sábado, 7 de junho de 2014

MARIA

Maria já não tinha quinze anos, mas continuava vivendo como quem brinca na montanha-russa. Olhava o mundo do alto da sua pilha de quimeras. Ela queria sentir o sol a pino queimando a pele. Queria amar só por hoje. Queria o clímax do que quer que fosse. Queria apenas a primeira vez. 

domingo, 1 de junho de 2014

EM ALGUM LUGAR DO ETERNO

“Não espere nada de mim” – ele disse antes de quebrar a minha redoma. Eu não sabia lidar com aquela despretensão. “Leve” – ele me pediu antes de me beijar. Nunca tive uma alma leve, é o que eu teria dito se houvesse algum intervalo de tempo entre seu sussurro e sua boca. Enquanto ele se apropriava de mim, eu tentava inventar um modo de compreender que a vida podia valer a pena só por aquele instante. Me causavam vertigem todas aquelas sensações não planejadas, mas pouco a pouco fui deixando de me pertencer de modo tão rígido e me permitindo estar à serviço do instante sem me preocupar se tudo aquilo seria ou não recriminável. Suas mãos deslizavam desmistificando minha cintura. Comecei a me deixar levar por aquele amor que não exigia nada de nós. E eu vi escapar um sentimento bonito e novo de dentro de mim, saindo por alguma fresta que ele abriu sem o menor esforço. Me permiti estar à mercê das nossas almas puras e dos nossos corpos curiosos. Sem ter o que esperar, ficamos ali, presos naquela iminência quase adolescente a que nos submetia o agora. Eu também já não queria ter o que esperar. Eu também já não precisava do amanhã como o destino mais óbvio. Eu tinha entendido que nós não tínhamos sido feitos para durar, mas que assim, sendo tudo tão fugaz e tão poético, é que permaneceríamos um no outro de um modo bom. Se houvesse o dia seguinte, não teríamos tanto zelo com aquela noite. Se houvesse um plano, nós não cumpriríamos. Então era aquele o nosso pacto. Era daquela recordação que precisávamos. E o nosso reencontro ficaria assim, perdido em algum lugar do eterno. 

sexta-feira, 16 de maio de 2014

CONFISSÃO

Eu seguia com minha alma cambaleante e com minha crença cada vez mais fragilizada no amor. A pilha de ilusões que me mantinha de pé vez ou outra se reabastecia de sonhos e suspiros quando tropeçava naqueles velhos filmes e livros e músicas que me faziam acreditar no sim e no encontro e no verso a despeito de toda a rebeldia da liberdade que eu fingia desejar. Só fingia. Não queria ser assim tão livre.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

PERAMBULANDO, SIM

E é isso. Eu não sei se existe algum lugar no qual eu consiga me encontrar. Não sei se há uma vida que me dê tudo o que eu quero, possivelmente porque eu não sei o que quero. Só sei que não é nada do que eu já conheci. Fica sempre faltando algo em todos os cantos. E é isso. Ano após ano, permanece a minha alma entupida de sonhos perambulando pelo mundo, de um modo quase vagabundo de tão obstinado.

Mas essa obstinação... Não, não mais com a pretensão de que em alguma esquina eu me encaixe milimetricamente, porque sou muito assimétrica para caber. E a ausência já é uma condição assimilada dentro de mim. Sei que sempre faltará algo. Algo pujante, impalpável, indizível e provavelmente fantasioso.

Às vezes eu me pergunto o quão amáveis são todas essas fendas, e se alguém algum dia vai achar que é bonito eu ser tão cheia e ao mesmo tempo tão vazia. Me pergunto qual a duração no outro do fascínio exercido pela minha busca incessante. Me pergunto por quanto tempo alguém se propõe a me fazer remendos, sabendo-os tão predestinados a outros rasgos. É que esse sonho vivo que mora dentro de mim só cresce, e cresce, e cresce. O conteúdo expande, mas a superfície continua a mesma. E surgem novas fissuras em pontos que antes pareciam resolvidos.

Já me sei desse modo, lacunar e irregular e permanentemente incompleto. Já me sei assim, insaciável, sempre com sede e sempre com fome, sem jamais encontrar tempero algum que me desarme. Mas sigo perambulando, sim. E flertando com a possibilidade do encontro exato, por mais inexato que seja o meu alvo. Buscar é minha condição. E não encontrar... Talvez seja meu combustível.


sábado, 2 de novembro de 2013

NOSSO DUPLO X E O DITO CUJO XY


No século passado, duro mesmo era ser macho. É, isso mesmo. Macho que era macho tinha a obrigação de honrar as calças. E honrar as calças incluía chegar junto na hora certa. Ah, o mito do macho sedutor! Mas macho que prestasse mesmo também ligava no dia seguinte. A menos, é claro, que a moçoila não valesse a pena. Nesse caso, era coisa de uma noite só. Porque, obviamente, algumas moças eram pra casar, e outras apenas pra passar o tempo. Acredite: a vagabunda sempre existiu, em qualquer momento da história, até mesmo no tempo da sua avó.

Falando em vó, na época da dita cuja esses machos – coitados – tinham uma lista de obrigações que, se não cumpridas, deixariam a família bastante preocupada. Machos perdiam a virgindade em zonas, levados por seus próprios pais. Machos colecionavam mulheres e as famílias diziam: “Prenda a sua cabrita, porque o meu bode está solto!”. Bom mesmo era o macho reprodutor, sexo forte, pegador.

Mas, antes que nos empolgássemos com a virilidade do sexo forte, já alertavam nossas mães e amigas do peito: há dois tipos de macho, o bonzinho e o cafajeste. É óbvio que o cafajeste é o que tem a melhor pegada, as costas mais largas e a mão mais viril. Mas cafajeste é também – para a nossa tristeza – aquele que fica com várias na mesma noite, que te faz mil promessas e depois desaparece, que não te inclui nos planos para o próximo fim de semana. É aquele que chega tarde do trabalho, joga uma pelada com os amigos no sábado, bebe cerveja e chama as mulheres que passam na rua de gostosas. É aquele que não te apresenta à família e não sabe ser gentil com o seu pai. Infelizmente, o pobre cafajeste não nasceu perfeito: seu braços fortes te enlouquecem, mas não te protegem. Você, moça indefesa, deve evitar essa espécie de macho, porque – é claro – tudo o que mais quer é, no fundo, ser protegida, certo?

Nessa época, moça boa procurava macho que não avançasse o sinal vermelho e se colocasse à disposição para ir em casa conversar com seus pais, ou seja, o bonzinho. O cara bonzinho era aquele que não fazia o coração acelerar, mas que estava sempre ali. Aquele que sempre atendia o telefone. Aquele que não aparecia misteriosamente na segunda-feira depois de um fim de semana inteiro de sumiço. Aquele com quem você – moça boa – constituiria uma família e criaria a prole.

Por sorte, amiga, os tempos mudaram. Hoje em dia a mulher não é vagabunda por não querer nada para além de uma noite. Hoje em dia o macho que te enlouquece também pode te proteger. Ou você, independente e segura de si, pode nem sequer querer ser protegida. Você pode.

Por sorte deles, cada vez menos recai sobre as costas dos nossos queridos a obrigação de ser o pegador, embora algumas famílias ainda sonhem com um filho másculo e associem o típico macho-pegador-cafajeste com um ideal de masculinidade.  Como prova da evolução das espécies, machos não precisam mais ser tão machos e fêmeas não precisam mais se comportar como presas indefesas que sonham em entrar de branco na igreja.

Fêmeas podem ser meio machos. Uma mulher autônoma em pleno século XXI pode ser mais macho que muito homem. Fêmeas podem optar por uma kitnet, um gato e um notebook. Machos podem chorar e ler poesia em dias chuvosos. Uma mulher pode chegar em um cara e um cara pode dar o fora em uma menina, sem que a primeira seja a vagabunda e o segundo um homossexual. E, se for esse o caso, qual o problema? Não somos mais as meras reprodutoras. Dividimos a conta, dirigimos, consertamos o chuveiro. Eles não mais os super-machos. Eles podem chorar, podem não querer transar no primeiro encontro, podem aprender a dar banho nas crianças e fazer o almoço no domingo.

Caminhamos – eu creio – rumo a uma sociedade sem papeis de gênero tão demarcados, em que homens e mulheres nascem para amar a quem quiserem e ser felizes como quiserem. Não é que estamos mesmo evoluindo?

terça-feira, 24 de setembro de 2013

LUTO

Meus sentimentos pela perda de Denis Casagrande e minha solidariedade à família e aos amigos.

É estranho sofrer tanto pela perda de alguém que eu não conheci. É estranho esse luto contido que às vezes se materializa em uma lágrima tímida presa no canto do olho. Escrever sempre foi o jeito que eu encontrei de desembaraçar dentro de mim a minha coleção de novelos embolados. Foi o jeito que eu escolhi para organizar a minha desordem, mesmo sabendo que tudo há de se confundir de novo mais tarde. É minha sina.

Acho que não preciso resumir o caso. Você já conhece a história. O Brasil inteiro conhece Denis Casagrande, o estudante da UNICAMP que perdeu a vida, aos 21 anos, na última sexta-feira em uma festa no campus da universidade. Também não preciso te lembrar que, assim como o Denis, sou uma estudante da UNICAMP. Se você está aqui, provavelmente me conhece.

Eu não o conhecia. Já até me esforcei pra lembrar se não nos cruzamos qualquer dia desses no restaurante universitário ou na biblioteca central. Mas não. Eu nunca o vi. Mesmo assim, acho que as instituições ou grupos aos quais pertencemos acabam criando em nós (ou pelo menos em mim) uma sensação de coletividade que faz com que a perda de qualquer um do grupo, seja quem for, gere um desconforto próximo àquele causado pela perda de um amigo, mesmo que não passe de um desconhecido. Talvez por eu pensar que poderia sim ter cruzado com o Denis em qualquer cantina ou biblioteca da UNICAMP. Talvez por eu pensar que poderia ter ido a alguma festa organizada pela república em que ele morava e que ele estaria lá, cuidando do som ou das bebidas. Talvez por eu acreditar que poderia ter sido eu ou qualquer amigo meu ali, na hora errada e no lugar errado, morrendo exatamente no chão em que durante anos de ensino médio e cursinho sonhamos em pisar. Por alguma dessas razões, ou por uma mistura confusa de todas elas, tantas coisas bonitas em mim parecem ter morrido (ou pelo menos adormecido) junto com o Denis.

Morreu um pouco da minha ilusão de que aqui estou protegida, que insistia em sobreviver mesmo aos assaltos que meus amigos relatavam constantemente. Morreu um pouco do meu olhar doce para a universidade, que sempre me pareceu o lugar do mundo onde até hoje me senti melhor. Morreu um pouco da minha fé já desde antes abalada no ser humano e na sua bondade. Morreu a paz que eu sentia ao andar de chinelos, shorts e mochila nas costas entre um instituto e outro. Não por medo de ser atacada a qualquer momento, mas por uma espécie de luto que eu tenho a impressão de que não vai ter fim. Vai apenas se amortecer.

Fico pensando se esse luto existiria se um amigo do Denis também tivesse tido vontade de fazer xixi e tivesse ido ao banheiro com ele. Fico pensando como seria se ele tivesse entrado no banheiro um minuto depois ou um minuto antes. Ou o que teria acontecido se a fila do banheiro estivesse enorme e ele tivesse decidido fazer xixi no cantinho do gramado. A consciência de que a nossa vida se pendura nessas vírgulas que a gente acrescenta no meio da história me torna impotente diante de mim mesma, vulnerável até mesmo à loucura do outro. Pensar que pessoas vão a festas com uma faca no bolso e que um menino de 21 anos morre por motivos que simplesmente não são motivos e que talvez nem sequer sejam verdades me assusta. A morte do Denis estourou a bolha em que eu acreditava que vivia e me mostrou o quão elitista e equivocado é acreditar que estamos salvos por estarmos aqui. E, honestamente, me deixa sem a mínima vontade de levantar amanhã e ir à universidade e voltar pra casa e continuar encarando a vida como ela é.

Nunca estamos preparados para a morte. Quando apagamos as luzes de casa e trancamos a porta, sempre acreditamos que no fim do dia estaremos de volta para terminar o relatório que ficou em cima da mesa, guardar a roupa que ficou jogada na cama ou responder o e-mail que ficou pendente. Nunca imaginamos que alguém vai entrar no nosso quarto para recolher o que é nosso. Nunca paramos pra pensar que, no fundo, nada nos pertence. Da mesma forma, nunca supomos que uma ligação pode ser a última, que um “até logo” pode ser “adeus”, que um beijo pode ser o último contato. A gente nunca, mas nunca mesmo, imagina que vai a uma festa com um amigo, que ele vai dizer que quer dar uma volta e não vai mais voltar. Nunca passa pela cabeça de um pai e de uma mãe que a vida pode ser cruel o suficiente para obrigá-los a enterrar o próprio filho. No fundo, a gente sempre conta com o amanhã, mesmo sabendo que viver é andar em corda bamba.

O nosso despreparo diante do adeus é evidente. A UNICAMP procura os responsáveis pela festa para penalizá-los academicamente, fingindo não saber que festas assim sempre aconteceram semanalmente apesar de qualquer proibição. Em nota, a universidade diz que os participantes invadiram o campus, mas não explica porque não tentou impedir que as três mil pessoas continuassem festejando noite adentro já que era proibido. O noticiário diz que foi um crime passional, mesmo que todos os amigos e familiares garantam que o Denis jamais se envolveria em uma briga por uma menina totalmente desconhecida. A mídia fala em “briga generalizada”, mas algo me diz que dar uma facada no peito de alguém simplesmente anula a possibilidade de o outro participar de qualquer briga. Agora já estão falando em legítima defesa, mas ninguém explica porque um dos agressores também levou uma facada na perna. A sucessão de histórias mal contadas nos confunde e atesta nosso despreparo para lidar com o fim, principalmente quando ele vem tão precoce e sem razão.

Despreparados, fragilizados e cada vez mais desassossegados, procuramos culpados insistentemente. Queremos saber quem deu a facada, quem chutou, quem bateu com skate, quem negou socorro. A UNICAMP procura os responsáveis pela festa. Os alunos questionam a violência do distrito em que se localiza a universidade. A morte do Denis atesta a fragilidade da nossa existência, a vulnerabilidade a que somos submetidos até mesmo onde acreditamos estar seguros e, sobretudo, a patologia (essa sim, generalizada) que marca o que chamamos de sociedade. O pior de tudo é saber que para isso não há remédio imediato. Tragédias vão continuar acontecendo mesmo quando prenderem o assassino, mesmo quando a UNICAMP se tornar mais rígida diante daquilo que afirma ser proibido por pura conveniência. O pior é pensar que um caminho se encerra antes da hora e que sobre isso nada pode ser feito ou refeito.

Os últimos dias têm me dado uma sequência de socos no estômago. A morte trágica de um desconhecido me fez acordar para o fato de que não estamos salvos.  De que não conhecemos e nem dominamos o amanhã. De que, na adversidade, uma instituição nada mais faz do que esquivar-se de qualquer culpa e transferi-la ao lado mais fraco. De que há mais gente má no mundo do que eu podia supor. E de que essa maldade tem raízes muito mais profundas do que minha vã compreensão do mundo pode explicar.

No fundo, o que eu finalmente entendi é que essa fruta não está só com a casca feia. A fruta está podre.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

EMBATE

Você falava sem me olhar nos olhos. Eu queria segurar seu rosto bem diante do meu e te obrigar a me ver. Eu queria esfregar na sua cara o quanto você era mimado. Eu queria te dizer que as chaves do seu carro em cima da mesa não me impressionam. Eu queria te dizer que não sou o tipo de mulher para a qual se abre a porta e se paga a conta do restaurante. Eu queria engolir seu olhar arrogante com meus olhos firmes. Eu queria te dizer que nunca na vida sonhei com um homem impecável. Mas ali, enquanto eu te olhava e sentia raiva da sua alma reacionária, da sua camisa de marca e da sua barba bem feita, sem perceber eu te amei. E foi assim, quando finalmente tomei coragem pra segurar seu rosto diante do meu, que ousei fazer poesia com seus números e te beijei com todo o ímpeto do meu orgulho. Assim, de coração rasgado, eu disse que te amava e te odiava simultaneamente. Violentamente. Com toda a convicção da minha ideologia barata e dos meus sonhos moídos eu deitei nos seus braços fortes. Minha mão esquerda pousou no seu ombro direito e eu, sem querer, me senti protegida. E me deixei encolher no seu colo sem sequer me lembrar de que não era proteção o que eu queria.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

QUANDO PASSEI A SER NÔMADE

Há pouco mais de um ano e meio, eu viajava quase 600km chorando baixinho no banco de trás. Pra mim, naquele momento, ir pra São Paulo era ir para o mundo. E mesmo ir pra Campinas, cidade que nem é assim tão grande, era como trocar a simplicidade da minha vida pacata por um desafio que me vestiria com as cores da coragem, ainda que por dentro eu fosse frágil. Eu me despedia do estado de montanhas tão altas quanto as que eu ousei transpor quando mudei toda a minha vida por um sonho. Eu dizia adeus à cidade em que nasci, com seus pouco mais de 400.000 habitantes e com sua gente vivendo tão despretensiosamente. Aquela despretensão que por anos me deu a nítida sensação de ser estrangeira dentro da própria terra. Eu tinha pretensões demais pra caber ali.

Naquele momento da partida, minha coragem murchou. Mas era tarde. Era tarde e eu, no fundo, nem cogitava voltar atrás. Porque minha felicidade esteve sempre um pouco mais a frente, e essa perseguição do que está adiante talvez seja o que me faz seguir na estrada de pedras muitas vezes sem perceber que tenho os pés feridos. Eu saía de Betim com a certeza de que jamais moraria ali de novo. Por incrível que pareça, não era uma certeza arrogante. Era uma certeza doída e insegura, de alguém que por alguns momentos gostaria de ter sonhos miúdos, só pra conseguir caber ali e não sofrer. Mas o amanhã me convidava para algo que estava além daquela rua, daquele bairro, daquela cidade. Talvez fosse só a minha mania de amar o que está distante física e temporalmente. Talvez fosse só a minha insistência em colecionar rupturas. Talvez fosse só esse meu hábito tolo de picotar o tempo em fases e acreditar que de algum modo estou chegando mais perto, fingindo não perceber que o ponto mais alto está sempre se escondendo de mim. Talvez fosse só minha teimosia de transferir o sorriso aberto para o porvir, confiante de que o amanhã é sempre mais bonito. Talvez fosse só minha saudade do futuro desejando algo que ainda não foi e que, justamente por isso, só se traduz no lirismo.


Mas é também profundamente lírica a dor. E é por isso que nunca me privo do direito nobre e honesto de chorar. No fim, aqueles 600km de choro contido no banco de trás me fizeram entender que dali em diante eu perderia um pouco da noção de que algum lugar me cabe ou pode um dia caber. Dali em diante eu me renderia ao lema das grandes cidades, onde cada um é só mais um átomo desordenado e apressado. Dali em diante, o sorriso largo não só moraria permanentemente no amanhã, como também viveria na próxima esquina. Campinas não é minha casa, mas Betim também já não é. Essa sensação de não pertencer me faz tão estrangeira quanto antes, e de certo modo turista. Nômade no mundo. Sonhando sempre com uma rota mais distante e mais difícil de percorrer. Querendo sempre morar num canto para além do horizonte que minha vista consegue alcançar. Esperando sempre de mim uma coragem tamanha para olhar pra trás - ainda que com os olhos úmidos – e partir. É que nesses olhos úmidos navegam barcos carregados de desejos sem colete salva-vidas. Tenho essa preferência quase masoquista pelo afogamento, porque nunca gostei de estar na superfície. Dentro desse barco, à frente dessa tripulação de medos contidos, estou eu. Talvez um pouco confusa com as rotas, confesso. Mas definitivamente não estou à deriva. 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

INESCRUPULOSAMENTE IMPERFEITA E INDECENTE

Era uma manhã de domingo e ela tentava, de algum modo, se libertar da culpa. Era tão difícil cortar pela raiz algo que estava ali desde sempre, que nasceu ali, intocável e naturalizado dentro dela. Era como um aborto. Mas até livrar-se da culpa parecia trazer a tona outras culpas. A proibição latejava na memória e raspava o corpo. A culpa não tinha pés de barro.

A culpa por ser mulher. A culpa por ter sido uma criança esquisita. A culpa por detestar o próprio nome. A culpa por não ser igual aos pais e nem se parecer fisicamente com a mãe. A culpa por ter decidido ser atriz aos quinze anos e por ter saído de casa tão cedo. A culpa por transar no primeiro encontro e por não receber ligação no dia seguinte. A culpa por colecionar amores que não dão em nada. A culpa por ser olhada com malícia pelos olhos da rua. A culpa por ser mais bonita que a irmã e menos bonita quanto a colega de trabalho. A culpa por nunca receber um grande papel. A culpa por ser advogada por dinheiro e atriz por amor nas horas vagas. A culpa por ser ligeiramente ácida pela manhã e por não saber abraçar apertado. A culpa por nem sempre saber o que dizer e por não ter a solução na ponta da língua. A culpa por não sentir prazer com o marido todas as noites. A culpa por desejar a pele de outro homem e por saber que seu marido também deseja a pele de outra mulher. A culpa por sair de casa antes mesmo das crianças acordarem e por não chegar a tempo de dizer boa noite. A culpa por não ser a melhor mãe do mundo. A culpa por não cozinhar bem. A culpa por não ter dinheiro para matricular a filha no cursinho de balé da escola. A culpa por não aparecer sorrindo em fotos de família. A culpa por, vez ou outra, desejar em silêncio antes de dormir uma vida que não a sua.

Ela era ao mesmo tempo árbitro cruel e réu confesso. Era juíza de si mesma, regida por leis que ela jamais aceitou. Seguindo um contrato não assinado, só por conveniência ou comodidade. Mas naquela manhã de domingo ela não queria se culpar nem mesmo por não se sentir mais culpada. Queria tudo, menos o martírio. Só queria sair da cela. Só queria deixar de ver a sombra das grades desenhadas sobre o seu corpo ao por do sol.

Ela abriu a porta da sacada e rodopiou quinze vezes em cima da cadeira giratória do escritório com os pés erguidos sem sapatos. Ela enlouqueceu às claras. E mostrou as meias coloridas por baixo dos sapatos. E mostrou os cabelos desdenhados para além do coque outrora impecável. E mostrou o sorriso imperfeito por trás daquele tom sóbrio de batom. E mostrou a louca que existia escondida dentro daquele terno de linho opressor. E esvaziou-se da culpa. E viu aquelas grades derretendo. E viu aquele caldo preto escorrendo pelo ralo sem dor. E sentiu aquele cheiro de ferro fundido. E sentiu aquele gosto de fel. E soube que dentro dela brotava um sonho doce em algum lugar novo. E soube que naquele corpo pousava uma alma muito mais livre e inescrupulosamente imperfeita e indecente. E sorriu um sorriso bêbado e desengonçado – sem culpa alguma.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

IMPERMANENTE

Depois que meu coração bateu asas pela primeira vez, gostei tanto de voar que decidi não mais pousar. É bobagem, eu sei, mas parece que, se eu desacelerasse, cairia imediatamente e não voaria mais. Então vivo cortando o vento e desenhando no céu o meu balé. É que não aprendi a permanecer. Não fui feita pra ficar.