terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

SIMPLESMENTE

“Minha alma tem o peso da luz.”
Clarice Lispector


Tenho me sentido leve. As amarras, os velhos amores desastrados e as tantas exigências que eu impunha a mim mesma parecem ter voado em um balão de hélio sem destino e sem volta. O que eu sinto agora paira no ar. Quantos sentimentos, pressentimentos e ressentimentos já não moram em mim! Ainda quero me livrar de alguns pesares e de alguns pudores. E espero passar longe das palavras difíceis demais.

Eu, que sempre me considerei tão densa, tenho me achado diluída, dilatada. E, nesse momento, até me permito ser um pouco frágil, mimada e dengosa. Deixei na gaveta alguns pré-requisitos e pretensões. Mas pendurei na estante meus desejos mais sutis. O calendário inteiro passou a me seduzir. Quero o amanhã. Mas eu o quero sem a pressa desmedida de antes. Os dias me chamam. E eu simplesmente vou.  

sábado, 28 de janeiro de 2012

AMOR E OUTROS EQUÍVOCOS - meu primeiro livro!



Houve uma época em que eu quis ter a sílaba redonda, a letra redonda, o coração redondo. Queria ter uma história certa pra contar. Queria uma coleção de certezas pra calar os medos. Queria terra firme e chão seguro.

No decorrer do tempo, encontrei e perdi o caminho certo por diversas vezes. Mais tarde, percebi que a perda de mim mesma podia ser um grande encontro. E me reinventei. Hoje sigo amando e, naturalmente, me equivocando. E sendo poeta pra dissecar os próprios amores e os equívocos que ele traz.

Quero o mais doce e o mais azedo dos sentimentos. Quero tudo o que existe entre doce e azedo. Quero ser coletânea. Minha matéria-prima é o amor, o maior de todos os sonhos e o mais doce dos enganos.

Em AMOR E OUTROS EQUÍVOCOS, prometo tirar da gaveta tudo o que é passível de ser sentido. Estou entre o sonho e a realidade, nas peculiaridades que existem entre o lirismo e a lucidez. Estou aqui pra falar do sentimento de um mundo inteiro que pede pra ser transformado em palavras. Essa descrição é inesgotável e não se encerra na última página. É o amor que não se encerra. E por quê? Porque ele continua por aqui e por aí, nos equivocando.


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Leitores queridos do Bate-Coração, AMOR E OUTROS EQUÍVOCOS é o título do meu primeiro livro, que será lançado muito em breve. Dedico essa conquista a todos os olhos que passam por aqui em busca das minhas palavras desde 2005, quando o blog nasceu. Agora minha prosa estará no papel. E é com muita alegria que trago essa notícia. Aguardem!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

TRANSIÇÃO

Não se abraça caminhos novos sem deixar rotas antigas para trás. Nunca foi possível encher a mochila de sonhos sem antes deixar a alma livre. Há escolhas na vida que nos custam caro.

Mas eu escolhi. Em meio a tantas opções irresistíveis e momentaneamente atraentes, eu decidi que percorreria o caminho mais árduo. Masoquismo? Não. O fato é que são justamente as trilhas cheias de pedras que nos levam ao jardim mais amplo.

Por sorte, eu consegui. A jornada foi longa e com poucas pausas. O dia começava muito cedo e não tinha hora pra terminar. Os olhos, por vezes embaçados, percorriam linhas sem entrelinhas. Quase não havia poema. A minha janela esteve fechada. Não vi flores e nem borboletas. Perdi as quatro estações. Mas ganhei um futuro que tem cheiro de pólen e gosto de néctar, o que é muito melhor.


Sei que os próximos dias serão de primavera aqui dentro de mim. Há muitas flores querendo se abrir. E tudo está pronto: o sol brilha, há verde por toda parte e parece que as pedras finalmente ficaram para trás. Até meus sentidos estão mais aflorados. E eu também estou pronta.

sábado, 21 de janeiro de 2012

DE VOLTA



Durante alguns dias, meu tal “eu lírico” esteve confinado. Mudo, distraído, banal. Tive medo de ter o coração atrofiado, confesso. Tive medo de perder os trocadilhos e a inspiração. Mas hoje é uma manhã de sábado ensolarada. A poesia finalmente despertou. E eu estou novamente subordinada à oração.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

DE PORCELANA


Eu queria dizer que há em mim um coração mole e dengoso. Sou, no fundo, frágil. Sou delicada, sou menininha. Nem sempre sou a pessoa que pareço ser. Mas acho que é assim mesmo: ninguém é, de fato, o que parece ser. Não o tempo todo.

Ainda que eu tente parecer inabalável, habita em mim um sentimento que rasga. Que grita. Sim, sentimentos costumam ser violentos. Às vezes, finjo não me importar com quase nada, só pra que se importem comigo. Mantenho sigilo sobre parte do que sinto até não suportar mais meu próprio segredo. Às vezes guardo um verso ou outro só pra mim. Nem sempre me publico. Às vezes esbarro nos meus poemas. Quase sempre estou assim, entre uma linha e outra. Fica sendo esse o meu esconderijo: a entrelinha.

Apesar de me esconder nos dias nublados, me exponho ao que me ilumina sem muita precaução. Apesar da fragilidade que, de fato, incide, permaneço amando com toda força que há em mim. Apesar das entrelinhas que guardam segredos meus, minhas palavras são simples. Eu quero mesmo é que você me entenda. É difícil?

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

DESEJOS


Que a vida continue me causando espanto, medo, surpresa e prazer. Que o injusto continue me indignando, e que a indignação continue me movendo em busca daquilo que acredito ser certo. Que o meu olhar se mantenha aceso. Que eu continue tendo efêmeras vontades de desistir, porque sou humana, mas que a fé me mova sempre até o fim. Que o caminho árduo nunca me faça ser tentada pelos falsos atalhos. Que, de um jeito ou de outro, a gente consiga viajar: no mapa, nos livros, nos sonhos ou no amor, que é o maior de todos os sonhos. Que sonhar não se torne, em hipótese alguma, tolice. E o melhor: que nenhum sonho jamais seja proibido. Que os planos saiam do papel e nos surpreendam por serem ainda mais bonitos do que pareciam ser quando ocupavam espaço apenas dentro de nós. Que a falta de tempo nunca nos impeça de embrulhar os presentes com papel celofane ou fita de cetim. Que os papeis de carta saiam da gaveta e ganhem letras, redondas ou tortas, que façam sentido quando combinadas pelo coração. Que o encontro nunca deixe de ser a opção mais viável. Que o maior confronto nunca deixe de ser o olho no olho. Que o amor seja finalmente eleito como o caminho mais curto para a real felicidade. Que os dias cinzentos sejam transformados em primavera. Que a gente caiba milimetricamente em um abraço, e que ele nos sirva de esconderijo quando o que está lá fora parecer perigoso demais. Que olhar pra trás jamais nos envergonhe. Que o amor de cinema continue sendo, no fundo, o sonho de cada um. Que declarações sejam feitas sem rodeios. Que as verdades sejam ditas. E que a vida esteja cada vez mais perto da poesia, até que vida e poesia sejam, por fim, inseparáveis. Amém.


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Esse texto foi escrito no final de 2010. Motivada pela repercussão que esses desejos todos me trouxeram, decidi publicar novamente agora, que estamos virando a página de 2011. No fundo, os desejos são os mesmos, não é verdade? Continuamos lutando pelo que acreditamos. E rabiscando nossos planos em agendas. E esperando do próximo ano o que há de melhor. 

Talvez as metas tenham mudado. E até acredito que os caminhos da nossa vida já não sejam os mesmos. Afinal, 365 dias podem sim desviar completamente uma rota. Mas enquanto sonharmos com justiça, esperança, alegria, declaração, poesia e amor... Certamente essas palavras ainda serão capazes de desejar um feliz ano novo.

Palavras não ficam velhas... Então, que 2012 seja doce! Agradeço a todos que acompanharam cada palavra escrita aqui. Aos que vieram de passagem. Aos que seguiram. Aos que deixaram falar a voz do coração na caixa de mensagens. Aos que divulgaram o blog. Aos que nunca se manifestaram, mas leram com carinho cada texto. Enfim, a todos os olhos que percorreram o Bate-Coração. Prometo uma presença ainda maior em 2012. E espero por vocês...

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

ASSIM COMO EDUARDO E MÔNICA


“Quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?”

Lembra daquele amor tão pouco plausível entre Eduardo e Mônica, perfeitamente descrito na música do Renato Russo? Lembra daquele sentimento que pairava no ar sem nenhuma sustentação? Acho que conheço uma história parecida, basta que se invertam os gêneros. Imagine um Eduardo que é como a Mônica de Eduardo e Mônica. Agora pense em uma Mônica que não tem absolutamente nada a ver com a Mônica de Eduardo e Mônica, mas sim com o Eduardo. Entendeu? O fato é que o Eduardo e a Mônica da minha história, assim como o Eduardo e a Mônica de Renato Russo, não tem nada a ver um com o outro. Eu vou te contar.

O Eduardo usa camisetas de bandas de rock, conhece uma porção de músicas cult que apenas 1% da população escuta e, como se não bastasse, ainda toca contrabaixo. Enquanto isso, a Mônica canta alegremente as músicas do Luan Santana que tocam na Liberdade FM e não desliga o rádio enquanto não acaba o refrão.

O Eduardo sabe tudo sobre química, assiste ao National Geographic e é capaz de recitar a história do Brasil, mesmo que lhe peguem desprevenido. A Mônica tem cara de líder de “clube da luluzinha”. Ela compra, mensalmente, a revista Capricho e vive atenta às últimas tendências da moda e às cores da estação.

O Eduardo fala inglês fluentemente e, se bobear, até arrisca em italiano. A Mônica confunde ditongos com hiatos e não faz a menor ideia do que seja um agente da passiva. Ele acreditava na teoria da relatividade; ela, no horóscopo do jornal. 

Ele prestaria Biomedicina no final do ano, moraria em uma república com outros mil amigos, entenderia tudo sobre as moléculas orgânicas e inorgânicas e seria feliz assim. Enquanto isso, ela dizia pretender cursar Arquitetura ou Engenharia Civil. Só não sabia, de fato, a diferença entre os dois. Mas ela não seria menos feliz por isso.

Os amigos dele falavam coisas sobre a física moderna e a estequiometria. Juntos, discutiam a política, a politicagem e a politização. Pra ela, tudo era, no fundo, a mesma coisa. No auge das discussões sobre a desigualdade que assola a sociedade brasileira, ela soltava um comentário de três linhas sobre a nova novela das sete. E ninguém dizia mais nada.

“E mesmo com tudo diferente, veio mesmo, de repente
Uma vontade de se ver
E os dois se encontravam todo dia
E a vontade crescia, como tinha de ser”

E mesmo que Eduardo fosse água e Mônica fosse vinho, surgiu entre eles um amor bobinho feito flor que brota em asfalto quente e seco da avenida principal. O amor deles era flor de primavera com cheiro de pólen fora do jardim. Era feito amor de verão, nos trezentos e sessenta e cinco dias do ano.

Ela enrolava os dedos nos cabelos lisos e loiros com olhos de pureza e malícia, ao mesmo tempo. E ele encarava os olhos dela, como se, pra cada segundo, pudesse fazer uma poesia. O amor deles era assim, subjetivo como as tantas figuras de linguagem que a Mônica não sabia como diferenciar. Era metonímia. Era soneto sem rima, drama sem falas, frase sem pontuação. 

“E todo mundo diz que ele completa ela
E vice-versa, que nem feijão com arroz”

E assim eu me pergunto quem é, de fato, feliz nesse mundo: quem rima ou quem perde a razão?

“E quem irá dizer
Que não existe razão?”


terça-feira, 29 de novembro de 2011

ALÉM DAS EVIDÊNCIAS




Não se deixe enganar por esses olhos claros que parecem lhe dizer. Tenho sim um lado Capitu. Enxergue, além das páginas, o que esses olhos realmente dizem. Tenho sim um lado felino. Algumas garras. Alguns poemas. Dezenas de sonhos e canções. E sete vidas.

Pra tentar compreender esses números é que escrevo. Porque minha vida é adimensional. Tenho um modo de contar que ninguém entende, mas não perco nem a conta, nem o canto e nem o conto. Engato a rima. Depois, me prendo ao desejo indomável que existe dentro de mim. Falo sem pausar porque há muito a ser dito. E porque sempre haverá mais. Palavras não se esgotam e, por isso, eu comemoro a vida. Continuo contando e cantando, até que alguém entenda minha nota ou some certo os meus numerais. Números, palavras e melodias não enganam. Mas eu...

Eu pertenço à classe dos que não têm classe. Sou da minoria e não da unanimidade. Eu me recuso a ser unânime, nem que seja pelo prazer de contrariar. Mas trago a sorte, posso garantir. A sorte, a vida e todo o resto que sorte e vida têm que acompanhar.

Pra falar desses restos dos quais sobrevivo é que escrevo. Pra que todos aceitem os meus números. Os meus valores. Os meus amores. Escrevo pra que todos saibam das sete vidas que me foram entregues e das outras tantas que inventei.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

AFINAÇÃO



Como arroz e feijão
A perfeita combinação
Soma de duas metades

Como feijão e arroz
Que só se encontram depois
De abandonar a embalagem

Mas como entender que os dois
Por serem feijão e arroz
Se encontram só de passagem?”

(da música PRATODODIA, de O Teatro Mágico)

Houve uma época em que eu acreditei naquela teoria esquisita que diz que os opostos se atraem. Mas é claro que essa fase utópica passou. Não me olhe estranho. Sim, é verdade. Eu já não creio que dois seres que caminham em sentidos contrários possam, algum dia, dividir a trilha. Já compreendi que água e óleo não se misturam. Já não vejo vantagem em estar com alguém que é de outra prateleira. Já não aceito falar dos meus sonhos e ver o outro desviar os olhos. Usando um vocabulário nada polido, vou sintetizar tudo: mesmo sendo farinha do mesmo saco já é tão difícil o “lado a lado”, imagine se for feijão com arroz?

Você acorda, vê um sol bonito iluminando a sacada, te dando bom dia e logo pensa que tem uma vida inteira lá fora esperando pra ser vivida. Não, hoje não é dia pra ficar dentro de um apartamento esperando o passar das horas ou assistindo a um jornal sem graça de fim de tarde. Hoje é dia de ir ao cinema, caminhar pelo parque, se sentir mais leve, praticar algum esporte, vestir roupas deselegantes e descer do salto. Hoje é domingo, dia de ser mais feliz.

Mas a pessoa que vive com você pensa que o domingo só começa depois do meio dia, que o almoço só precisa sair lá pelas três da tarde e que, em seguida, o melhor é se desmanchar no sofá pra assistir às finais dos campeonatos de futebol, a um telejornal e fechar o dia com um reality show na TV.

Vocês terminam em um almoço sem graça, tímido, calado e informal. Ele, obviamente, vai comer em frente à televisão. Não perderia por nada os primeiros minutos do primeiro tempo. Durante a tarde inteira, você tenta ler seus livros de poesia, mas sente-se incomodada pela voz enjoativa do locutor e pelas interjeições comemorativas que surgem, espontâneas, quando um gol é marcado. Você fecha a porta e... Por fim, um pouco de paz.

O perigo mora exatamente aí. Quando a paz é muito mais provável no momento em que se está longe. Convenhamos, não é pra isso que o amor foi feito.

Como não é minha intenção criar estereótipos, bem posso imaginar outra situação.

Você é super antenada em todas as notícias que dizem respeito à moda, make up e cores da estação. Sua maior alegria é renovar o guarda-roupa e caminhar no shopping da cidade, nem que seja por distração. Você tem uma caixa de esmaltes, é louca por sapatos e não perde, em nenhuma hipótese, a novela das nove.

Mas a pessoa que vive com você prefere saber tudo sobre os novos escritores, cineastas, desenhistas e bandas que surgem, todo dia, por aí. Ele ouve músicas que ninguém conhece e que, por sinal, são um tanto quanto esquisitas. Ele sonha em conhecer milhões de lugares novos e inexplorados, mas você se contenta com aqueles velhos pontos turísticos dos cartões postais.

Vocês terminam por dizer mil coisas um para o outro que, se listadas, não farão o menor sentido. A conversa deixa de ser um diálogo e se transforma em um par de monólogos. Como loucos falando sozinhos. Ao perceberem-se loucos, vocês optam pelo silêncio. É triste demais preferir o silêncio à conversa quando o interlocutor é aquele que você diz amar. Convenhamos, não é essa a função do amor.

Você pode pensar que estou generalizando. Afinal de contas, todo mundo é mesmo um pouco diferente. Se não fosse assim, não haveria troca, entrega, partilha. Fato é que também não haverá nenhuma espécie de troca quando os corações batem em ritmos diferentes. Quando a sua distração é o tédio dele. Quando você busca, no outro, qualidades que, pra ele, são defeitos. Quando portas fechadas e silêncio absoluto constituem a melhor maneira de manter a convivência. Isso não é amor, isso é comodidade.

Sei que ninguém no mundo se comportará como um espelho do que você é e espera que os outros sejam. Sei que as assimetrias servem pra que a gente tenha motivos pra se lapidar. Sei que, mesmo depois de todas as lapidações, o encaixe ainda não será totalmente perfeito. Mas sei também que amor é uma coisa meio específica. Não quero estimular ninguém a sair pelo mundo à procura do par ideal. Sinceramente, nem mesmo acredito que ele exista. Mas eu acredito e levanto, incansavelmente, a bandeira da afinidade. É preciso ser muito afim para se manter, ao longo da vida, a fim da companhia de alguém. É preciso se reconhecer no outro, em algum cantinho íntimo que o resto do mundo nunca viu.

Afinidade não é dizer as mesmas coisas e pensar exatamente igual com relação a tudo. Isso é igualdade. Notas iguais não formam acordes. Afinidade é ser a fim. A fim de. De ficar perto, de se compreender, de se aceitar, de se completar. Pra ter afinidade, não é preciso ter todas as semelhanças, mas é imprescindível estar na mesma sintonia. O coração precisa bater no mesmo ritmo. O amor é ritmado, não tem jeito. É como duas cordas entoando notas diferentes que, juntas, formam uma harmonia bonita. Acorde é junção de notas e amor é junção de gente. Mas uma coisa é certa: entre dó e si, tem sempre um punhado de notas que, se tocadas juntas, não combinam. Na junção dessas notas é melhor não insistir. Não existe uma regra matemática que defina aqueles que dão as mãos. Mas, pra resumir tudo o que eu queria dizer aqui hoje, vou usar as palavras mais simples: pra ser bonito, tem que estar afinado.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A ARTE DE CONTAR ATÉ DEZ

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Uma ofensa. Uma calúnia. Uma bobagem. Ou seja lá o que for. Saber ou não contar até dez promete ser o critério do século XXI para a seleção natural proposta por Darwin. Para sobreviver, é imprescindível saber contar (e resistir).

Paciência. É isso que o mundo exige que tenhamos. Dizer que é preciso que todos saibam onde termina seu espaço e começa o do outro é clichê. Eu sei. Mas como não repetir? A gente insiste em não entender. Em invadir. Em se intrometer. E em obrigar os outros à nossa volta a contarem até dez, cem ou mil.

Do que será que precisamos? Que palavra, afinal, está faltando no nosso dicionário? Respeito. Bom senso. Percepção. Sensibilidade. Compreensão. Limite. Ou tudo isso junto, em um pacote só.

E quais são, afinal, os nossos infernos? O trânsito. A poluição. A intriga. A rotina. A correria. As obrigações. As distrações da vida moderna que mais nos tomam tempo do que, de fato, facilitam nosso dia a dia. E ele: o próprio dia a dia. A monotonia.

E o que, na realidade, queremos alcançar? Um pouco de paz. Tempo pra ouvir nossas trilhas sonoras, tão minuciosamente separadas por nós conforme nossas lembranças mais bonitas. Sensibilidade para ler e interpretar poemas cujo conteúdo não está escancarado nas linhas. Serenidade para ouvir o que todo mundo tem a dizer. Sabedoria para distinguir o que é e o que não é pertinente. Tranquilidade para falar pausado. Flexibilidade para aceitar e compreender o que é diferente. Amor, para que a vida nunca perca o seu sentido vital.