domingo, 14 de agosto de 2011

MEU LADO COSMOPOLITA


Em tempos onde o que mais se busca é um pouco de paz, trato de fazer aqui uma confissão estranha: sou urbana.

Gosto da vida agitada, do som da cidade e das oportunidades que ela traz. Gosto do tumulto, da pressa e da sensação de dever cumprido ao chegar em casa. Gosto de saber que, por toda parte, há gente de todo o tipo. Gosto desse ritmo ofegante e barulhento. Admiro os prédios de altura aparentemente inatingível. Participo dessa velocidade, da engrenagem do mundo moderno. Sinto-me bem em estar cansada ao final do dia por saber que fiz tudo o que tinha pra ser feito. Acho bom acordar e perceber que a metrópole já se levantou faz tempo. É legal pensar que cada um de nós toma rumos diferentes, mas que todos são imprescindíveis para conferir à vida urbana o seu sentido vital: o movimento.

Bem sei que todos precisam de paz. E dela não abro mão. A paz é aquela que deve me tirar da rotina. Calma é o que se procura pra escapar do tumulto, fugir da multidão. Sei que isso é necessário. Mas, por fim, declaro: o meu dia-a-dia, a minha verdade e o meu sossego moram onde tudo acontece.

domingo, 7 de agosto de 2011

A MINHA SORTE


“Sorte é isto. 
Merecer e ter.” 
(João Guimarães Rosa)

Os calvinistas, quando inventaram a teoria da predestinação absoluta, erraram feio. Quando, na literatura realista, incorporaram o determinismo científico, também estavam redondamente enganados. Sou, de fato, adepta ao existencialismo de Sartre. Esse sim sabe o que diz.

Tudo bem. Chega de palavras que parecem não dizer nada. O que eu quero falar hoje é que nós somos inteiramente responsáveis pela nossa vida. Sei que não é fácil tomar conhecimento de uma verdade como essa, mas preciso esclarecer: cada um tem o que merece.

É inútil tentar justificar nossas frustrações usando as pedras que apareceram no caminho. Nossa trilha não está previamente traçada. Nossos destinos não estão escritos nas estrelas. A gente é que muda as estrelas de posição e escreve a nossa vida. Assim, sem borracha.

Não sair do lugar é como nunca passar a limpo. É uma covardia. É como passar horas tentando decorar um roteiro, preocupado pra que tudo seja perfeito, elaborando até as estratégias para solucionar pequenos deslizes e, na hora da encenação, esquecer as falas. É como elaborar uma história de amor das mais bonitas e não viver por medo. É como ensaiar um passo de dança e faltar à apresentação. É como ser um mero rascunho de si mesmo.

A minha sorte é ser o oposto disso tudo. É planejar os próximos dias e mudar toda a rotina, se for preciso, pra que os sonhos caminhem lado a lado com a realidade. É claro que às vezes invento. E acredito em ilusões que jamais serão verdades. Confesso também que nem sempre meus esforços me garantem o sucesso. Vez ou outra dá tudo errado. Mas, por sorte minha, na maior parte das vezes dá certo.

Não pense, no entanto, que essa sorte me veio como dádiva. Ser sortudo é algo muito trabalhoso, pode acreditar. Só quem luta pela sorte sabe o quanto é difícil. É que essa sorte que cai do céu não existe. Ou se existir, ainda não fui premiada. A única sorte que eu conheço é aquela que cai, gota a gota, do nosso suor de cada dia. Sortudos somos nós quando nossos méritos são reconhecidos. São merecidos. São recompensados. Sorte é ter sonho e realidade caminhando em pista dupla.

De uns tempos pra cá, a sensação de estar tão perto de desejos que, pra muitos, são inalcançáveis tem me feito muito bem. Não há nada melhor do que me sentir legitimamente merecedora de tudo o que tenho conquistado. E de todo o meu futuro, a melhor parte.

Concordo com quem diz que é bom acreditar que as adversidades que porventura aparecerem serão irrelevantes se comparadas à força da nossa vontade. No entanto, confiar na sorte, definitivamente, não é meu lema de vida. Nunca fui o tipo que “deixa rolar”. Não sou a favor dessa despretensão, dessa casualidade. Prefiro acreditar que a sorte sou eu e, dessa forma, confiar em mim. Prefiro entender os dias como oportunidades únicas de perseguir tudo o que acredito ser certo. Prefiro não impor limites àquilo que almejo. Sei que a própria vida se encarregará, em alguns momentos, de me mostrar até onde eu posso ir. E eu vou saber aceitar. Mas, por enquanto, prefiro seguir acreditando que o céu é o limite.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

AO LEITOR,

Com o crescimento do blog, a adesão de novos seguidores e a chegada de mensagens lindas no mural de recados, eu tenho buscado mais e mais maneiras de chegar perto de você, leitor. Esse texto é mais uma dessas maneiras.

SOBRE AS REDES SOCIAIS: Os ícones que eu coloquei na parte do perfil vão direcionar você ao meu orkut, twitter, myspace, flickr e youtube. Muita gente tem me procurado nas redes pra me conhecer, se aproximar, falar comigo. E eu fico imensamente feliz em ser procurada por quem me lê. Digo isso porque sei que existe uma sintonia, uma afinidade, uma energia, uma vibração (ou chame do que quiser) diferente que me liga àqueles que se identificam com o que escrevo. Digo isso porque minhas palavras podem não ser um reflexo direto da minha vida pessoal, mas elas refletem a minha maneira de ver o mundo. Se você se identifica, é porque somos afins. É isso que te faz vir aqui em busca das minhas palavras. Por isso, fique à vontade. Adicione meu perfil no orkut, se quiser. Siga meu twitter, porque lá eu falo dos meus shows aqui em Minas Gerais, coloco frases minhas e falo minhas ladainhas também. O myspace, o flickr e o youtube são dedicados à minha carreira como cantora. Então, se você quiser se envolver com COM MINHAS LETRAS E CANÇÕES, visite também esses redes, onde existem diversos clipes, fotos de shows e músicas do meu CD. Penso que as artes caminham todas juntas. Então, como diz uma canção do Teatro Mágico (uma banda que eu admiro enormemente), “tem horas que a gente se pergunta por que é que não se junta tudo numa coisa só”...

SOBRE OS CORAÇÕES QUE BATEM POR AQUI: Se você acompanha com frequência os textos aqui no blog, eu te convido a tornar-se um seguidor. O que isso significa? Sendo seguidor, você receberá, por e-mail, uma notificação a cada novo texto que eu publicar. Para seguir, você deve clicar em PARTICIPAR DESTE SITE, na parte do perfil. Dessa forma, você se juntará aos outros 352 membros que acreditam que aqui o coração bate sempre mais forte.

SOBRE O MURAL DE RECADOS: Cada palavra que você escreve aqui, pra mim, tem um valor imenso. Eu leio os comentários e fico pensando no quanto é fascinante poder mexer com os sentimentos de pessoas que moram em Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Fortaleza, Porto Alegre, do outro lado do país ou até de outros hemisférios (sim, é verdade). É enorme a lista de cidades brasileiras em que moram leitores do Bate-Coração. Pra minha alegria, o blog tem sido visitado por pessoas diferentes que procuram a mesma coisa: emoção. Pessoas que buscam nas palavras o que tem faltado no dia-a-dia apressado da gente: poesia. E eu sei que essas pessoas têm encontrado o que procuram, porque elas voltam depois. E tornam-se meus leitores. Assíduos, frequentes, carinhosos, receptivos. A todos que me deixam mensagens lindas aqui no blog, MUITO OBRIGADA. Não continuaria escrevendo se não recebesse essa resposta, esse respaldo, essa emoção.

SOBRE AS BATIDAS PASSADAS: Um dia, em meados de 2005, tive medo de chuva forte e imprimi, no branco dessa página, a minha falta de rumo. Falava de mim como se fosse fácil, e era. Dei minha cara a tapa. Usei meu próprio nome. Não inventei personagens. Não rebusquei minha grafia torta nem fiz questão de não me mostrar. Eu era uma menina que combinava e recombinava palavras pra disfarçar alguma solidão. No fundo, a história não mudou muito de lá pra cá. Sou apenas um pouco menos menina. Com o meu amadurecimento, confesso que minha linguagem também não é exatamente a mesma. Acredito que tenha mudado pra melhor. Deixei de lado alguns velhos costumes, corrigi alguns erros, amadureci. Não que já não me falte nada. Pelo contrário. Acho que falta um caminho inteiro pra trilhar. É só o começo.

SOBRE A DIVULGAÇÃO: Como todo mundo sabe, a vida de artista não é fácil. Pelo menos, não o começo dela. O começo é difícil, árduo, trabalhoso. Pra conseguirmos alcançar nossos sonhos, é preciso força, coragem, perseverança, dedicação e parcerias. Se você gosta do Bate-Coração, ajude a promover as minhas ideias. Divulgue. Na parte do perfil, tem um botão que permite que você compartilhe o link do blog com seus amigos do facebook ou com seus seguidores do twitter. E mais: ao final de cada texto, tem alguns ícones de redes sociais. Clicando neles, você estará me ajudando a levar o Bate-Coração para mais e mais cantos do Brasil. E eu serei muito grata.

Registro o modo com que encaro os sentimentos: os meus, os seus, os nossos, os sentimentos do mundo. Registro porque preciso mostrar. Preciso expor. E preciso MUITO que você leia, concorde, discorde, discuta, questione, elogie, diga que ficou bonito.

Se quiser falar comigo, envie um e-mail para silvia@silviaprata.com.br

Meu coração estará sempre pronto pra te ouvir.


segunda-feira, 18 de julho de 2011

O QUE RESUME A NOSSA VIDA


Nós andamos com falta: de tempo, de espaço, de amigos, de risos, de momentos inteiros, de sentimentos de verdade, de olho no olho e de amor.

O trecho que você acabou de ler tem 140 caracteres, contados. É claro que sentimos falta de uma porção de outras coisas, mas precisei resumir, sintetizar, enxugar, reduzir, minimizar... as minhas palavras. Assim como tenho feito com a vida. É.

Viver já foi bem mais tranquilo, desapressado, sossegado e calmo. O dia a dia já exigiu bem menos de nós. A vida já foi bem mais leve, eu sei. A balança registra:

Nossas preocupações nos prendem. Nosso sedentarismo nos engorda. Nossa excentricidade nos engole. Nosso mundinho virtual nos engana. Nossa pressa nos faz esquecer o essencial. Nossos valores moderninhos rompem com toda a nossa crença no amor e suas mais diversas vertentes. A correnteza não nos deixa remar contra a maré. O relógio nos aprisiona nos sessenta segundos do minuto, nos sessenta minutos da hora, nas vinte e quatro horas do dia, nos trezentos e sessenta e cinco dias do ano e por aí vai.

Vivemos contando. Estamos em contagem regressiva. Ficamos presos no tempo cronológico que dita todas as regras. Calamos nosso “relógio biológico”. Sobrevivemos de números que falam por nós. Número de tatuagens, número de ex-namorados, número do modelo do celular, número da memória do computador, número de seguidores no twitter, número da conta bancária, número do ano do carro, número de beijos em uma noite... Desenvolvemos essa mania estranha de numerar tudo pra facilitar o entendimento das coisas mais simples. Estabelecemos nossas metas sempre em colocações e quantidades. Aí me lembro daquela velha música dos Engenheiros do Hawaii: “E eu? O que faço com esses números?”

Com essa nossa mania de contar os números, nos esquecemos de contar histórias. Resumimos nossas vidas às vidas que se resumem em nós. Sintetizamos nossos sentimentos mais extensos, que se estenderiam em longas conversas, nos 140 caracteres permitidos. Não, não sou boa com essas coisas. Acho difícil demais me reduzir. Acho que existe muito mais em mim do que esses dígitos contados me deixam dizer. E mais: acho que existem muito mais frações de segundos que valem por uma vida inteira do que relógios são capazes de marcar. Repito: não sou boa com esses números.

Na pressa que anda a nossa vida, declarar-se virou algo que exige tempo, desprendimento e preparação. Estamos acomodados com essa situação: amamos e esperamos que o outro desconfie, perceba, entenda. Acho um absurdo ver que as palavras mais bonitas estão ficando sempre subentendidas, como se fossem evidentes demais. Mas nem sempre são. Amor, hoje em dia, não é lá coisa tão óbvia, ainda que nos consideremos amantes com tanta facilidade. É que amar com todas as letras não é tarefa fácil...

Gosto mesmo é de contar meus casos. De ser reticente. De me desencontrar no tempo. Esquecer a hora. Perder as contas. Prefiro me confundir na divisão a ser sempre exata. Não quero ter resultados na ponta da língua. Gosto mais do resto que do quociente. É no resto que ficou a melhor parte da vida, pode acreditar: aquilo que sobrou de nós...

Por essas e outras razões, insisto na vida de verdade. Não que eu seja um exemplo de desapego, despreocupação e leveza. Não que eu seja zen. Não que eu pratique ioga ou tenha milhões de rituais estranhos. Mas eu acredito nos sentimentos mais bonitos e mais simples. E espero por eles como uma criança espera pelo doce. No fundo, essa comparação se aplica muito bem: os momentos inteiros são mesmo os mais doces.

Então, como dizia Caio Fernando Abreu...

“Que seja doce!”


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ps: Se você ficou curioso quando eu falei sobre a música dos Engenheiros do Hawaii, mate essa curiosidade aqui. Vai valer a pena.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

MUDE-SE


Feliz mesmo é quem consegue se reinventar mesmo percorrendo os mesmos cômodos, sustentando a mesma rotina, enxergando as mesmas cores, visitando os mesmos amigos, indo aos mesmos lugares.

Bom mesmo é comprar o objeto novo de decoração ou mudar os objetos de lugar e já chegar à conclusão de que tudo parece mais bonito e moderno. É enxergar novidade nos pequenos detalhes que diferenciam a segunda-feira da terça-feira. É perceber que essas minúcias transformam dias em datas e fazem com que elas não sejam apenas conjuntos em um calendário velho. É entender que cada cor hospeda um amontoado inesgotável de tons que, sobrepostos, nos trazem novamente à folha em branco, capaz de nos transportar a toda parte do universo. É ir aos mesmos lugares procurando, vez ou outra, por um caminho diferente. Toda vida precisa de alguma inovação. 

A gente precisa de variação: na cor do cabelo, no tamanho do salto, na cor das unhas, no quadro da parede da sala, no livro de cabeceira. De alguma forma, a precisamos viajar, mesmo que dentro de nós. E tenha certeza: não há viagem mais infinita do que aquela que a gente faz sem sair do lugar.

Transcender é necessário. 

quinta-feira, 7 de julho de 2011

POR FAVOR, ENTENDA...


Hoje, durante o horário de almoço, confesso que me perdi no tempo por alguns instantes. Isso não é lá muito anormal. Preciso admitir: fico constante desconectada do universo real e totalmente entregue aos planos, desejos, sonhos, vontades, apreços. Não nego minha mania de sonhar. Assumo.

De repente, meus pensamentos silenciosos foram interrompidos por alguém dizendo:

- Como você é estranha! Mas a gente gosta do seu jeito, assim mesmo, viu?

Fiquei pensando... É estranho ser vista sempre pelo mesmo ângulo. É estranho ser sempre analisada pelos mesmos olhos que insistem em acreditar que é desconexo se desconectar. É estranho ter um universo tão a parte em que os outros não conseguem, de maneira alguma, penetrar. É estranho.

Continuei pensando... Tomara, tomara mesmo, que num dia qualquer de primavera, verão, outono ou inverno, cruze o meu caminho alguém que consiga me enxergar como ninguém nunca pôde. Alguém que não se espante quando eu falar dos meus sonhos, que não se assuste quando eu contar meus medos, que não desvie o olhar quando eu falar com meus olhos e que caiba, por fim, nos meus abraços.

Se eu pudesse fazer um pedido, seria esse: “Quando eu soltar a minha voz, por favor, entenda...”

sexta-feira, 1 de julho de 2011

PASSIONAL


O que penso, falo. De repente, vez ou outra e por acaso, falo também o que não penso. Depois, me retifico ou tento.

O que sinto, digo sem muitas erudições. Proibido é dizer sem sentir ou sentir sem dizer. Tenho o coração na ponta da língua.

O que não aceito, reivindico. O que não gosto, reinvento. O que amo, reviro e revivo: peço mais.

O que faz bem aos ouvidos, deixo tocar até ensurdecer. As palavras doces, finjo que não entendo e peço pra repetir. Palavra bonita eu anoto.

O que penso ser verdade, grito. O que penso ser suave, sussurro. Sussurro...

Do que é mais doído, me lembro até o fim da memória.

Bem gosto de expor meus exageros. É bom me parecer comigo.

Espio as miragens e, com elas, pauso a vida por alguns segundos.

O que me surpreende é o que me faz feliz. O que emociona tem sempre o gosto da primeira vez. Gosto desse gosto. Surpresa é doce.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

PARA FLÁVIA.

Há pessoas das quais a gente gosta sem precisar conhecer a fundo. Gosta porque gosta. Gosta do nome, da risada, do jeito de falar. E quando essa afinidade existe, não é preciso muito tempo pra gente notar. Nesses casos, uma conversa mais longa só serve pra constatar algo que já existia desde o início. Que já estava dentro do coração, onde é mais importante que esteja. Afinidade não é, necessariamente, ser muito parecido. Acho até que afinidade está diretamente relacionada com admiração. Foi assim com a Flávia.

Ontem ela me disse tanta coisa sobre a vida, a família, a profissão, o amor! Fiquei pensando. Não consegui falar muito, embora tivesse muita coisa pra dizer. Guardei pra quando fosse escrever. Incrível como tudo fica mais bonito quando eu registro.

Ela me disse sobre como seu mundinho era pequeno antes de conhecer a poesia. Falou também sobre como decidiu ser professora. Sobre o modo estranho e curioso com que conheceu o namorado. Sobre as delícias e amarguras de ser uma professora de literatura. Sobre os sonhos de menina, concretizados ou não. Sobre os melhores livros. Sobre os contos da Lygia Fagundes Telles, especialmente os que estão no livro “Antes do baile verde” que, por sinal, a Flávia me emprestou. Sobre o que vale e o que não vale a pena. Falamos um pouco de tudo naquela manhã. No final, ela me agradeceu por tê-la ouvido. E eu fiquei feliz por ter visto tanta coisa bonita em uma pessoa.

A Flávia nasceu em uma cidade que eu não conheço. Veio morar em Belo Horizonte pra cursar Letras na UFMG. Assim decidira quando, no Ensino Médio, teve uma professora de Literatura com sobrenome idêntico ao seu que lhe mostrou um poema do Manuel Bandeira. Ela me disse que nesse dia, mais precisamente depois de ter lido esse poema, sua vida mudou. Acho que deve ter sido encontro. Não meramente com a poesia, mas consigo mesma. Ou com tudo o que ela sonhava em ser na vida. E foi.

Confesso que senti um aperto no coração quando ela me disse sobre como era triste estar de frente a uma turma numerosa e não ser ouvida por ninguém. É muito difícil encontrar alguém que saiba ler poesia nos dias de hoje. Ela me disse que, nessas horas, costuma relembrar o conto da linha e da agulha, que foi escrito pelo Machado de Assis. O conto se chama “Um Apólogo”. Se não me falha a interpretação, é um conto triste. Mas serve perfeitamente pra que a gente pare pra pensar, quando é preciso. E pensar, mesmo que o pensamento e a reflexão nos levem à tristeza, é preciso. E muito precioso.

A Flávia disse que às vezes sente um vazio. Não falei nada nesse momento, mas pensei: também sou assim. Acho que, no fundo, todo mundo é. A Clarice Lispector, que inspira tanto a mim quanto à Flávia, disse que “todo mundo é um pouco triste e um pouco só”. É verdade. Solidão é sentir que aquilo que a gente faz com o maior amor do mundo significa muito pouco para alguém. É quando a gente questiona o que, afinal, estamos fazendo aqui no mundo. E qual o nosso papel. É triste demais questionar algo assim. Mas quem nunca o fez? Solidão é também sentir que a gente fala e fala e fala e parece que nossas palavras estão sendo ditas em outro idioma, totalmente desconhecido e indecifrável para a maior parte das pessoas. A gente sente solidão quando os detalhes da nossa vida perdem o sentido. Quando as nossas sutilezas, nosso íntimo e nosso interior não são notados. Quando a poesia que grita nos nossos olhos parece impossível de ser interpretada. Quando comunicar-se fica inviável. Aí, nesse parte da história, passamos a preferir o silêncio. Isso acontece comigo. E é ruim preferir se calar. Mas, às vezes, prefiro.

Achei bonito quando ela me falou sobre o seu Hernane. Sobre os tantos livros que ela lê em voz alta enquanto ele, deitado em seu colo, aprende a gostar das palavras como gosta dela. Sobre o amor deles, que é esquisito e fora do padrão. Sobre a história deles, que é curiosa e, ao mesmo tempo, muito romântica. Sobre eles, que parecem ser tão parecidos nessas peculiaridades. Caio Fernando Abreu, que também nos inspira muito, dizia que “num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra”. Hernane e Flávia se reconheceram. Conhecer e reconhecer um amor assim, no meio desses (des)amores todos, é alegria de poucos.

Minha admiração foi enorme quando ela contou sobre as dificuldades que enfrentou pra realizar seus sonhos e chegar aonde chegou. Disse que tem medo de cair na mediocridade, de ser comum, mediana, mais ou menos, só mais uma. Eu não disse muita coisa nesse momento. Se não me engano, tentei convencê-la de que isso jamais aconteceria, porque ela fazia o que amava. E todo mundo que faz algo com e por amor não corre o risco de parecer medíocre. Amor e mediocridade são coisas que não se aliam. É por isso que a Flávia ensina tão mais do que a língua portuguesa exige. Porque existe amor.

Queria dizer que... Hoje, uso as crases com muito mais facilidade. E que sei exatamente a diferença entre os gêneros épico, lírico e dramático. E que aprendi quase que inteiramente as Novas Regras Ortográficas. Sei que ditongos abertos não são mais acentuados. Sei que a Semana de Arte Moderna, em 1922, revolucionou a literatura brasileira. Sei que é preciso muita imaginação pra interpretar um poema concreto. Sei também que existem sujeitos dos mais diversos e que às vezes é chatíssimo classificá-los. Mas nada disso é o principal.

O principal é olhar a Flávia e ver nela uma parte do que eu quero ser. É ver uma menina cheia de sonhos que enfrentou coisas muito difíceis pra se tornar mulher. E que é digna de toda a minha admiração.


Flávia, quando for falar de português, literatura, ou mesmo de você, sempre estarei escutando...

sexta-feira, 17 de junho de 2011

GOIABADA COM QUEIJO



Cada geração traz consigo um amontoado de jeitos e trejeitos típicos. O tempo passa e tudo se renova. Os novos mocinhos fazem do mundo o cenário para suas ambições, seus modismos e sua vida moderninha. Até os sentimentos se confundem nessa dança estranha que leva embora tudo o que já foi. Nesse contexto, o amor também já mudou de face.

Houve uma época em que amor tinha gosto de goiabada com queijo. Amor se resumia em música romântica tocando no rádio, em cartas que sussurravam palavras bonitas e na emoção da tão esperada dança de rosto colado. Amor era beijinho doce, abraço apertado, suspiro dobrado e... Não, eu infelizmente não sou dessa época.

O mundo, de tanto girar, fez com que os conceitos se invertessem e os velhos costumes fossem deixados de lado. A geração mais cool do momento derrama seus sentimentos sintéticos e efêmeros em páginas da internet e se aventura em romances rápidos e polêmicos. As declarações dos enamorados são altamente parecidas, o que nos leva a crer que o amor de hoje já não é um sentimento inigualável, imensurável, mágico, encantador. Pelo contrário: é algo comum, sentido por todos exatamente da mesma maneira. Afinal, o que todos querem? Amor eterno, infinito, verdadeiro, forever e outras variações.

Vou mudar um pouco. Chega dessa ideia de amor infinito. Quero amor infinitivo. Sem maiores complicações. Sem muitos complementos. Sem essas declarações públicas de afetos tão pouco duradouros. Sem esse sentimento escancarado, dilatado e sem mistérios. Não. Eu quero o mistério. Quero essa dança lenta em que se desvenda o que se sente, pouco a pouco. Isso é bonito. Não quero um amor do dia pra noite que é eterno durante uma semana. Cansei dos sentimentos de veneta. Quero um amor simplesinho que divida, com linha tênue, o outro de mim.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

EU E OS LIRISMOS

Queria soltar uma nota curta e indignada sobre a última bomba noticiada pelo telejornal. Ou falar sobre o calor insuportável que anda perturbando nosso equilíbrio e suas possíveis causas. Ou fazer uma dissertação sobre a dengue e as constantes epidemias, sobre o mercado de trabalho, sobre a burocracia. Queria conseguir falar aqui sobre a minha visão política, o que penso sobre economia, como driblar a inflação ou como manter um casamento estável. Queria dar dez dicas infalíveis para. Para qualquer coisa que seja de interesse comum. Ou montar um texto inteiramente denotativo, que denote alguma sensatez.

Não. Não dá. Há tanta poesia em mim, que me perco completamente ao ver-me envolvida em análises, teorias, temas banais. Nas ideias práticas, sinto o peso da limitação e me sufoco. Não sei me conter nos significados reais das palavras todas. Sinto uma falta tremenda de inventar. Os fatos se esgotam, ao contrário das emoções. Sempre haverá mais alguma coisa que se sinta e que seja passível de ser transformada em versos.

Eu gosto mesmo é do inesperado. Do invisível. Do sentimento. Prefiro contar as exceções. Falar do inacabado, e tentar acabar. Falar daquilo que é meio tortinho ao invés de insistir em relatar aquilo que é perfeitamente normal e aceitável. Tenho urgência dessa intimidade que se estabelece, naturalmente, quando falo sobre mim. Sobre o que habita em mim. Minhas angústias, meus pesadelos, meus afetos, minhas contradições. Preciso dessa sensibilidade extrema que só é possível quando exploro os sentidos. Preciso me sentir inteiramente viva em cada parágrafo. Preciso ficar perto de mim ao ponto de me ser sem rodeios. Preciso me ver precisa em cada frase. Pra aceitar o que possa existir em mim de mais inaceitável. E achar que é bonito só porque virou poema.

Prefiro falar daquilo que, timidamente, invade o meu coração antes de dormir. Gosto mesmo é do amor, cheio de avessos, todo (in)verso, todo estranho e curiosamente impactante. O amor e tudo o que ele faz com a gente, mesmo se declarando tão imperfeito. Gosto dessas imperfeições. Gosto dessas assimetrias que quebram as regras. Gosto dessa polaridade que distingue tudo e faz com que tudo nos pareça sempre diferente.

É bom ter algum sentimento pra mudar o foco, o ponto de vista, o motivo. É bom ter sempre um motivo bonito e gostoso pra estar aqui: justamente, o amor. Aquele que nos faz percorrer caminhos novos, inexistentes nos mapas conhecidos, e confere à vida um sentido novo, impossível de ser explicado àqueles que não amam loucamente. Aquele que dispara o coração, ocupa espaço nos nossos dias, na nossa casa e nos nossos versos e, mesmo assim, torna tudo mais leve. Aquele que é leve e, ao mesmo tempo, denso, desafiando todas as leis dos intelectuais. Aquele que faz com que a gente se reconheça nos paradoxos e se assuma desconexo, de vez em quando. Nos faz perceber que nem sempre precisamos entender tudo e que nem tudo existe pra ser entendido, mas sim subentendido. Assim, a gente entende que subentender é arte. E que a melhor parte se esconde, invariavelmente, nas entrelinhas.