sábado, 16 de março de 2013

CULPA NOSSA


Não sei se este texto é pra você ou pra mim mesma. Não sei a quem atribuir a incumbência de te fazer sumir de mim. Já não consigo dizer se a culpa por você morar em mim é sua ou inteiramente minha. Sua, por me seduzir tão sem querer; ou minha, por ter esquecido propositalmente o caminho de casa. Sua, por me sorrir tão amigavelmente; ou minha, por nunca te contar claramente que queria na verdade um outro sorriso.

Seja lá pra quem for este texto - seja para o seu coração ou para o meu juízo, para a sua despretensão ou para o meu descuido - deixo aqui a sentença irrevogável de que não quero mais. Não quero mais te encontrar casualmente nos seus cantos mais óbvios sem assumir que estou ali à sua procura. Você não some de mim porque não deixo. Não some porque insisto em ir aos mesmos lugares repetindo baixinho por dentro que é só acaso. Não some porque eu te mantenho, silencioso assim, em algum lugar desterritorializado e atemporal. Se o seu sorriso permanece o mesmo, só me resta tomar essa estrada larga e caminhar de volta pra casa.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

MAPA ASTRAL

 acima, o meu mapa astral, gerado neste link.

Não era tarde, mas meu espírito vespertino e minha velhice espiritual me faziam bocejar ininterruptamente. Deixamos a casa de madeira, a casa dos meus amigos. Atravessávamos ruas escuras habitadas por um ou outro boêmio. A noite gemia. Sabíamos que um pouco adiante a serpentina nos engoliria madrugada adentro. E então, quando finalmente tivéssemos chegado lá, onde os corpos se encontravam sem que se encontrassem os olhos, já não importaria saber se o que caía do céu era sereno ou chuvisco.

Meu amigo me falava um pouco sobre signos e seus ascendentes. Ele dizia que eu era totalmente sagitariana e que de longe dava pra perceber que meu ascendente era em libra. Ele já estava bêbado e eu estava embebedada em meu eterno mar de sobriedade, o que talvez dificultasse nossa compreensão um do outro. Mas me lembro de ter ouvido que minha ascendência em libra era totalmente condizente com essa minha autofidelidade. E que sim, tudo fazia sentido. Minha rejeição face ao delírio, minha prisão dentro do campo do aconselhável, minha mania de seguir tão à risca as recomendações que eu mesma determinei pra mim.

Por um momento, desejei não ter ascendência em libra. Desejei dormir sem a luz do abajur, pisar descalça no chão gelado, mexer na terra sem luvas. Desejei conversar com estranhos, dar as mãos e entrelaçar os dedos no primeiro encontro, amar sem medo do amanhã. Eu só queria me desfazer de uma capa rígida e mostrar que por dentro sou líquida. Eu só queria esquecer meu lado arredio e espartano e provar que o meu inferno astral não existe. Então me desmontei em um sorriso e sambei mesmo sem saber.

O carnaval acabou. Já varreram a serpentina que ficou esquecida no chão. Os boêmios desconhecidos, com seus olhos misteriosos e por vezes indignos, já não perambulam pelas esquinas sob a luz de estrelas. A bateria está muda, guardada em algum galpão sujo para o ano que vem. Fiquei pensando em um jeito de contrariar os astros, só pra quem sabe alcançar uma felicidade um pouco mais leve e impensada.

Por sorte, hoje descobri que meu amigo bêbado estava enganado. E você, que só me vê de longe ou com o canto dos olhos, também se engana. Sou sim uma sagitariana de fogo rendida a Júpiter. Mas meu real ascendente em aquário me pregou no rosto um par de olhos curiosos, dogmáticos e destemidos que eu, por medo ou fragilidade, às vezes ignoro. Juntando alguma coragem dentro de mim eu digo que estou aqui. Aqui. Pronta para perambular como um flâneur por caminhos sinuosos, encontrando meandros até mesmo dentro de mim. Pronta para tatear o mundo com mãos cada vez mais receptivas e com a pele cada vez mais permeável. Pronta para amar até mesmo o que for reconhecidamente fugaz, mas eterno em um instante.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

OLHOS SECOS

Sua ausência deixou em mim uma serenidade fria. Deixou em mim uma facilidade invejável de virar páginas e encerrar ciclos. Deixou em mim uma consciência dura e doída da efemeridade de tudo, inclusive do que juramos ser eterno. Deixou em mim uma carência assimilada, regada por uma certeza de que haverá sempre uma lacuna aparentemente impossível de ser preenchida. Deixou em mim um par de olhos secos e um adeus entalado na garganta, pronto pra ser articulado. Deixou em mim a obrigação de me pertencer sozinha e por inteiro. E tirou de vez o “pra sempre” dos meus planos, por me fazer acreditar que “pra sempre” é tempo demais. Hoje prefiro dizer “por enquanto”, porque o agora é a única certeza que eu tenho de mim. 

A sua ausência me levou a construir muros firmes em torno de mim mesma, acreditando que me proteger seria o melhor jeito de não sofrer nunca mais. Eu estava tão enganada! Veio alguém e ergueu uma ponte mais alta do que o meu muro. Era diferente de todo o resto. Mas eu não percebi. Estava muito ocupada delimitando fronteiras.

sábado, 5 de janeiro de 2013

CARTA ABERTA PARA O HOMEM QUE NÃO SABE O QUE QUER


Antes de mais nada, que fique bem claro que você me parece uma raça indesejável da espécie humana. Aquela que angustia, desespera, apavora. Sua simples existência significa pra mim algo como um joelho esfolado ou uma maquiagem borrada.

Qualquer mulher há de concordar comigo: é infinitamente melhor um homem que sabe que não te quer do que aquele que não tem certeza. É angustiante tentar decifrar uma possível segunda intenção que talvez sequer exista. É desesperador esperar por uma ligação que só acontece quando você deixa de esperar. É aterrorizante não saber ao certo o que há por trás de cada palavra. Esse lugar indefinido entre amizade e amor definitivamente não me cabe.

Dizem por aí que é difícil entender o coração de uma mulher. Mas terra estranha mesmo é o coração do homem indeciso. Aquele que num dia manda flores e no outro desaparece. Aquele que num dia te olha insistentemente e no outro finge que não te vê. O homem sem dia seguinte. Aquele que não te deixa saber sequer se você está ou não incluída em seus planos pra amanhã ou pra depois. O que afinal te leva a inventar assuntos casuais no chat e fazer ligações fofas fora de hora se você no fundo não quer nada além de companhia para um sorvete no fim da tarde?

Fica aqui um recado pra você, que não sabe se quer uma mulher: decida-se. Junte o resto de coragem que ainda te sobra e abandone de uma vez por todas a sua cadeira cativa em cima do muro. Pule para um lado ou para o outro. Desista dessas palavras amigáveis e desses sentimentos comedidos. Pega esse telefone agora e liga pra dizer que quer. Ou então esquece.



quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

UM TAPA NA CARA

    céu de Cabo Frio na virada de 2008-2009 (foto: Silvana Prata)

Colecionei durante a infância doces recordações do Natal. Eu tinha pouco mais de seis anos e era feliz por motivos muito pequenos e absolutamente singelos. Era feliz porque meus avós, que na época ainda estavam fisicamente presentes, se deliciavam com a mesa farta preparada por minha mãe. Era feliz porque meus tios, que na época ainda eram casados, beijavam seus maridos e esposas, o que me levava a acreditar que tínhamos uma família tão grande e mais bonita do que aquelas dos filmes. Era feliz porque brincava e brigava com minha prima mais nova dentro do quarto. Era feliz porque meus pais me abraçavam o tempo inteiro e festejavam por estarmos todos juntos. E, como qualquer criança de seis anos, era feliz porque a árvore de Natal montada na sala estava cercada de embrulhos coloridos e porque a mesa na varanda contava com várias opções de sobremesa.

Hoje em dia quase todas essas lembranças são apenas docilidades de um passado que ficou arquivado no meu coração dentre as coisas mais lindas da vida. Meus avós são recordação terna e eterna. Meus tios e tias com seus maridos e esposas formam, dentro de mim, a imagem borrada de uma época em que eu ainda conseguia chamar de tio e tia as pessoas que se casavam com os irmãos dos meus pais. E fazia isso com toda a pureza de quem tem seis anos de idade e gosta das pessoas sem pé atrás. Minha prima é uma saudade impregnada no peito e uma vontade quase desesperadora de ter por perto alguém que tem quase a minha idade e um sorriso muito parecido com o meu. Presentes e doces ainda me atraem muito, mas diante deles me comporto hoje com mais serenidade.

Apesar de tudo isso ter ficado apenas na memória, esses detalhes ternos construíram em mim, ao longo dos sete primeiros anos da minha vida (época em que meus avós ainda me traziam presentes no dia 24), uma imagem mágica do Natal. Falar dessa data me traz algumas das melhores recordações que existem dentro de mim. Miniaturas de Papai Noel cantavam e dançavam pela casa. Nosso aparelho de som tocava clássicos como “Então é Natal”. Nosso jardim era iluminado por pequenas lâmpadas coloridas que me faziam sonhar com o dia em que o ano inteiro seria Natal.

Por outro lado, o dia 31 sempre foi um tapa na minha cara. Apesar da beleza dos fogos desenhados no céu, a virada do ano carregava uma angústia, um desespero, um incômodo. Ver a alegria de multidões pela TV só servia para esfregar na minha cara que a felicidade só era possível daquele jeito.

No ano de 2008 tentei fazer diferente. Fui à praia, pulei as sete ondas, me vesti de branco. Tudo conforme diz a lei. E fiquei ali, aguardando aquela explosão colorida no céu e dentro de mim. O céu festejava, mas por dentro eu permanecia com a mesma angústia contida e cada vez mais amarga de quem não aprendeu a festejar.

É importante esclarecer que eu não sou um ser humano naturalmente amargo e que festejo bem em determinadas situações. Fico por isso confusa, tentando compreender o que falta no ano novo para que eu consiga comemorá-lo ou o que falta em mim para conseguir enxergar tamanha beleza e renovação na união dos ponteiros em cima do número 12 no último dia do ano.

A divisão do tempo é genial, preciso concordar. O espaço de um ano, esse agrupamento de 365 dias (exceto em anos bissextos, só pra recordar), sua divisão em exatos 12 meses com aproximadamente 30 dias e por fim as semanas com cinco dias de labuta e dois de repouso. É também genial a divisão dos dias em 24 horas, ainda que esse número nos esteja parecendo insuficiente diante da rotina apressada e dos compromissos inadiáveis que surgem a todo instante na agenda. E são geniais até mesmo as horas, divididas em singelos minutos e segundos que nos fazem perceber a grandeza que podem carregar umas poucas frações de segundos em detrimento de tantas horas que significam tão pouco.

Mesmo reconhecendo a genialidade da organização dos dias em anos, nunca fui capaz de vibrar com o momento da virada e essa minha incapacidade me perturbava. É que todo esse clima de contagem regressiva me soa como uma obrigação, entende? Parece que o mundo me obriga a contar os segundos junto com a multidão desesperada. Parece que o mundo me obriga a suportar o sono até a meia noite. E me obriga também a desejar que os próximos dias sejam totalmente diferentes dos 365 anteriores, por mais que eles tenham sido lindos. E me obriga a fazer um milhão de planos, dos quais eu certamente só cumprirei metade. Mesmo consciente disso, a data me força a planejar. E me joga na cara, como que em um tapa de luva, que por alguma razão há gente mais feliz do que eu.

Hoje é dia primeiro de janeiro, data em que supostamente estamos mais predispostos a reflexões. O balanço de 2012 não podia ser melhor, principalmente porque realizei vários dos meus maiores sonhos e estive com o coração um pouco mais em paz do que em anos anteriores, quando copos d’água eram tempestades. Esse sepultamento de 2012 me deixa com um luto inevitável, preciso confessar. Mas, sendo bem realista, 2013 tem me dado muitos indícios de que há felicidade à vista. E tudo isso me leva a questionar se existe realmente tanta gente mais feliz do que eu.

Talvez aquela felicidade da virada que a gente vê na TV signifique, de fato, muito pouco. Em 2008, ano em que eu pulei as sete ondas e me vesti de branco, foram incontáveis as pedrinhas no caminho que me fizeram tropeçar e esfolar o joelho. Em 2012, colecionando feridas plenamente cicatrizadas e carregando um leve sorriso no rosto de quem já aprendeu a ser feliz tranquilamente, eu cheguei muito mais perto da pessoa que quero ser. Adoeci pouco. Até me aborreci algumas vezes, mas fui incrivelmente capaz de ver nos tropeços possibilidades de me tornar mais forte. Minha gastrite nervosa parece ter tirado férias permanentes. Tive duas ou três crises de choro bem controladas. Não me lembro de ter brigado feio com ninguém (incrível, não é?) e amei mais gente do que de costume.

Pensando por esse lado, talvez eu seja hoje mais feliz do que muitos daqueles que se embebedaram na areia de Copacabana. Pensando por esse lado, talvez a felicidade de verdade seja muito mais contida do que explosiva. Talvez a explosão colorida que por anos eu quis ver dentro de mim seja só um flash de quem amanhã possivelmente já nem saiba como suportar a vida que (feliz ou infelizmente) continua.

E fica aqui uma decisão: na virada de 2013 para 2014, nada de cobranças. Vou dormir mais cedo se estiver com sono, vou assistir a um filme ao invés do show da virada, vou passar comendo besteiras da geladeira no lugar do tradicional churrasco. O dia 31 é sempre um trampolim. O dia primeiro de janeiro é mais um dentre os outros 364 vindouros. Mais importante do que festejar a união de ponteiros em cima do número 12 é carregar no rosto um sorriso sossegado e uma poesia debaixo do braço, só pra começar o ano com letra maiúscula. 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

DESEJOS

Fim de ano é sempre a mesma história. Tem gente arrumando o armário. Tem gente fazendo simpatia. Tem gente fazendo planos e estabelecendo metas. Tem gente pensando em começar dieta, academia e aula de violão. Tem gente dizendo que os próximos dias serão totalmente diferentes dos 365 anteriores. Tem gente desejando paz, saúde, amor e prosperidade pra todo mundo sem sequer pensar sobre o significado de cada uma dessas palavras. Tem gente agradecendo o passado e tem gente pedindo o futuro. O tempo passa. Voa. Mas os meus desejos ainda são os mesmos... 



Que a vida continue me causando espanto, medo, surpresa e prazer. Que o injusto continue me indignando, e que a indignação continue me movendo em busca daquilo que acredito ser certo. Que o meu olhar se mantenha aceso. Que eu continue tendo efêmeras vontades de desistir, porque sou humana, mas que a fé me mova sempre até o fim. Que o caminho árduo nunca me faça ser tentada pelos falsos atalhos. Que, de um jeito ou de outro, a gente consiga viajar: no mapa, nos livros, nos sonhos ou no amor, que é o maior de todos os sonhos. Que sonhar não se torne, em hipótese alguma, tolice. E o melhor: que nenhum sonho jamais seja proibido. Que os planos saiam do papel e nos surpreendam por serem ainda mais bonitos do que pareciam ser quando ocupavam espaço apenas dentro de nós. Que a falta de tempo nunca nos impeça de embrulhar os presentes com papel celofane ou fita de cetim. Que os papeis de carta saiam da gaveta e ganhem letras, redondas ou tortas, que façam sentido quando combinadas pelo coração. Que o encontro nunca deixe de ser a opção mais viável. Que o maior confronto nunca deixe de ser o olho no olho. Que o amor seja finalmente eleito como o caminho mais curto para a real felicidade. Que os dias cinzentos sejam transformados em primavera. Que a gente caiba milimetricamente em um abraço, e que ele nos sirva de esconderijo quando o que está lá fora parecer perigoso demais. Que olhar pra trás jamais nos envergonhe. Que o amor de cinema continue sendo, no fundo, o sonho de cada um. Que declarações sejam feitas sem rodeios. Que as verdades sejam ditas. E que a vida esteja cada vez mais perto da poesia, até que vida e poesia sejam, por fim, inseparáveis. Amém.

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Obrigada a todos vocês, leitores, que me acompanharam em 2012. Vem muita poesia por aí no ano que vem. Feliz 2013!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

AS SEGUNDAS INTENÇÕES NA ERA VIRTUAL

Quando meus avós se conheceram, em uma cidadezinha do interior de Minas Gerais que se chama Matutina e hoje tem menos de 4.000 habitantes (imagine na época dos meus avós!), as segundas intenções eram declaradas de uma maneira muito mais bonita. Você pode até acreditar que hoje em dia tudo acontece mais rapidamente e que segundas, terceiras e décimas intenções são explicitadas com menos pudor. Mas quer saber? Os homens da minha geração não são corajosos como na época do meu avô. Até concordo que as mulheres, no quesito “coragem para se declarar”, avançaram bastante. Enquanto minha avó apenas trocava olhares, as mulheres da minha geração vão à caça, quase que literalmente. Será muito precipitado dizer que o homem se transformou na presa da relação?

Minha mãe me conta que Matutina tinha apenas uma rua principal onde tudo acontecia. É claro que a palavra “tudo”, naquela época, representava bem menos do que nossa imaginação fértil e precocemente exposta a conteúdos eróticos é capaz de nos fazer pensar. E era nessa rua que os jovens da cidade, homens e mulheres, caminhavam de um lado para o outro até, no máximo, dez da noite. Se o rapaz gostasse da moça, eles tinham que se cruzar umas duas ou três vezes para que na quarta fosse estabelecido um primeiro contato verbal. Daí em diante, ficava em ambas as partes aquela ansiedade prolongada pelo próximo fim de semana de flerte.

Já na época dos meus pais, se um cara gostasse da menina, pediria o telefone. Mas é importante ressaltar: naquela época, pedia-se o telefone para ouvir a voz. Pedir o telefone tinha aquele gosto de expectativa para o dia seguinte. E o dia seguinte tinha gosto de espera. E o toque do telefone tinha gosto de ansiedade. E toda aquela magia que eu, mera mortal do século XXI e participante dessa bendita (bendita?) sociedade pós-moderna, pouco conhecerei.

Quase cinquenta anos depois do encontro entre meu avô e minha avó e uns vinte e poucos anos depois do encontro entre meus pais, muita coisa mudou. Mulheres também tomam iniciativa quando gostam de um cara, o que é ótimo. Os homens (e também as mulheres) continuam perguntando o nome, mas já não sei o quanto essa informação é relevante quando se trata apenas de uma “pegada casual”. Os homens continuam pedindo o número do telefone, mas o que sobra para o dia seguinte não passa de um torpedo no celular ou uma mensagem no facebook. O toque prolongado de ligação está praticamente morto: foi substituído pelo toque curto e seco dos torpedos. Não adianta a TIM estabelecer o simbólico valor de R$0,25 para ligações de TIM para TIM. Mesmo a operadora sendo a mesma, ele (quase) sempre vai preferir te convencer em uns 200 caracteres frios e impessoais. E é nesse ponto que eu quero tocar.

Em uma roda de amigas, deixo claro que a última coisa que eu quero é um namorado que me dê bom dia, boa tarde e boa noite por mensagem de texto. Todas se chocam. Uma das minhas amigas tenta me explicar que o objetivo da mensagem de texto é te deixar o dia todo em contato com o ser amado. E que é lindo quando o cara manda uma mensagem só pra dizer que está pensando em você. Posso ser sincera? A ideia de estar o dia todo em contato com o ser amado me causa enjoo independente de quem seja esse ser. E prefiro infinitamente ouvir uma voz máscula me dizendo que está pensando em mim e que ligou só por isso a ter aquela sensação de obrigação de apertar o botão “responder” e digitar o óbvio. Mensagens de texto dizem nada mais nada menos do que o óbvio, como “estou com saudades”, “estou pensando em você”, “te amo” ou “não vejo a hora de te encontrar”. Se fosse imprevisível, seria uma ligação. A voz do outro (ainda que dizendo esses mesmos clichês) assume uma imprevisibilidade deliciosa, talvez simplesmente porque tira nossa possibilidade de controlar o diálogo pensando mil vezes antes de digitar a resposta. Falar ao telefone é comprometer-se a responder sem pensar demais, é ouvir o que não foi previamente planejado, é correr o risco de não saber o que dizer, é escutar a respiração, é suportar os espaços vazios da conversa que precedem as respostas. Falar ao telefone é até mesmo estar em silêncio, sabendo apenas que o outro está do lado de lá. Falar ao telefone é entregar-se e apreender o outro por alguns minutos. Nenhuma mensagem de texto jamais cumprirá esse papel.

Diferente da época dos meus avós e dos meus pais, nos dias de hoje quase nada é combinado frente a frente, ao vivo e a cores, pessoalmente, olhos nos olhos. As conversas que precedem o encontro são mediadas pelo monitor, que inevitavelmente confere ao relacionamento incipiente um certo descompromisso. A impossibilidade de mergulhar na tela e abraçar nos priva de uma das formas mais antigas e mais sinceras de afeto.  A consciência de que tudo pode terminar a qualquer momento através unicamente de uma palavra escrita causa insegurança. A ausência da entonação pode fazer com que uma frase assuma dimensões jamais pensadas. A mediação da tela parece nos encorajar a dizer e fazer o que jamais diríamos ou faríamos pessoalmente. A eliminação de filtros como “boa educação” e “consideração com o próximo” faz com que nos sintamos capazes de ignorar ou mesmo soltar verdades doloridas demais sem qualquer eufemismo. Online, nunca temos tanto a perder.

Como se não bastasse, a mediação da tela traz para o mundo não virtual um estranho desconforto, como se a realidade já não fosse nossa casa. As paixões têm começado cada vez mais diante do monitor e, ao sermos expostos ao contato físico, recuamos. Desviamos o olhar. Fingimos não ver como se tivéssemos treze anos. O que está acontecendo com a gente?

É preciso muita coragem pra romper as barreiras que o mundo virtual constrói e, no lugar delas, construir uma ponte fisicamente transitável. É difícil substituir a troca de dados, de torpedos e de caracteres pela troca de olhares. Mas eu insisto em querer que os olhares se cruzem e que o celular toque prolongadamente.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

PELE, INSTINTO E POESIA

“Entre por essa porta agora
E diga que me adora
Você tem meia hora
Pra mudar a minha vida”

Vambora – Adriana Calcanhoto




Vem, seja você quem for. Vem, porque é por você que eu espero. Mas não peça licença, não bata na porta, não marque encontro comigo. Apareça quando eu estiver desprevenida. Seja diferente do princípio ao fim. Não me olhe como os outros. Me olhe como se nosso caso precedesse nosso encontro. Me olhe nos olhos antes mesmo de saber meu nome. Chegue perto e me livre dessa ordem que me aprisiona. Estou aqui, inteira e pronta e intensa, e me permito ser desnorteada. Peço pra ser desnorteada. Apareça e mude tudo de lugar. Seja minha insônia, minha loucura, meu descompasso e, sobretudo, minha liberdade. Seja tudo, menos o refrão que eu sei de cor. Seja a nota do contratempo. Me surpreenda, por favor, me surpreenda. Não me traga rosas e nem chocolates. Diga que me ama de mil outras maneiras. Venha antes da hora marcada e me pegue no colo de cabelo molhado. Me faça esquecer a rima, a regra e o verso. Vem sem protocolos. Segure meu braço de um jeito que me dê a certeza absoluta de que é você. E me olhe demorado. Silencie todos os meus receios. Me mostre o labirinto pra eu abandonar de vez a estrada em linha reta. Acenda o que em mim houver de melhor e de pior. E quando eu mostrar as pedras na mão, só me fale de amor. Cale a minha voz com sua boca. Encoste em mim de um jeito novo ao som de discos velhos. Acalme minha inquietude com seu corpo. Sejamos pele, instinto e poesia. E me envolva com seus braços como se o resto fosse realmente apenas o resto. Deixe que eu encontre todas as rotas possíveis dentro do seu abraço. Mas, antes de mais nada, entre por essa porta e diga que me adora. 

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

SEM VERGONHA


Outro dia me perguntaram se eu não me sinto intimidada ao escrever no blog. E me questionaram como eu poderia ter vergonha de tanta coisa e não ter vergonha de me expor aqui.

Sim. Falar de si mesmo configura um tipo de nudez muito peculiar que, em certos casos, expõe ao mundo algo que roupas não são capazes de esconder. É uma nudez por dentro. E, para lidar com tudo isso sem se intimidar, é preciso uma despreocupação tamanha com os julgamentos alheios. É preciso um preparo prévio para as possíveis reações dos seus amigos e da sua família e dos seus conhecidos e dos seus parentes de segundo ou terceiro grau que possivelmente entrarão no blog por mera curiosidade, lerão apenas um texto e ficarão surpresos porque “a menininha cresceu”. Ficarão surpresos ao perceberem nas linhas algo que eles nem sempre conseguem enxergar nos olhos. É preciso, sobretudo, um desprendimento dos fatos. Escrevendo a gente guarda, mas não resguarda.

Não. Eu não me sinto intimidada em mostrar o que espero do amor. A Tati Bernardi diz que escrever é como matar o que aconteceu. Eu assino embaixo. Cada texto é uma página virada. Mas se engana quem pensa que o que fica é a morte do passado. Não. Fica uma aceitação do que já foi e um rascunho do que pode ser. Fica uma esperança de que os próximos amores sejam mais líricos do que aqueles que eu já vivi, com a desculpa de que me renderão mais poesia. No fundo, escrevo pra colecionar paixões.

Foi escrevendo ao longo desses anos todos que eu desenhei, dentro de mim, como o amor será quando ele chegar. E fantasiei essa ideia de que um dia ele vai chegar e, por ser tão semelhante aos meus desenhos, eu vou reconhecê-lo de imediato. Mas finjo que não acredito nessa ideia. Que não acredito nesse “um dia chegará e será lindo”. No fundo, se não acreditasse, sequer escreveria. Escrevo porque acredito. E escrevo, sobretudo, pra continuar acreditando.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

RABISCOS

Procuro em cada cor o tom que traduz a gente. Em meus desenhos coloridos, sei que você vai estar. Você e o amor. Eu te desenhei pra não precisar escrever. Rabisquei um pouco pra te fazer sorrir. Não borre meu desenho bonito! Descobri que alguns lápis de cor não fazem mal a ninguém.


Estamos em branco. Mas só por enquanto.