizar àqueles que são covardes, porque a covardia é a pior maneira de tornar tardios os sonhos e fazer com que tudo o que é belo não atravesse o travesseiro. Travessão para as falas bonitas! De coisas bonitas é feito o amor que não pode emudecer.

terça-feira, 18 de maio de 2010

SOBRE A DONA DAS PERNAS CURTAS


Honesto e limpo seria o mundo se nós disséssemos sempre a verdade. Se fôssemos sempre sinceros a respeito de nossos próprios amores, crenças, medos, tentações. Se a verdade fosse vista nos olhos nos olhos e nos olhos. Se as paixões fossem sempre sinceras e os olhares, sem exceção, fossem verdadeiros. Mas é inegável que, de vez em quando, inventamos amores, reescrevemos os contos, acrescentamos meros detalhes, poetizamos as velhas poesias, passamos nossos rascunhos a limpo, rebuscamos os fatos. É própria do homem essa mania de interpretar.

Contamos mentiras sinceras pra nos distrair. Distorcemos as coisas miúdas pra não ferir. Pra colorir o mundo. Pra criar finais felizes. Pra passar o tempo. Pra narrar desfechos surpreendentes. Pra impressionar. Pra florear as histórias. Pra intensificar a paixão. Pra mistificar a crença. Pra suavizar a prosa. Pra disfarçar a solidão. Pra nos parecer com os melhores personagens. Pra viver caso de novela. Pra tentar ser emocionante. Pra convencer os outros. Pra nos auto-afirmar. Pra iludir. Pra ludibriar. Pra reformar o feio. Pra conservar o belo. Pra rimar os versos. Pra se apaixonar. Pra se aproximar. Pra ignorar o impossível. Pra voar um pouco mais alto. Pra tocar o inatingível. Pra viver o sonho. Pra cicatrizar as feridas. Pra ficar bonito. Pra trazer alguém pra perto. Pra não perder esse alguém. Pra fingir que é amor. Pra ser mais sutil. Pra não falar palavrão. Pra não descer do salto. Pra não perder o controle. Pra não chorar. Pra não sair de cena. Pra ser legal. Pra continuar na pose. Pra não revelar o segredo. Pra fazer vista grossa. Pra sair da rotina. Pra não parecer bobo. Pra entrar na dança. Pra chegar no clima. Pra alcançar o inalcançável. Pra ser um pouco mais feliz.

Idealizamos um outro cenário para o nosso filme, mudamos de lugar os objetos aparentemente indiferentes ao produto final, acreditamos na encenação dos atores (inclusive na nossa própria encenação), reorganizamos as falas, alteramos o script. É isso: nossa vida é um filme gravado ao vivo e sem ensaios.

A verdade é que a mentira pode ser incrivelmente linda, assim como as fantasias que, vez ou outra, nos permitimos vestir. Tudo bem. Ser você mesmo a vida toda não é fácil, eu bem sei. A realidade inventada pode nos fazer momentaneamente felizes. O imaginário pode nos fazer criativos. Mas o mergulho no abstrato também pode nos fazer perdidamente loucos. Fora da realidade e sem tato. Não aceito me acostumar com o não palpável, por isso escolho a verdade. Aquela que me torna lúcida e sóbria. Vez ou outra me perco no que não existe. Mas, mesmo com a cabeça nas nuvens, insisto em manter os pés no chão e acreditar nessa utópica transparência que ilumina. A verdade eterniza.

sábado, 15 de maio de 2010

JUÍZO FINAL



Eu poderia muito bem deixar tudo isso pra lá e me calar diante de tal situação aparentemente (ou, quem sabe, verdadeiramente) irreversível. Sim, eu sei que poderia. Poderia conter essa minha urgência louca, desmedida, atrapalhada, apressada, atropelada e sem razão. Eu sou assim mesmo, você já deveria ter se acostumado. Não me peça pra ser compreensiva ou maleável. Eu não consigo. Não sei te levar e não te levar a sério. Sou, por natureza, inconformada. E, enquanto houver direito ao grito, eu vou gritar. Sou, por natureza, revolucionária. Dentro de mim, há um coração batendo forte, acelerado e descompassado. Sempre foi assim. Meu amor explode aqui dentro e só, mas já te disse antes que isso era segredo.

Enfim, sei que poderia não fazer dessa saudade uma sentença pronta ou não transformar essas palavras, antes soltas, no nosso próprio juízo final. Já sei que você detesta esses papos, sempre detestou. E sei que poderia te causar intensa agonia e insegurança nesse momento, caso me calasse. Caso desaparecesse e evaporasse sem te deixar pistas ou vestígios. Você se espantaria e questionaria o que é que, afinal, me ocorreu. Afinal de contas, eu nunca me calei. Em hipótese alguma. Sempre gritei o mais alto que pude, mesmo que, muitas vezes, o som da minha voz não tenha chegado aí. Nenhuma realidade ou fantasia, mesmo que finalizada, me levou ao tal ponto final. Sempre segui exclamando. É minha essa mania de exclamar.

(Exclamo pra me mostrar e, por fim, te mostrar.)

Poderia te deixar sem notícias por semanas, te afogar no meu silêncio e responder, dessa forma, a tudo o que nos aconteceu. Mas sempre há algo a ser dito. Releve isso também, por favor. Estou muito acostumada (e acomodada pelo costume) a te dizer tudo. Foi assim que começou, não foi? Comigo te dizendo. E é assim, desse mesmo jeito torto, que te digo até hoje. E sigo dizendo. Tome essas palavras como suas, porque, dessa vez, elas realmente são. E, fique você sabendo: sempre foram. Entendo perfeitamente suas ocupações, sua falta de tempo, seus atrasos, seus amigos, suas vontades, seus desenhos, suas histórias, seus papos. Mas entendo também, e com ainda mais perfeição, que a sua vida não me cabe. Sei que poderia simplesmente entender isso e, com esforço sobrenatural, esquecer tudo o que foi dito até aqui. Mas não consigo, porque preciso dizer ainda mais pra sentir que tudo está mais claro e limpo.

(Palavras sempre limparam e esclareceram a minha vida.)

Poderia não dramatizar tanto o nosso caso, não insistir tanto nessa história, não usar tantas falas prontas pra te convencer. Poderia, pelo menos dessa vez, deixar de lado as minhas ceninhas. Aqueles dramas que, no fundo, só pedem atenção. Afinal, eu nunca fui mesmo uma boa atriz. Poderia engolir o choro algumas vezes, e fingir ser forte e corajosa. Pelo menos enquanto você estivesse por perto. Mas, a vontade de não te deixar ir antes de me ouvir toma conta da possibilidade de, sabiamente, ignorar todas essas realidades imutáveis às quais eu não tenho mais (se é que um dia tive) poder de mudar. Mas, entenda o que eu vou dizer: eu nunca fui uma boa atriz. Assim, eu usaria minha mudez pra assombrar o seu mundo, invadir sua casa, pesar sua consciência, atormentar suas mentiras, prolongar seus dias, enfatizar suas horas, quebrar seus vidros, explodir sua audição. Poderia ser sutil como o tiquetaquear do relógio e te emudecer com o som intenso e alto do silêncio que grita, em algum canto, dentro de mim. Poderia te trazer pra cá em meios segundos pelo azedo da minha ausência, mas eu insisto em querer que você esteja aqui pelo doce da minha presença. Talvez, ao longo dos anos, tal doçura tenha se perdido, se dissipado pelo universo, ou mesmo se transformado em leve e sutil amargura nos dias de inverno. Bem sei que poderia despistar. Mas, afinal, eu nunca fui mesmo uma boa atriz.

Queria que, lendo tudo isso, você me sentisse perto, da maneira com que sempre tentei, do meu jeito, estar. Mais perto do que nunca. Você já deve saber que eu não gosto de lero-lero. Quem me conhece, sabe. E eu espero que você também me conheça. Espero que, no meio de tanta gente, você ainda não tenha se esquecido de quem eu sou. Sei que sou irônica quando algo me aborrece. Sei que somos como ouriços tentando nos aproximar. É claro que isso nunca poderia dar certo. Já te adianto que não pretendo, nunca pretendi, te machucar com meus espinhos. Desejo, de coração, que minhas palavras não te tirem o humor ou a alegria. Sei que você é alegre e sua alegria me alegra também. Por isso, guarde tudo isso sem dor, “embora, em segredo, doa”.

O que eu quero te dizer, nesse momento, é que está se tornando cada vez mais difícil pra mim, viver de idealizações. E manter vivo um sentimento desse jeito está se tornando impossível. Não posso continuar arquivando tudo o que quero te dizer pra um dia qualquer. Isso não faz bem pra mim e, por isso, não pode fazer bem pra você também. Portanto, não queira que eu guarde palavras que me arranham noite e dia por medo de ser arranhado. Eu não tenho garras, mas também não tenho meias verdades. Minhas palavras são inteiras. E suas.

Pensei ser forte, mas percebi (e da pior forma possível) que não sou. Pelo contrário, sou uma menina frágil, de pouco mais que um metro e meio, tentando, a todo custo, ser dona de algumas verdades. Sou uma colecionadora de palavras e de notas que, articuladas, criam muito mais do que frases e músicas. Criam amores. E foi assim que eu te criei em mim.

(Um dia me disseram que só o criador pode destruir a criação.)

Até pensei que seria fácil me ausentar de você ou te ausentar de mim. Tanto faz no fim das contas. Mas, honestamente, eu me enganei. A psicanálise diz que há duas maneiras de matar alguém: fisicamente ou psicologicamente. A segunda possibilidade me causou um êxtase. Confesso que pensei ter encontrado uma solução pra tal caso de amor impossível, levemente inviável ou desastrado, quando ouvi isso. Bastaria te matar do modo indolor e sutil, sem te eliminar da vida, que você tanto ama. Bastaria te matar de mim. Me disseram que o processo era simples. Só precisaria eliminar tudo, sem exceção, dos seus restos que ficaram em mim. Música, foto, livro, poesia, carta, porta-retrato, sonho, cheiro, pó, segredo, endereço, telefone, nome. Tudo, exatamente tudo. Eu teria que perder a memória por você. Mas eu descobri que isso não poderia ser tão fácil. Há mais de você em mim do que eu supunha. Somos o paraíso um do outro e, juntos, somos nosso próprio paraíso. Particular.

Sei que já disse demais. E imagino que você já deve ter entendido tudo, se é que isso já não havia acontecido enquanto eu silenciava. Mas sempre foi uma característica minha prolongar os fins. Não sei de nenhum modo bonito pra finalizar uma carta assim. Mas prometo que você continuará aqui comigo por um longo tempo. Prometo compreender, com carinho, toda a sua história. Prometo seguir com esse amor explosivo dentro de mim. E prometo cumprir todas essas promessas. E prometo, com ainda mais fervor, prometer tudo de novo, quantas vezes for preciso.