sábado, 29 de janeiro de 2011

NAS CORES INVISÍVEIS



Vamos ler aqueles poemas que ainda não foram escritos, e vamos escrever o nosso próprio poema, sem versos. Sejamos o verso um do outro. Sejamos amor frente e verso.

Vamos fazer barulho no nosso silêncio, de um jeito que só a gente entenda. Vamos cantar uma canção inaudível. Vamos pronunciar a melodia de ser calado. E vamos amar assim, calados. Colados. À meia luz.


Vamos tocar o infinito. Vamos ser eternos, apenas por hoje. Vamos percorrer o mundo dentro do menor cômodo. Dentro de nós.


Você vê no que nos transformamos? Então vem, sejamos senhores de um destino invisível. Vem, que eu te deixo escolher a cor dos nossos sonhos. Vem, que eu te deixo escolher a próxima canção. Vem, que os discos de vinil já não me bastam. Vem, que eu preciso de alguém pra ser meu acorde. Pra entrar em acordo. Pra me acordar.


A minha aquarela precisa das suas cores. Preciso esbarrar em seus tons pra me sentir inteira. Assim, nosso caso começa no tom certo. Sem desafinar, fica assim combinado. Passeio por nuances incertos. A incerteza é a minha condição. Nosso encontro é tom sobre tom. Nosso destino é traçado pelas mesmas canetas hidrocor.
..

Minhas filosofias caíram em contradição. Você já sabe dos meus cabelos finos e desgrenhados pelo vento. Já sabe dos meus dedos tornos, dos meus desejos tortos e de todas as outras torturas. Vamos viver esse exato instante em que te digo. Vamos fingir que já nem precisamos do amanhã. Me prometa o futuro mais improvável, só pra eu acreditar.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

ESPERANDO AVIÕES


ilustração: Börmaister


Houve uma época em que, da janela do meu quarto, eu tinha a chance de analisar largamente o céu. Eu podia ver o entardecer, o anoitecer, o amanhecer. Os fenômenos da natureza se combinavam e se misturavam. Sobre os dias, ficava difícil discernir seus começos e fins. O mais importante era a noite. Era à noite. A noite, à noite, a noite, à noite... Constelações inteiras me presenteavam fora de data. Por parecer estar tão perto do céu, eu me sentia também no direito de ordenar às estrelas que escrevessem o meu destino assim como nos sonhos de menina que vinham me encapar quando eu finalmente pegava no sono. Ali, deitada na minha cama e cheia de sonhos a tira-colo, eu podia ter o mundo em minhas mãos. Eu podia ver o brilho da estrela. Podia me sentir fada. Podia me perder de vista. Podia contar as luas. Pra me encontrar. Ali o tempo voava, assim como voavam os aviões no céu, cujo pouso eu acompanhava delirando até que eles se escondessem no telhado do meu vizinho ou em uma das árvores que transformavam a minha rua em um beco. E, por falar em aviões, antes que eu prolongue ainda mais a introdução como me é de costume, vou começar a contar.

É difícil falar de uma história que não aconteceu. Bem, talvez você não concorde com isso. A verdade é que não é tão complicado imaginar. Eu até que invento bem. Mas, nesse caso, não parece ser tão simples. O fato é que meu conto está entre a verdade e a mentira. Meu conto está entre o real e o imaginário. Não foi tudo obra da minha fértil imaginação, bem sei que não foi. Tenho tudo por escrito para confirmar. Mas, no fundo, nada nunca se concretizou. As nossas palavras costumam aceitar todas as nossas fantasias. Assim, publicamos em nós amores fictícios. Anunciamos ao mundo a beleza dos nossos amores impossíveis, ou mesmo possíveis, porem, inviáveis. Se essa história existiu? Depende do ponto de vista.

Por obra do destino ou do acaso, ele apareceu. Bem, não apareceu da mesma forma com que aparecem os príncipes encantados nas estórias que se conta às crianças antes da hora de dormir. Não veio em cavalo branco, não me conquistou e nem mesmo disse palavras de amor. De fato, meu príncipe nem mesmo tinha cavalo que o pudesse transportar até mim, razão pela qual os aviões se tornaram tão importantes nessa história. Vale a pena contar que, em momento algum, eu fui conquistada com esforço, mas pelo contrário: eu é que tive, neste conto, a árdua tarefa de conquistar. E não foi fácil. Foram minhas as primeiras, segundas e terceiras palavras de amor.
Enquanto tudo acontecia, até pensei ter ouvido, em algum momento, um verso bonito. Mas hoje vejo que, além das primeiras, segundas e terceiras, todas as palavras de amor dessa história foram inteiramente minhas. Pra ser bem sincera, quem veio não era um príncipe. Veio um homem que, aos meus olhos, parecia um menino. Pensando bem, ele nem mesmo veio. Foi de longe, bem longe, que eu me encantei.

Cansada de digitar o que sentia, resolvi começar a gritar. Gritei o quanto pude, pensando que, incomodado com meu barulho infernal, ele se renderia aos meus encantos. O que eu não sabia é que não se encanta ninguém com gritos. Mas, pouco mais tarde, vim a perceber essa fatalidade.

É nessa parte que entram os aviões. Se desde muito antes, quando bem pequena, eu já olhava esses aviões com certa fixação, naquela época passei a ver em cada um deles que completava sua rota perto da minha janela, uma possibilidade de ver o amor de perto.

O tempo passou e os aviões também passaram. Em nenhum deles esteve você. Me invadia o medo de que os anos se passassem e eu questionasse eternamente como teria sido, afinal, a minha história, caso em um daqueles aviões estivesse você e o amor. Você e o amor. Prontos pra fazer inveja em qualquer cidadão. Prontos pra matar de rir. De chorar. De amar. Prontos pra virar tudo de cabeça pra baixo. E eu, morrendo de vontade de ficar totalmente louca, pronta pra me permitir enlouquecer. O medo era de que nenhum dos futuros amores soasse tão leve a ponto de vir do céu e ainda ser bonito. Entende?

Inspirada, motivada e arrastada por esse medo que me ostentava, eu bati na sua porta. Sim, foi quase isso. Bati com o coração na mão. E, por sempre pensar demais, decidi erguer minha mão ao seu encontro sem me questionar, em momento algum, as conseqüências daquela entrega. Entregue ao ponto de, ao contrário do que dizem os dramas do amor, não me equivocar. Um dia virá. E será. Belo.

Até então, ninguém veio me perguntar sobre o amor e outros equívocos. Talvez seja esta a razão de eu continuar amando. E me equivocando. E amando de novo. E me permitindo equivocar-me. E, naturalmente, me equivocando.

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Hoje o Bate-Coração completa seis anos de existência. A música Esperando aviões, do Vander Lee, ilustra não só o texto, mas também este momento.



O tempo passou, mas eu me lembro muito bem: há seis anos atrás, alimentei a doce esperança de entregar, sem maiores pudores, um pouco do melhor que havia em mim. Toda esperança é doce. A verdade é que meus pedaços estão todos espalhados por aqui e, ao contrário do que eu planejei, não só os melhores. Estou inteira nessas linhas. Até nas minhas fantasias, com as quais eu quase te convenço, estou eu. Eu, tentando me sentir completamente dona de mim mesma, sendo dona ao menos das próprias palavras, torcendo pra que você me leia e me aceite, mesmo que não me compreender. A compreensão se torna inútil, se a gente parte do pressuposto de que eu e você nos entendemos bem. Se nossa linguagem é a mesma e se nosso idioma não nos proibe, sinto-me livre para entrar na sua tela, no seu dia, no seu coração. Você é o leitor, entende? Você, que me lê nesse exato momento, é uma das razões desses seis anos de coração batendo forte. É o desejo de ser lida que me torna capaz de articular minhas inspirações em palavras que inspiram quem me lê. Agradeço aos que me leem, me inspiram, me aceitam, me escrevem, me encantam.

O aniversariante é o Bate-Coração, e o meu presente é a batida mais forte, mais sincera e mais profunda que há em mim. O meu convite é continuar escrevendo essa história, sem data de vencimento ou prazo de validade. Enquanto o coração bater (forte)...

domingo, 2 de janeiro de 2011

OS MEUS MOTIVOS

Eu canto porque o instante existe
E a minha vida está completa
Não sou alegre nem sou triste
Sou poeta

(Cecília Meireles)


Os acordes se desprendem da alma. As notas, soltas, me fazem feliz. Claro é o dia em que canto e transformo em poesia aquilo que já não cabe em mim. Vou soltar a minha voz. E, você, por favor, entenda.



Esse é o clipe de divulgação da música Mil Planos, que é de composição de Raphael Campos. Mil Planos é uma das faixas do meu disco, a primeira a ser divulgada na internet. O CD está quase pronto e se chama "de caneta hidrocor". Espero que vocês, leitores queridos do Bate-Coração, cantem comigo essa canção. Que o coração bata mais forte agora e sempre. E que, em 2011, a minha música colora o som de muita gente por aí... de caneta hidrocor!



Para ouvir e saber mais sobre o meu trabalho como cantora, acesse o meu site, siga o meu twitter, participe da minha comunidade e adicione o meu perfil do orkut.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

DESEJOS




Que a vida continue me causando espanto, medo, surpresa e prazer. Que meu coração continue pulsando descontrolado dentro de mim, porque nunca foi minha pretensão sentir calada. Que o injusto continue me indignando, e que a indignação continue me movendo em busca daquilo que acredito ser certo. Que o meu olhar se mantenha aceso. Que eu continue tendo efêmeras vontades de desistir, porque sou humana, mas que a fé me mova sempre até o fim. Que o caminho árduo nunca me faça ser tentada pelos falsos atalhos. Que o pó não se acumule nem na estante, nem no corpo e nem na alma. Que, de um jeito ou de outro, a gente consiga viajar: no mapa, nos livros, nos sonhos ou no amor, que é o maior de todos os sonhos. Que acaso e destino jamais se confundam, e que a gente continue com o dom bonito de acreditar que nossa história está escrita em algum canto do céu, nas estrelas. Que sonhar não se torne, em hipótese alguma, tolice. E o melhor: que nenhum sonho jamais seja proibido. Que os planos saiam do papel e nos surpreendam por serem ainda mais bonitos do que pareciam ser quando ocupavam espaço apenas dentro de nós. Que a falta de tempo nunca nos impeça de embrulhar os presentes com papel celofane ou fita de cetim, e muito menos de escrever um cartão. Que os papeis de carta saiam da gaveta e ganhem letras, redondas ou tortas, que façam sentido quando combinadas com o coração. Que o rosto da pessoa amada se torne miragem, não pela beleza do seu contorno, mas pelo quão verdadeiro é aquilo que a preenche. Que o encontro nunca deixe de ser a opção mais viável. Que o maior confronto nunca deixe de ser o olho no olho. Que o amor seja finalmente eleito como o caminho mais curto para a real felicidade. Que fazer pedido a uma estrela não seja rotulado como algo cafona. Que a gente goste daquilo que vê no espelho, e que não nos permitamos, em momento algum, tornarmo-nos escravos daquilo que gostaríamos de ver nesse espelho. Que os dias cinzentos sejam transformados em primavera. Que os risos, cada vez mais sinceros e espontâneos, sejam em alto e bom som, sem a menor timidez ou pudor. Aliás, que todo o pudor seja esquecido quando, em questão, estiver o amor verdadeiro. Que a gente caiba milimetricamente em um abraço, e que esse abraço nos sirva de esconderijo quando o que está lá fora parecer perigoso demais. Que olhar pra trás jamais nos envergonhe. Que o amor de cinema continue sendo, no fundo, o sonho de cada um. Que declarações sejam feitas sem rodeios. Que as verdades sejam ditas. E que a vida esteja cada vez mais perto da poesia, até que vida e poesia sejam, por fim, inseparáveis. Amém.


Obrigada àqueles que, através do Bate-Coração, me entenderam em silêncio. Obrigada àqueles que me inspiraram, me ofereceram uma palavra de carinho ou me fizeram acreditar que transformar em letras aquilo que já não couber em mim vai ser sempre uma boa pedida. Que as alegrias do final do ano se perpetuem em 2011. Feliz Natal, e a gente se encontra no ano que vem.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

QUANDO O FIM PARECE O MEIO

Hoje pensei, pensei e não encontrei solução alguma para essa história mal contada de você sem mim. Aposto que isso tudo não passa de um erro de digitação. Eu sempre soube que seria melhor se a gente estivesse escrevendo essa nossa história à mão e em papel de seda. Mas não dá, não dá. Estamos fazendo uma teia nesse mapa. Daqui a pouco não sobra mais nenhum continente para contar história. Ou para contar a nossa história. Será que alguém vai mesmo contar? Será que a gente vai mesmo contar?

O tempo se arrastou. A rotina de feriado prolongado me emudeceu. Hoje o sol nem mesmo pôde se mostrar. Os ponteiros pareciam recusar qualquer movimento. Nem mesmo a poesia fez o tempo rolar. Nem mesmo as canções de inverno. Nem as melhores amigas. Nem o silêncio. Nem o sono. As horas se negam a passar em cor. Estou toda errada. Estou em preto e branco. Não escrevo em versos porque sei que hoje não vou rimar.

Às vezes penso: que sorte a nossa de terem tido essa idéia genial de encurtar as distâncias. O longe está tão perto! E o perto está longe, longe, tão longe que já nem se vê. Você também não me vê. Nem eu te vejo. Mas ainda assim, a gente sente. Só sente. Em algum momento, alguém disse que “o que os olhos não vêem o coração não sente”. Será mesmo assim? Não, não será. O que será é só da gente: um mundo só nosso que ainda virá. Eu acreditei e você também. A gente esperou roendo as unhas. Éramos frágeis, mas o que sentimos parecia nos tornar fortes. Engano nosso?

As interrogações se sobrepõem. Tento me lembrar de você e te imaginar, procurando algum bom motivo pra gostar tanto daquilo que apenas imagino. Tento redizer cada palavra nossa para encontrar, em alguma delas, um motivo bom pra estarmos tão longe. Mas palavras foram tantas que eu até me perco. Já não sei em qual dessas palavras, benditas ou malditas, tudo começou. Já não sei nem mesmo quando começou. Ou se começou.

Penduro corações naquela velha estante de medos. Um dia pendurei sua foto, tentando, quem sabe, ter um dia melhor. Essa história de amor impossível já foi longe demais, não foi? Foi. Não foi. Foi longe demais justamente porque não foi. Você é que foi. Já foi? Se ainda não foi, não vai!

Não foi preciso um ponto final. Não foi preciso nem mesmo uma pontuação que se preze. Terminou seco assim, em staccato como a música que eu faço pra sobreviver. Frases sem início não precisam terminar. O que não tem começo ou fim, também não deve ter meio. Mas hoje tudo está meio assim, meio acabado, meio finito e, ao mesmo tempo, meio sem fim. Hoje tudo está simplesmente meio. Até eu, que tenho essa mania de ser extremista demais, estou pela metade. Todas as cores ainda lembram você. Mas é melhor assim. Sem início e nem fim. Muito antes do “oi” e infinitamente depois do “tchau”.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

NOTA SOLTA




Se a inspiração vai embora,

Solto uma nota no fim da página

Ou uma letra no fim da canção

E comemoro


Se não consigo começar do início

Começo então pelo fim
Trocar a ordem é parte do show

O que fazer com a única palavra que sobrou?


Esse show é inteiro meu

Sou eu quem dita cada estrofe dessa canção

É minha a culpa de ser quem eu sou

Então, só aceito a condição


Um acorde se desprende da alma

Sem letra, só música

Silêncio também é poesia

E silenciar também é arte de poeta

Se articular palavras fica difícil

Me perco no acorde ou na escuridão

Claro mesmo é o dia em que escrevo

E envolvo em prosa aquilo que não cabe aqui


Que seja sofrida a rima da saudade

Ou que seja amargo o verso da solidão
Não importa

Ainda é prova de que eu estou viva


No rodapé dessa página só tem amor

É só isso que eu posso garantir

Porque não há amor maior
Que o meu amor de sempre

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

A TAL CONSPIRAÇÃO




Está tudo traçado. Só precisamos escolher qual será a nossa canção e, depois disso, o amor já pode entrar em cena. Amor dengoso esse nosso que demora tanto pra se aprontar. A gente precisa mesmo parar de mimá-lo pra que ele, enfim, possa acontecer. Nosso amor tá fazendo hora. Tá mal acostumado e precisando de um susto. Esse nosso amor novinho que brinca, brinca e brinca com a gente porque sabe que sempre continuamos aqui, à sua espera. Vou sumir de você, e fica assim tratado que você também vai sumir de mim. Mas é de mentirinha, só pra enganar o que a gente sente e despertar a tal da saudade. Ah, a saudade! Outra ingrata. Vamos enganar ela também, e fingir que já não sentimos a falta que o nosso amor nos faz, pra ver se ela pára de doer só um pouquinho. Ah, a falta! Por que será que ela não vai embora e leva consigo toda a nossa ausência de nós mesmos? Ah, a ausência! Quando de você, só tenho a dita ausência, é nessa hora que me dói. Ah, as horas! Parecem tão longas quando você não está, que me dá vontade de ser um pouco mais de você pra me contentar. Mas não dá. Se isso estivesse ao meu alcance, juro que faria sem pensar. Ah, as juras! Essas juras que brincam de esconde-esconde com a gente e, quando perdidas, fazem com que a gente também se perca. Porque será que esse enredo insiste em fazer com que a gente fique no ensaio? Porque será que essas personagens, criadas por nós mesmos, querem tanto estragar a nossa cena? Entra em cena agora e muda esse script. O roteiro tá todo pronto, só precisamos da canção e do final feliz.

Perdoa se eu, perdida, te perder de mim em algum momento ou pedir pra que se vá. Perdura nossas promessas de encontro em futuro pardo. Juro que é tudo em prol do nosso amor.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

DEIXA O SOL ENTRAR




(...e vem amar.)

A hora de acordar é agora

Vem andar comigo mundo afora

Porque a gente ainda pode ser feliz


Fresta a fresta, vai embora a aflição

Já não tenho medo do escuro

E nem do meu coração


Ninguém melhor que o sol

Pra engolir a noite que passou
Nada melhor que o dia

Pra clarear tudo que ainda restou


Entre nossos erros e acertos
Só tenho um verbo pra te dar

E já dei, lembra?

domingo, 17 de outubro de 2010

A HISTÓRIA DA DONA DA HISTÓRIA

Desde os tempos mais remotos, homens e mulheres se diferem não apenas pelo sexo, mas pelas posições que ocupam na sociedade. Ao longo dos anos, séculos e milênios de ocupação humana na Terra, os papéis se modificam, os conceitos se transfiguram e os preconceitos são parcialmente superados. A sociedade está em constante processo de transformação. A verdade é que tudo o que existe se transforma e, por isso, a sociedade é a própria metamorfose. A história da mulher é regada a lutas, conquistas e evoluções. Até o momento, ninguém venceu a guerra dos sexos. Tudo o que foi conquistado até aqui em prol da igualdade foi fruto de um longo processo que ainda não terminou. A cada dia, os gêneros se aproximam um pouco mais. Homens e mulheres estão sempre mais prontos para caminhar em pista dupla. Mas não foi sempre assim.

A mulher, condenada a uma árdua prisão dentro de si, vivia delimitada pelo cárcere do lar, pelo próprio casulo, pelas supostas limitações físicas. Ela, a mulher, via-se obrigada a sonhar com pouco e a ver o pouco com que sonhava nunca se concretizar. Mulher é rasa.

O homem, definitivamente dono do título de sexo forte, vivia solto no universo, pronto para desafiar a vida e os limites que ela, vez ou outra, lhe ousava impor. Ele, o homem, via-se obrigado a carregar o peso dos seus cargos e a ser o próprio peso do mundo. Homem é denso.

A história dos sexos começa. O homem vai à caça e a mulher põe à mesa. O homem se transforma em pai de família e a mulher educa os filhos. O homem constrói a casa e a mulher organiza o lar. O homem atravessa o globo e a mulher decifra os cômodos. O homem viaja pelo planeta e a mulher viaja dentro de si. O homem faz a novidade e a mulher, com olhos curiosos, aprecia. O homem guarda o “mundo afora” e a mulher aguarda a hora. Mas a hora chega.

O tempo passa. A mulher, que outrora preparou o jantar, cuidou das crianças, organizou a casa e admirou o marido, parece não mais se conter dentro do seu caminho. O destino de Marias, Cecílias, Rosanas, Carolinas, Julianas, Rebecas e infinitas outras donzelas já não lhes basta. A casa, os filhos, o marido, a família e a rotina já não são suficientes. O pó da casa passa a empoeirar a alma. O corpo, também empoeirado, precisa ser observado com mais atenção. A mulher quer opções de escolha. Quer ter direito de decidir a sua direção. Quer dirigir seu próprio filme, redigir o roteiro, controlar o enredo, escolher o elenco, se envolver com a trama. A mulher já não cabe no seu destino e já não aceita as velhas tradições que a sociedade lhe impõe. A mulher quer mais.

A redoma se quebra. O homem, que outrora abasteceu a família, garantiu a descendência, providenciou seu teto, traçou suas rotas e foi contemplado pela esposa, parece perder, pouco a pouco, a sua soberania. Os preconceitos se esvaem. A mulher se cansa de aceitar as regras, de assistir a vida e assistir ao homem. Ela definitivamente não mais se contenta com o papel monótono e rotineiro de sempre dar assistência. O homem se vê obrigado a conhecer e reconhecer a figura feminina. A força e superioridade do chefe de família são colocadas em dúvida. A mulher, cansada de ser apenas a dona do lar, passa a lutar para ser a dona de si: a dona do seu corpo, dos seus desejos, dos seus amores, das suas ilusões e das suas verdades.

O trajeto feminino não foi e não é fácil. A mulher caminha de encontro a si mesma, percorrendo uma estrada de obstáculos. Mas, apostando em um futuro exclusivamente seu, ela encara as dificuldades e desafia a suposta fragilidade do seu sexo. A estrada que leva à independência e à igualdade é árdua: a mulher precisa abandonar toda uma história sofrida de séculos e séculos de submissão. Mas ela consegue. Ela cala o passado e grita por um futuro de poesia. Se torna a senhora do seu destino e prova que o sexo frágil carrega consigo uma força única. Prova para si mesma e para o mundo que é capaz de dividir com o homem as contas, o ambiente de trabalho e os cargos importantes. A mulher está, pela primeira vez, em suas próprias mãos. Ela escolhe seus representantes políticos, sua profissão e escolhe, inclusive, como, quando e para quem vai se doar. Ela quebra as barreiras. Assume seus passos e seus pedaços. Se assume por inteira e se ama. Ela descobre, dentro de si, coragem suficiente para se libertar. Entende que é justamente dentro dela que acontece o milagre da vida. Percebe que pode ser mil. Ou melhor: percebe que é infinita.

O homem resiste. Será possível que aquela que viveu anos e anos dentro de uma gaiola é agora a senhora do seu destino? Surge a pílula anticoncepcional, levantando a bandeira da liberdade sexual. A mulher agora vota. Dirige. Estuda. Trabalha. Paga a conta. Abre o jogo. Ela transforma o amor em um ato de liberdade e coragem. A mulher agora ama.

Chega a hora da reflexão: a mulher, em frente ao espelho, pergunta para si mesma no que, afinal, ela se transformou. Por quantas mulheres a mulher já teve que passar? Que mulher é a mulher de hoje? O resultado dessa passeata rumo à liberdade, ao reconhecimento e à independência feminina é a mulher que não espera acontecer. Aquela que pendura na parede um diploma de curso superior. Aquela que faz entrevista de emprego em empresas importantes, sem ser olhada dos pés à cabeça. Aquela que disputa vagas de trabalho em concursos públicos e obtém resultados tão ou mais satisfatórios do que o homem. Aquela que detém de um poder único ou um dom imensurável: o de ser mãe. Aquela que ainda tem tempo para ensinar aos filhos como é que se vive. Aquela que usa maquiagem e salto alto. Aquela que se declara sem medo. Aquela que sabe conversar sobre política. Aquela que toma a iniciativa. Aquela que se admira. Aquela que pára o trânsito. Aquela que exige momentos inteiros. Aquela que, apesar de tudo, nunca abandonou os feminismos e nem deixou de ser mulher. Pelo contrário: aquela que é mais mulher do que nunca. Aquela que é a dona da história.


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ps: Dedico esse texto à todas as mulheres da minha vida. À todas que entram procurando um pedaço de si nas entrelinhas. À todas que usam meus textos nos perfis do orkut. À todas que me deixam recados lindos que me fazem querer escrever mais e mais. Hoje, sei que não escrevo só pra mim. E isso me faz muito feliz.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

RELATOS DE UMA ASSASSINA

Quisera eu dedicar um texto, do início ao fim, à prosopopéia. Quem sabe, então, caso obtivesse sucesso, faria da minha vida uma eterna personificação. As demais figuras de linguagem teriam espaço, mas nada seria tão intenso quanto o ato singelo de atribuir à todo tipo de ser as características que fazem de nós, humanos, seres supostamente racionais. Neste caso, a escolhida seria ela, desprovida de cérebro e de coração, a barata.

Essa não é uma fábula, mas qualquer um pode falar, sentir, sofrer e amar, basta querer. Essa não é uma ficção, mas tudo pode acontecer.

Encaro a folha em branco e nada me vem. Preciso de uma narrativa. Isso não pode ser tão difícil! Esse relato minucioso de tão árdua e sofrida tarefa já é, por si mesmo, uma narração. Que estou eu fazendo, senão narrando a você, caro leitor, que nada mais tem a fazer senão ler minhas frases, que nada mais são senão simples interrogações que, mesmo articuladas, parecem ainda não fazer sentido? Essa arte de contar é rara. Mas eu conto.

Creio que seja mais ou menos nesse momento da história que aparece a personagem principal. Peço perdão aos fatos caso eu esteja me precipitando, mas penso que já seja hora dela, a barata, aparecer. Juro que gostaria que ela estivesse em posição de mais prestígio, ao menos para entrar em cena. Mas não. Ela estava de pernas para o ar. Não sei se essa comparação é oportuna, mas eu também estava. Tudo em mim fazia bagunça. Coerência era a última palavra do meu dicionário que, devido à literatura romântica que folheei durante toda a juventude, era extenso. Talvez seja por essa ausência absurda de qualquer razão, que não fiz nada do que qualquer pessoa sã faria em meu lugar. Fiz o contrário. Eu gostava de contrários.

Sei que o meu amor, se estivesse ali, sentiria orgulho da mulher forte que eu era, ou pelo menos demonstrava ser naquele instante. Mas meu amor não estava. Prefiro assim, pra que ninguém pense que me fingi corajosa só pra impressionar. Estava sozinha, mas, ainda assim, não gritei. Não subi em nenhuma cadeira. Não supliquei por socorro. Não pensei em me render. Às vezes paro pra pensar e vejo que, mesmo se quisesse ser um pouco mulherzinha naquele momento, de nada adiantaria. Estava só, a sala era vazia, o bairro era pacato. Não havia cadeira sobre a qual eu pudesse repousar o salto, vermelho e fino que sustentava a minha magreza. Não havia ninguém em toda a Rua da Glória que pudesse ouvir meus gritos agudos de sofrimento e solidão. Não havia nenhum canto da sala que pudesse fantasiar meu medo. Eu teria que ser corajosa, simplesmente porque era a única opção que me restava.
Me aproximei da barata. Observei atentamente cada mínimo movimento das antenas daquela barata. Ela parecia se comunicar comigo e, talvez por isso, eu não pretendia fazer-lhe nenhum mal. Amizade era coisa que eu também não queria. Toda a Rua da Glória já me julgava suficientemente louca, eu não precisaria de mais um atributo de insanidade.

Tive vontade de prendê-la. Não sei ao certo o que faria com um bicho de estimação tão pouco amigável. Eu era só. Mas baratas nunca foram boa companhia. Ou foram? Bem, tanto faz. Ainda que fosse loucura, fui buscar um potinho de vidro, dentro do armário da cozinha. Tive medo de que ela escapasse pela fresta da porta. Já não sabia o quão frustrada ficaria caso me perdesse da barata ou ela se perdesse de mim. Já estávamos, nós duas, perdidas em um universo de almas desertas. E entre tantas almas, houve aquele encontro, cujas emoções em mim despertadas, eu carinhosamente chamei de amor. Qualquer um que tenha lido até aqui, concordaria que eu tinha sangue de barata.

O pote que encontrei era feito de um vidro bem espesso e tinha tampa azulada. Ele havia chegado à nossa casa na semana anterior, cheio de doce de leite. Mas agora ele estava vazio no armário da cozinha, esperando se fazer necessário para guardar qualquer bobagem em um dia qualquer. A barata não era uma bobagem. Era uma barata que estaria ali dentro, nos próximos minutos. Bom, pelo menos era isso que eu esperava. O mundo dava voltas. Nenhum pote guarda somente um tipo de doce. Aliás, nenhum pote guarda somente doces. Somos todos potes, à espera de algum conteúdo. O meu conteúdo era, portanto, um animal de aproximadamente cinco centímetros de comprimento, seis longas patas e um par de antenas que, aos olhos do mundo, eram asquerosas. Mas não aos meus olhos. Os meus olhos nunca foram os olhos do mundo.
Retornei ao quarto com o pote em mãos. Não estava pronta para dar um golpe, mas para propor uma amistosa relação. O que tínhamos em comum, repito: era o nosso sangue, o sangue de barata.

Não encontrei minha amiga no chão. Comecei a me desesperar. Me sentei perto da porta para esperar. Ouvi um barulho que se assemelhava a qualquer material frágil e quebradiço sendo esmagado. Foi naquele momento que experimentei a sensação de ser assassina. Não por maldade ou vontade própria. Acho que não. Mas, entenda, caro leitor: tentei mudar o destino da barata, mas não foi possível. Seria recriminada caso propusesse a ela uma amizade. Tive que matá-la, como em todos os casos de barata, ainda que involuntariamente. Insetos nunca têm final feliz. Nem eu.