segunda-feira, 11 de julho de 2011

MUDE-SE


Feliz mesmo é quem consegue se reinventar mesmo percorrendo os mesmos cômodos, sustentando a mesma rotina, enxergando as mesmas cores, visitando os mesmos amigos, indo aos mesmos lugares.

Bom mesmo é comprar o objeto novo de decoração ou mudar os objetos de lugar e já chegar à conclusão de que tudo parece mais bonito e moderno. É enxergar novidade nos pequenos detalhes que diferenciam a segunda-feira da terça-feira. É perceber que essas minúcias transformam dias em datas e fazem com que elas não sejam apenas conjuntos em um calendário velho. É entender que cada cor hospeda um amontoado inesgotável de tons que, sobrepostos, nos trazem novamente à folha em branco, capaz de nos transportar a toda parte do universo. É ir aos mesmos lugares procurando, vez ou outra, por um caminho diferente. Toda vida precisa de alguma inovação. 

A gente precisa de variação: na cor do cabelo, no tamanho do salto, na cor das unhas, no quadro da parede da sala, no livro de cabeceira. De alguma forma, a precisamos viajar, mesmo que dentro de nós. E tenha certeza: não há viagem mais infinita do que aquela que a gente faz sem sair do lugar.

Transcender é necessário. 

quinta-feira, 7 de julho de 2011

POR FAVOR, ENTENDA...


Hoje, durante o horário de almoço, confesso que me perdi no tempo por alguns instantes. Isso não é lá muito anormal. Preciso admitir: fico constante desconectada do universo real e totalmente entregue aos planos, desejos, sonhos, vontades, apreços. Não nego minha mania de sonhar. Assumo.

De repente, meus pensamentos silenciosos foram interrompidos por alguém dizendo:

- Como você é estranha! Mas a gente gosta do seu jeito, assim mesmo, viu?

Fiquei pensando... É estranho ser vista sempre pelo mesmo ângulo. É estranho ser sempre analisada pelos mesmos olhos que insistem em acreditar que é desconexo se desconectar. É estranho ter um universo tão a parte em que os outros não conseguem, de maneira alguma, penetrar. É estranho.

Continuei pensando... Tomara, tomara mesmo, que num dia qualquer de primavera, verão, outono ou inverno, cruze o meu caminho alguém que consiga me enxergar como ninguém nunca pôde. Alguém que não se espante quando eu falar dos meus sonhos, que não se assuste quando eu contar meus medos, que não desvie o olhar quando eu falar com meus olhos e que caiba, por fim, nos meus abraços.

Se eu pudesse fazer um pedido, seria esse: “Quando eu soltar a minha voz, por favor, entenda...”

sexta-feira, 1 de julho de 2011

PASSIONAL


O que penso, falo. De repente, vez ou outra e por acaso, falo também o que não penso. Depois, me retifico ou tento.

O que sinto, digo sem muitas erudições. Proibido é dizer sem sentir ou sentir sem dizer. Tenho o coração na ponta da língua.

O que não aceito, reivindico. O que não gosto, reinvento. O que amo, reviro e revivo: peço mais.

O que faz bem aos ouvidos, deixo tocar até ensurdecer. As palavras doces, finjo que não entendo e peço pra repetir. Palavra bonita eu anoto.

O que penso ser verdade, grito. O que penso ser suave, sussurro. Sussurro...

Do que é mais doído, me lembro até o fim da memória.

Bem gosto de expor meus exageros. É bom me parecer comigo.

Espio as miragens e, com elas, pauso a vida por alguns segundos.

O que me surpreende é o que me faz feliz. O que emociona tem sempre o gosto da primeira vez. Gosto desse gosto. Surpresa é doce.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

PARA FLÁVIA.

Há pessoas das quais a gente gosta sem precisar conhecer a fundo. Gosta porque gosta. Gosta do nome, da risada, do jeito de falar. E quando essa afinidade existe, não é preciso muito tempo pra gente notar. Nesses casos, uma conversa mais longa só serve pra constatar algo que já existia desde o início. Que já estava dentro do coração, onde é mais importante que esteja. Afinidade não é, necessariamente, ser muito parecido. Acho até que afinidade está diretamente relacionada com admiração. Foi assim com a Flávia.

Ontem ela me disse tanta coisa sobre a vida, a família, a profissão, o amor! Fiquei pensando. Não consegui falar muito, embora tivesse muita coisa pra dizer. Guardei pra quando fosse escrever. Incrível como tudo fica mais bonito quando eu registro.

Ela me disse sobre como seu mundinho era pequeno antes de conhecer a poesia. Falou também sobre como decidiu ser professora. Sobre o modo estranho e curioso com que conheceu o namorado. Sobre as delícias e amarguras de ser uma professora de literatura. Sobre os sonhos de menina, concretizados ou não. Sobre os melhores livros. Sobre os contos da Lygia Fagundes Telles, especialmente os que estão no livro “Antes do baile verde” que, por sinal, a Flávia me emprestou. Sobre o que vale e o que não vale a pena. Falamos um pouco de tudo naquela manhã. No final, ela me agradeceu por tê-la ouvido. E eu fiquei feliz por ter visto tanta coisa bonita em uma pessoa.

A Flávia nasceu em uma cidade que eu não conheço. Veio morar em Belo Horizonte pra cursar Letras na UFMG. Assim decidira quando, no Ensino Médio, teve uma professora de Literatura com sobrenome idêntico ao seu que lhe mostrou um poema do Manuel Bandeira. Ela me disse que nesse dia, mais precisamente depois de ter lido esse poema, sua vida mudou. Acho que deve ter sido encontro. Não meramente com a poesia, mas consigo mesma. Ou com tudo o que ela sonhava em ser na vida. E foi.

Confesso que senti um aperto no coração quando ela me disse sobre como era triste estar de frente a uma turma numerosa e não ser ouvida por ninguém. É muito difícil encontrar alguém que saiba ler poesia nos dias de hoje. Ela me disse que, nessas horas, costuma relembrar o conto da linha e da agulha, que foi escrito pelo Machado de Assis. O conto se chama “Um Apólogo”. Se não me falha a interpretação, é um conto triste. Mas serve perfeitamente pra que a gente pare pra pensar, quando é preciso. E pensar, mesmo que o pensamento e a reflexão nos levem à tristeza, é preciso. E muito precioso.

A Flávia disse que às vezes sente um vazio. Não falei nada nesse momento, mas pensei: também sou assim. Acho que, no fundo, todo mundo é. A Clarice Lispector, que inspira tanto a mim quanto à Flávia, disse que “todo mundo é um pouco triste e um pouco só”. É verdade. Solidão é sentir que aquilo que a gente faz com o maior amor do mundo significa muito pouco para alguém. É quando a gente questiona o que, afinal, estamos fazendo aqui no mundo. E qual o nosso papel. É triste demais questionar algo assim. Mas quem nunca o fez? Solidão é também sentir que a gente fala e fala e fala e parece que nossas palavras estão sendo ditas em outro idioma, totalmente desconhecido e indecifrável para a maior parte das pessoas. A gente sente solidão quando os detalhes da nossa vida perdem o sentido. Quando as nossas sutilezas, nosso íntimo e nosso interior não são notados. Quando a poesia que grita nos nossos olhos parece impossível de ser interpretada. Quando comunicar-se fica inviável. Aí, nesse parte da história, passamos a preferir o silêncio. Isso acontece comigo. E é ruim preferir se calar. Mas, às vezes, prefiro.

Achei bonito quando ela me falou sobre o seu Hernane. Sobre os tantos livros que ela lê em voz alta enquanto ele, deitado em seu colo, aprende a gostar das palavras como gosta dela. Sobre o amor deles, que é esquisito e fora do padrão. Sobre a história deles, que é curiosa e, ao mesmo tempo, muito romântica. Sobre eles, que parecem ser tão parecidos nessas peculiaridades. Caio Fernando Abreu, que também nos inspira muito, dizia que “num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra”. Hernane e Flávia se reconheceram. Conhecer e reconhecer um amor assim, no meio desses (des)amores todos, é alegria de poucos.

Minha admiração foi enorme quando ela contou sobre as dificuldades que enfrentou pra realizar seus sonhos e chegar aonde chegou. Disse que tem medo de cair na mediocridade, de ser comum, mediana, mais ou menos, só mais uma. Eu não disse muita coisa nesse momento. Se não me engano, tentei convencê-la de que isso jamais aconteceria, porque ela fazia o que amava. E todo mundo que faz algo com e por amor não corre o risco de parecer medíocre. Amor e mediocridade são coisas que não se aliam. É por isso que a Flávia ensina tão mais do que a língua portuguesa exige. Porque existe amor.

Queria dizer que... Hoje, uso as crases com muito mais facilidade. E que sei exatamente a diferença entre os gêneros épico, lírico e dramático. E que aprendi quase que inteiramente as Novas Regras Ortográficas. Sei que ditongos abertos não são mais acentuados. Sei que a Semana de Arte Moderna, em 1922, revolucionou a literatura brasileira. Sei que é preciso muita imaginação pra interpretar um poema concreto. Sei também que existem sujeitos dos mais diversos e que às vezes é chatíssimo classificá-los. Mas nada disso é o principal.

O principal é olhar a Flávia e ver nela uma parte do que eu quero ser. É ver uma menina cheia de sonhos que enfrentou coisas muito difíceis pra se tornar mulher. E que é digna de toda a minha admiração.


Flávia, quando for falar de português, literatura, ou mesmo de você, sempre estarei escutando...

sexta-feira, 17 de junho de 2011

GOIABADA COM QUEIJO



Cada geração traz consigo um amontoado de jeitos e trejeitos típicos. O tempo passa e tudo se renova. Os novos mocinhos fazem do mundo o cenário para suas ambições, seus modismos e sua vida moderninha. Até os sentimentos se confundem nessa dança estranha que leva embora tudo o que já foi. Nesse contexto, o amor também já mudou de face.

Houve uma época em que amor tinha gosto de goiabada com queijo. Amor se resumia em música romântica tocando no rádio, em cartas que sussurravam palavras bonitas e na emoção da tão esperada dança de rosto colado. Amor era beijinho doce, abraço apertado, suspiro dobrado e... Não, eu infelizmente não sou dessa época.

O mundo, de tanto girar, fez com que os conceitos se invertessem e os velhos costumes fossem deixados de lado. A geração mais cool do momento derrama seus sentimentos sintéticos e efêmeros em páginas da internet e se aventura em romances rápidos e polêmicos. As declarações dos enamorados são altamente parecidas, o que nos leva a crer que o amor de hoje já não é um sentimento inigualável, imensurável, mágico, encantador. Pelo contrário: é algo comum, sentido por todos exatamente da mesma maneira. Afinal, o que todos querem? Amor eterno, infinito, verdadeiro, forever e outras variações.

Vou mudar um pouco. Chega dessa ideia de amor infinito. Quero amor infinitivo. Sem maiores complicações. Sem muitos complementos. Sem essas declarações públicas de afetos tão pouco duradouros. Sem esse sentimento escancarado, dilatado e sem mistérios. Não. Eu quero o mistério. Quero essa dança lenta em que se desvenda o que se sente, pouco a pouco. Isso é bonito. Não quero um amor do dia pra noite que é eterno durante uma semana. Cansei dos sentimentos de veneta. Quero um amor simplesinho que divida, com linha tênue, o outro de mim.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

EU E OS LIRISMOS

Queria soltar uma nota curta e indignada sobre a última bomba noticiada pelo telejornal. Ou falar sobre o calor insuportável que anda perturbando nosso equilíbrio e suas possíveis causas. Ou fazer uma dissertação sobre a dengue e as constantes epidemias, sobre o mercado de trabalho, sobre a burocracia. Queria conseguir falar aqui sobre a minha visão política, o que penso sobre economia, como driblar a inflação ou como manter um casamento estável. Queria dar dez dicas infalíveis para. Para qualquer coisa que seja de interesse comum. Ou montar um texto inteiramente denotativo, que denote alguma sensatez.

Não. Não dá. Há tanta poesia em mim, que me perco completamente ao ver-me envolvida em análises, teorias, temas banais. Nas ideias práticas, sinto o peso da limitação e me sufoco. Não sei me conter nos significados reais das palavras todas. Sinto uma falta tremenda de inventar. Os fatos se esgotam, ao contrário das emoções. Sempre haverá mais alguma coisa que se sinta e que seja passível de ser transformada em versos.

Eu gosto mesmo é do inesperado. Do invisível. Do sentimento. Prefiro contar as exceções. Falar do inacabado, e tentar acabar. Falar daquilo que é meio tortinho ao invés de insistir em relatar aquilo que é perfeitamente normal e aceitável. Tenho urgência dessa intimidade que se estabelece, naturalmente, quando falo sobre mim. Sobre o que habita em mim. Minhas angústias, meus pesadelos, meus afetos, minhas contradições. Preciso dessa sensibilidade extrema que só é possível quando exploro os sentidos. Preciso me sentir inteiramente viva em cada parágrafo. Preciso ficar perto de mim ao ponto de me ser sem rodeios. Preciso me ver precisa em cada frase. Pra aceitar o que possa existir em mim de mais inaceitável. E achar que é bonito só porque virou poema.

Prefiro falar daquilo que, timidamente, invade o meu coração antes de dormir. Gosto mesmo é do amor, cheio de avessos, todo (in)verso, todo estranho e curiosamente impactante. O amor e tudo o que ele faz com a gente, mesmo se declarando tão imperfeito. Gosto dessas imperfeições. Gosto dessas assimetrias que quebram as regras. Gosto dessa polaridade que distingue tudo e faz com que tudo nos pareça sempre diferente.

É bom ter algum sentimento pra mudar o foco, o ponto de vista, o motivo. É bom ter sempre um motivo bonito e gostoso pra estar aqui: justamente, o amor. Aquele que nos faz percorrer caminhos novos, inexistentes nos mapas conhecidos, e confere à vida um sentido novo, impossível de ser explicado àqueles que não amam loucamente. Aquele que dispara o coração, ocupa espaço nos nossos dias, na nossa casa e nos nossos versos e, mesmo assim, torna tudo mais leve. Aquele que é leve e, ao mesmo tempo, denso, desafiando todas as leis dos intelectuais. Aquele que faz com que a gente se reconheça nos paradoxos e se assuma desconexo, de vez em quando. Nos faz perceber que nem sempre precisamos entender tudo e que nem tudo existe pra ser entendido, mas sim subentendido. Assim, a gente entende que subentender é arte. E que a melhor parte se esconde, invariavelmente, nas entrelinhas.

sábado, 28 de maio de 2011

Só com você - Silvia Prata (clipe oficial)

Aos meus leitores.

Como todo mundo sabe, a jornada musical não é fácil. Pra conseguirmos alcançar nossos sonhos, é preciso força, coragem, perseverança, dedicação e parcerias.

Recentemente, contei com o apoio da Detalhes Filmes na produção de um clipe para a música Só com você, uma das faixas do meu CD. O vídeo foi gravado na Pampulha e na Serra da Piedade (Belo Horizonte) e depois recebeu os toques finais de edição da talentosa equipe da Detalhes.

A alegria de ter um trabalho como esse em mãos é enorme. Gostaria de compartilhar esse clipe e essa felicidade com vocês. Espero que todos gostem, compartilhem com outros amigos e me ajudem nessa "corrente". Divulgação é realmente muito importante pra mim.



Só com você - Silvia Prata
Álbum: de caneta hidrocor

Composição: Raphael Campos

Produção: Detalhes Filmes
http:///www.detalhesfilmes.com.br
Direção: Marcos Arrais
Fotografia: Marcello Marques

Participação: Carolina Antunes e Guilherme Henrique

segunda-feira, 16 de maio de 2011

PAIXÃO CRÔNICA


Eu ouvi: crônica é a narração de algo cotidiano e simples. Nada de extraordinário. Nada de surreal ou inimaginável. Os fatos e os atos vividos no tempo presente pelas pessoas presentes. Ou mesmo por aquelas que só existem no nosso imaginário.

Gostei.

Eu pensei: crônica é uma sucessão de casos e acasos que, aos olhos do mundo, não tem lá muita importância, mas que ganham nova dimensão quando contados pelo escritor.

Ah, o escritor! Aquele que só sabe amar e amar todo e qualquer signo verbal. Escritor é aquele que anexa as palavras à vida. Aquele que anexa a vida às palavras. Aquele que percebe que crases e vírgulas mudam toda uma história. Aquele que conta a história.

Esbarro em uma xícara de café e molho uma pilha de papéis importantes. Faço uma crônica. Encontro-me com uma professora antiga da época do pré, carinhosamente chamada, por mim, de “tia Ju”, e me emociono. Faço uma crônica. Ouço coisas estranhas sobre o número 7 e seus mistérios, em pleno horário de almoço. Faço uma crônica. Escuto alguém dizer sobre os gêneros textuais e encontro aquele que mais me agrada. Faço uma crônica. E (me) publico.

Eu deduzi: Fazer crônica é contar um caso respeitando a cronologia. É falar do mundo em alguns parágrafos. É falar do dia-a-dia sem cair no tédio. É parafrasear o tempo, de modo que tudo pareça mais bonito e interessante do que, de fato, é. A verdade é que a gente faz crônica o tempo todo, só que sem registrar.

Eu entendi: O poeta brinca com as palavras. Mas o cronista brinca é com o tempo. Faz e desfaz os feitos. Conta e encontra as falas. Transforma banalidades em inspiração e redimensiona a vida. Reinventa a sorte de ser quem somos em frases iniciadas ou não com travessão. E nos faz sentir sortudos só por isso: porque estamos vivos. Fazer crônica é distrair-se.

Eu inventei: cronista é alguém que tem paixão crônica pela linguagem e pela história. Pronto! Já me decidi: quero ser cronista. Quero ficar assim, verbalizando tudo o tempo todo. Enxergando belezas descritíveis nos detalhes mais indescritíveis. Fazendo com que miudezas sejam vistas em tamanho máximo. E contando com a matéria-prima mais inesgotável: a própria vida.

domingo, 8 de maio de 2011

AFINIDADE

Penso que o simples fato de você, leitor, entrar aqui e se identificar com o que escrevo já prova que a afinidade existe e une pessoas de infinitas maneiras. Sei que o Bate-Coração já me uniu à muita gente que, como eu, insiste em um ritmo acelerado, por vezes descompassado, pra viver a vida. Sei que o blog é um modo de me autoafirmar. De mostrar pra você, que lê (e pra mim mesma) quem eu sou e quem sonho em ser. Desse modo, "quem eu sou" tem se aproximado muito de "quem sonho em ser". É simples perceber isso: hoje sou lida por pessoas do Brasil inteiro que, de alguma forma, se emocionam com as minhas palavras. Uma dessas pessoas é Felipe Sakae, um ilustrador talentoso e criativo que transformou um texto meu em desenho. Sim, é possível misturar as artes, rabiscar os riscos, riscar os rabiscos... 


Sei que o texto já foi postado no dia 28/03/2011, mas meu coração diz que é mais que válido publicá-lo novamente agora, porque minhas palavras ganharam um sentido e uma amplitude maior. E isso também é afinidade.



* para ver a ilustração em tamanho maior, clique sobre ela.
** para ver mais trabalhos do ilustrador Felipe Sakae, clique aqui.


Nunca gostei de falar demais durante o horário de almoço e, por isso, estava calada, enquanto o restante “tagarelava”.

- Gosta do número 7?

Depois de alguns olhares confusos, percebi que a pergunta era pra mim.

- Como é?
- Gosta do número 7?

Não havia compreendido as razões daquela pergunta, mas já estava me acostumando com as perguntas imprevisíveis que surgiam à mesa durante nosso almoço, então, não me assustei. Procurei responder com a mesma imprevisibilidade. Consegui.

- Não. Não gosto de números ímpares.
- Deveria gostar.
- E por quê?
- Já reparou que o número 7 está por todos os lados?
- Hein?
- São 7 maravilhas do mundo, 7 cores no arco-íris, 7 pecados capitais, 7 dias na semana, em 7 dias Deus fez o mundo...

Confesso que fiquei em silêncio. Eles continuaram.

- São 7 as camadas eletrônicas de um átomo, 7 notas musicais, de 7 em 7 anos é contada a idade de um cachorro...

Todos, nesse momento, se calaram. Eu tinha olhos curiosos. Pensei em surpreendê-los.

- 7 vidas tem o gato, 7 anões tem na história da Branca de Neve e... Quando compro jornal, sempre vou direto ao jogo dos 7 erros.

Para a minha surpresa, ninguém ficou extremamente surpreso.

- Sabíamos que você era “das nossas”.

Só posso dizer que... No que depender de mim, nossa amizade estará guardada a 7 chaves.

terça-feira, 3 de maio de 2011

CERTOS DIAS



Tem certos dias em que a melhor coisa a se fazer é pendurar as obrigações no varal, deixar todos os papeis importantes na gaveta e abandonar a coleção de frases sérias. Nesses dias, é bom não programar o despertador e nem fazer anotações plausíveis na agenda. É ideal que sejamos acordados pelo sol da manhã batendo na janela e sendo ligeiramente inibido pelas cortinas em voal. Não é preciso pensar muito sobre a roupa mais apropriada e nem se deixar abater pelas regras a serem seguidas. Os cabelos podem ficar assim, desgrenhados. Os pensamentos podem ser assim, emaranhados. As horas podem se desenrolar como um novelo. O tempo não precisa de manual. Nem tudo precisa ocorrer em ordem determinada, terminada, minada, sem que nada reste de singelo no final. Nem que seja por um único dia, o resto pode ser o mais importante. Cada instante precisa se deixar sentir. Os sentimentos precisam transbordar sem pressa. O chocolate pode ser comido sem culpa. O descanso pode se prolongar sem medo. Os filmes precisam fazer a gente chorar. Dias assim têm que ter sabor de voo, gosto de ar, cheiro de brisa e cor de vento.

Dias assim têm que ser reticentes... Distraídos. Dispersos. Leves. Os verbos deixam de exigir muitos complementos e nada melhor que uma folha em branco pra se registrar.

Preciso de um dia assim.