sábado, 5 de janeiro de 2013

CARTA ABERTA PARA O HOMEM QUE NÃO SABE O QUE QUER


Antes de mais nada, que fique bem claro que você me parece uma raça indesejável da espécie humana. Aquela que angustia, desespera, apavora. Sua simples existência significa pra mim algo como um joelho esfolado ou uma maquiagem borrada.

Qualquer mulher há de concordar comigo: é infinitamente melhor um homem que sabe que não te quer do que aquele que não tem certeza. É angustiante tentar decifrar uma possível segunda intenção que talvez sequer exista. É desesperador esperar por uma ligação que só acontece quando você deixa de esperar. É aterrorizante não saber ao certo o que há por trás de cada palavra. Esse lugar indefinido entre amizade e amor definitivamente não me cabe.

Dizem por aí que é difícil entender o coração de uma mulher. Mas terra estranha mesmo é o coração do homem indeciso. Aquele que num dia manda flores e no outro desaparece. Aquele que num dia te olha insistentemente e no outro finge que não te vê. O homem sem dia seguinte. Aquele que não te deixa saber sequer se você está ou não incluída em seus planos pra amanhã ou pra depois. O que afinal te leva a inventar assuntos casuais no chat e fazer ligações fofas fora de hora se você no fundo não quer nada além de companhia para um sorvete no fim da tarde?

Fica aqui um recado pra você, que não sabe se quer uma mulher: decida-se. Junte o resto de coragem que ainda te sobra e abandone de uma vez por todas a sua cadeira cativa em cima do muro. Pule para um lado ou para o outro. Desista dessas palavras amigáveis e desses sentimentos comedidos. Pega esse telefone agora e liga pra dizer que quer. Ou então esquece.



quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

UM TAPA NA CARA

    céu de Cabo Frio na virada de 2008-2009 (foto: Silvana Prata)

Colecionei durante a infância doces recordações do Natal. Eu tinha pouco mais de seis anos e era feliz por motivos muito pequenos e absolutamente singelos. Era feliz porque meus avós, que na época ainda estavam fisicamente presentes, se deliciavam com a mesa farta preparada por minha mãe. Era feliz porque meus tios, que na época ainda eram casados, beijavam seus maridos e esposas, o que me levava a acreditar que tínhamos uma família tão grande e mais bonita do que aquelas dos filmes. Era feliz porque brincava e brigava com minha prima mais nova dentro do quarto. Era feliz porque meus pais me abraçavam o tempo inteiro e festejavam por estarmos todos juntos. E, como qualquer criança de seis anos, era feliz porque a árvore de Natal montada na sala estava cercada de embrulhos coloridos e porque a mesa na varanda contava com várias opções de sobremesa.

Hoje em dia quase todas essas lembranças são apenas docilidades de um passado que ficou arquivado no meu coração dentre as coisas mais lindas da vida. Meus avós são recordação terna e eterna. Meus tios e tias com seus maridos e esposas formam, dentro de mim, a imagem borrada de uma época em que eu ainda conseguia chamar de tio e tia as pessoas que se casavam com os irmãos dos meus pais. E fazia isso com toda a pureza de quem tem seis anos de idade e gosta das pessoas sem pé atrás. Minha prima é uma saudade impregnada no peito e uma vontade quase desesperadora de ter por perto alguém que tem quase a minha idade e um sorriso muito parecido com o meu. Presentes e doces ainda me atraem muito, mas diante deles me comporto hoje com mais serenidade.

Apesar de tudo isso ter ficado apenas na memória, esses detalhes ternos construíram em mim, ao longo dos sete primeiros anos da minha vida (época em que meus avós ainda me traziam presentes no dia 24), uma imagem mágica do Natal. Falar dessa data me traz algumas das melhores recordações que existem dentro de mim. Miniaturas de Papai Noel cantavam e dançavam pela casa. Nosso aparelho de som tocava clássicos como “Então é Natal”. Nosso jardim era iluminado por pequenas lâmpadas coloridas que me faziam sonhar com o dia em que o ano inteiro seria Natal.

Por outro lado, o dia 31 sempre foi um tapa na minha cara. Apesar da beleza dos fogos desenhados no céu, a virada do ano carregava uma angústia, um desespero, um incômodo. Ver a alegria de multidões pela TV só servia para esfregar na minha cara que a felicidade só era possível daquele jeito.

No ano de 2008 tentei fazer diferente. Fui à praia, pulei as sete ondas, me vesti de branco. Tudo conforme diz a lei. E fiquei ali, aguardando aquela explosão colorida no céu e dentro de mim. O céu festejava, mas por dentro eu permanecia com a mesma angústia contida e cada vez mais amarga de quem não aprendeu a festejar.

É importante esclarecer que eu não sou um ser humano naturalmente amargo e que festejo bem em determinadas situações. Fico por isso confusa, tentando compreender o que falta no ano novo para que eu consiga comemorá-lo ou o que falta em mim para conseguir enxergar tamanha beleza e renovação na união dos ponteiros em cima do número 12 no último dia do ano.

A divisão do tempo é genial, preciso concordar. O espaço de um ano, esse agrupamento de 365 dias (exceto em anos bissextos, só pra recordar), sua divisão em exatos 12 meses com aproximadamente 30 dias e por fim as semanas com cinco dias de labuta e dois de repouso. É também genial a divisão dos dias em 24 horas, ainda que esse número nos esteja parecendo insuficiente diante da rotina apressada e dos compromissos inadiáveis que surgem a todo instante na agenda. E são geniais até mesmo as horas, divididas em singelos minutos e segundos que nos fazem perceber a grandeza que podem carregar umas poucas frações de segundos em detrimento de tantas horas que significam tão pouco.

Mesmo reconhecendo a genialidade da organização dos dias em anos, nunca fui capaz de vibrar com o momento da virada e essa minha incapacidade me perturbava. É que todo esse clima de contagem regressiva me soa como uma obrigação, entende? Parece que o mundo me obriga a contar os segundos junto com a multidão desesperada. Parece que o mundo me obriga a suportar o sono até a meia noite. E me obriga também a desejar que os próximos dias sejam totalmente diferentes dos 365 anteriores, por mais que eles tenham sido lindos. E me obriga a fazer um milhão de planos, dos quais eu certamente só cumprirei metade. Mesmo consciente disso, a data me força a planejar. E me joga na cara, como que em um tapa de luva, que por alguma razão há gente mais feliz do que eu.

Hoje é dia primeiro de janeiro, data em que supostamente estamos mais predispostos a reflexões. O balanço de 2012 não podia ser melhor, principalmente porque realizei vários dos meus maiores sonhos e estive com o coração um pouco mais em paz do que em anos anteriores, quando copos d’água eram tempestades. Esse sepultamento de 2012 me deixa com um luto inevitável, preciso confessar. Mas, sendo bem realista, 2013 tem me dado muitos indícios de que há felicidade à vista. E tudo isso me leva a questionar se existe realmente tanta gente mais feliz do que eu.

Talvez aquela felicidade da virada que a gente vê na TV signifique, de fato, muito pouco. Em 2008, ano em que eu pulei as sete ondas e me vesti de branco, foram incontáveis as pedrinhas no caminho que me fizeram tropeçar e esfolar o joelho. Em 2012, colecionando feridas plenamente cicatrizadas e carregando um leve sorriso no rosto de quem já aprendeu a ser feliz tranquilamente, eu cheguei muito mais perto da pessoa que quero ser. Adoeci pouco. Até me aborreci algumas vezes, mas fui incrivelmente capaz de ver nos tropeços possibilidades de me tornar mais forte. Minha gastrite nervosa parece ter tirado férias permanentes. Tive duas ou três crises de choro bem controladas. Não me lembro de ter brigado feio com ninguém (incrível, não é?) e amei mais gente do que de costume.

Pensando por esse lado, talvez eu seja hoje mais feliz do que muitos daqueles que se embebedaram na areia de Copacabana. Pensando por esse lado, talvez a felicidade de verdade seja muito mais contida do que explosiva. Talvez a explosão colorida que por anos eu quis ver dentro de mim seja só um flash de quem amanhã possivelmente já nem saiba como suportar a vida que (feliz ou infelizmente) continua.

E fica aqui uma decisão: na virada de 2013 para 2014, nada de cobranças. Vou dormir mais cedo se estiver com sono, vou assistir a um filme ao invés do show da virada, vou passar comendo besteiras da geladeira no lugar do tradicional churrasco. O dia 31 é sempre um trampolim. O dia primeiro de janeiro é mais um dentre os outros 364 vindouros. Mais importante do que festejar a união de ponteiros em cima do número 12 é carregar no rosto um sorriso sossegado e uma poesia debaixo do braço, só pra começar o ano com letra maiúscula. 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

DESEJOS

Fim de ano é sempre a mesma história. Tem gente arrumando o armário. Tem gente fazendo simpatia. Tem gente fazendo planos e estabelecendo metas. Tem gente pensando em começar dieta, academia e aula de violão. Tem gente dizendo que os próximos dias serão totalmente diferentes dos 365 anteriores. Tem gente desejando paz, saúde, amor e prosperidade pra todo mundo sem sequer pensar sobre o significado de cada uma dessas palavras. Tem gente agradecendo o passado e tem gente pedindo o futuro. O tempo passa. Voa. Mas os meus desejos ainda são os mesmos... 



Que a vida continue me causando espanto, medo, surpresa e prazer. Que o injusto continue me indignando, e que a indignação continue me movendo em busca daquilo que acredito ser certo. Que o meu olhar se mantenha aceso. Que eu continue tendo efêmeras vontades de desistir, porque sou humana, mas que a fé me mova sempre até o fim. Que o caminho árduo nunca me faça ser tentada pelos falsos atalhos. Que, de um jeito ou de outro, a gente consiga viajar: no mapa, nos livros, nos sonhos ou no amor, que é o maior de todos os sonhos. Que sonhar não se torne, em hipótese alguma, tolice. E o melhor: que nenhum sonho jamais seja proibido. Que os planos saiam do papel e nos surpreendam por serem ainda mais bonitos do que pareciam ser quando ocupavam espaço apenas dentro de nós. Que a falta de tempo nunca nos impeça de embrulhar os presentes com papel celofane ou fita de cetim. Que os papeis de carta saiam da gaveta e ganhem letras, redondas ou tortas, que façam sentido quando combinadas pelo coração. Que o encontro nunca deixe de ser a opção mais viável. Que o maior confronto nunca deixe de ser o olho no olho. Que o amor seja finalmente eleito como o caminho mais curto para a real felicidade. Que os dias cinzentos sejam transformados em primavera. Que a gente caiba milimetricamente em um abraço, e que ele nos sirva de esconderijo quando o que está lá fora parecer perigoso demais. Que olhar pra trás jamais nos envergonhe. Que o amor de cinema continue sendo, no fundo, o sonho de cada um. Que declarações sejam feitas sem rodeios. Que as verdades sejam ditas. E que a vida esteja cada vez mais perto da poesia, até que vida e poesia sejam, por fim, inseparáveis. Amém.

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Obrigada a todos vocês, leitores, que me acompanharam em 2012. Vem muita poesia por aí no ano que vem. Feliz 2013!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

AS SEGUNDAS INTENÇÕES NA ERA VIRTUAL

Quando meus avós se conheceram, em uma cidadezinha do interior de Minas Gerais que se chama Matutina e hoje tem menos de 4.000 habitantes (imagine na época dos meus avós!), as segundas intenções eram declaradas de uma maneira muito mais bonita. Você pode até acreditar que hoje em dia tudo acontece mais rapidamente e que segundas, terceiras e décimas intenções são explicitadas com menos pudor. Mas quer saber? Os homens da minha geração não são corajosos como na época do meu avô. Até concordo que as mulheres, no quesito “coragem para se declarar”, avançaram bastante. Enquanto minha avó apenas trocava olhares, as mulheres da minha geração vão à caça, quase que literalmente. Será muito precipitado dizer que o homem se transformou na presa da relação?

Minha mãe me conta que Matutina tinha apenas uma rua principal onde tudo acontecia. É claro que a palavra “tudo”, naquela época, representava bem menos do que nossa imaginação fértil e precocemente exposta a conteúdos eróticos é capaz de nos fazer pensar. E era nessa rua que os jovens da cidade, homens e mulheres, caminhavam de um lado para o outro até, no máximo, dez da noite. Se o rapaz gostasse da moça, eles tinham que se cruzar umas duas ou três vezes para que na quarta fosse estabelecido um primeiro contato verbal. Daí em diante, ficava em ambas as partes aquela ansiedade prolongada pelo próximo fim de semana de flerte.

Já na época dos meus pais, se um cara gostasse da menina, pediria o telefone. Mas é importante ressaltar: naquela época, pedia-se o telefone para ouvir a voz. Pedir o telefone tinha aquele gosto de expectativa para o dia seguinte. E o dia seguinte tinha gosto de espera. E o toque do telefone tinha gosto de ansiedade. E toda aquela magia que eu, mera mortal do século XXI e participante dessa bendita (bendita?) sociedade pós-moderna, pouco conhecerei.

Quase cinquenta anos depois do encontro entre meu avô e minha avó e uns vinte e poucos anos depois do encontro entre meus pais, muita coisa mudou. Mulheres também tomam iniciativa quando gostam de um cara, o que é ótimo. Os homens (e também as mulheres) continuam perguntando o nome, mas já não sei o quanto essa informação é relevante quando se trata apenas de uma “pegada casual”. Os homens continuam pedindo o número do telefone, mas o que sobra para o dia seguinte não passa de um torpedo no celular ou uma mensagem no facebook. O toque prolongado de ligação está praticamente morto: foi substituído pelo toque curto e seco dos torpedos. Não adianta a TIM estabelecer o simbólico valor de R$0,25 para ligações de TIM para TIM. Mesmo a operadora sendo a mesma, ele (quase) sempre vai preferir te convencer em uns 200 caracteres frios e impessoais. E é nesse ponto que eu quero tocar.

Em uma roda de amigas, deixo claro que a última coisa que eu quero é um namorado que me dê bom dia, boa tarde e boa noite por mensagem de texto. Todas se chocam. Uma das minhas amigas tenta me explicar que o objetivo da mensagem de texto é te deixar o dia todo em contato com o ser amado. E que é lindo quando o cara manda uma mensagem só pra dizer que está pensando em você. Posso ser sincera? A ideia de estar o dia todo em contato com o ser amado me causa enjoo independente de quem seja esse ser. E prefiro infinitamente ouvir uma voz máscula me dizendo que está pensando em mim e que ligou só por isso a ter aquela sensação de obrigação de apertar o botão “responder” e digitar o óbvio. Mensagens de texto dizem nada mais nada menos do que o óbvio, como “estou com saudades”, “estou pensando em você”, “te amo” ou “não vejo a hora de te encontrar”. Se fosse imprevisível, seria uma ligação. A voz do outro (ainda que dizendo esses mesmos clichês) assume uma imprevisibilidade deliciosa, talvez simplesmente porque tira nossa possibilidade de controlar o diálogo pensando mil vezes antes de digitar a resposta. Falar ao telefone é comprometer-se a responder sem pensar demais, é ouvir o que não foi previamente planejado, é correr o risco de não saber o que dizer, é escutar a respiração, é suportar os espaços vazios da conversa que precedem as respostas. Falar ao telefone é até mesmo estar em silêncio, sabendo apenas que o outro está do lado de lá. Falar ao telefone é entregar-se e apreender o outro por alguns minutos. Nenhuma mensagem de texto jamais cumprirá esse papel.

Diferente da época dos meus avós e dos meus pais, nos dias de hoje quase nada é combinado frente a frente, ao vivo e a cores, pessoalmente, olhos nos olhos. As conversas que precedem o encontro são mediadas pelo monitor, que inevitavelmente confere ao relacionamento incipiente um certo descompromisso. A impossibilidade de mergulhar na tela e abraçar nos priva de uma das formas mais antigas e mais sinceras de afeto.  A consciência de que tudo pode terminar a qualquer momento através unicamente de uma palavra escrita causa insegurança. A ausência da entonação pode fazer com que uma frase assuma dimensões jamais pensadas. A mediação da tela parece nos encorajar a dizer e fazer o que jamais diríamos ou faríamos pessoalmente. A eliminação de filtros como “boa educação” e “consideração com o próximo” faz com que nos sintamos capazes de ignorar ou mesmo soltar verdades doloridas demais sem qualquer eufemismo. Online, nunca temos tanto a perder.

Como se não bastasse, a mediação da tela traz para o mundo não virtual um estranho desconforto, como se a realidade já não fosse nossa casa. As paixões têm começado cada vez mais diante do monitor e, ao sermos expostos ao contato físico, recuamos. Desviamos o olhar. Fingimos não ver como se tivéssemos treze anos. O que está acontecendo com a gente?

É preciso muita coragem pra romper as barreiras que o mundo virtual constrói e, no lugar delas, construir uma ponte fisicamente transitável. É difícil substituir a troca de dados, de torpedos e de caracteres pela troca de olhares. Mas eu insisto em querer que os olhares se cruzem e que o celular toque prolongadamente.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

PELE, INSTINTO E POESIA

“Entre por essa porta agora
E diga que me adora
Você tem meia hora
Pra mudar a minha vida”

Vambora – Adriana Calcanhoto




Vem, seja você quem for. Vem, porque é por você que eu espero. Mas não peça licença, não bata na porta, não marque encontro comigo. Apareça quando eu estiver desprevenida. Seja diferente do princípio ao fim. Não me olhe como os outros. Me olhe como se nosso caso precedesse nosso encontro. Me olhe nos olhos antes mesmo de saber meu nome. Chegue perto e me livre dessa ordem que me aprisiona. Estou aqui, inteira e pronta e intensa, e me permito ser desnorteada. Peço pra ser desnorteada. Apareça e mude tudo de lugar. Seja minha insônia, minha loucura, meu descompasso e, sobretudo, minha liberdade. Seja tudo, menos o refrão que eu sei de cor. Seja a nota do contratempo. Me surpreenda, por favor, me surpreenda. Não me traga rosas e nem chocolates. Diga que me ama de mil outras maneiras. Venha antes da hora marcada e me pegue no colo de cabelo molhado. Me faça esquecer a rima, a regra e o verso. Vem sem protocolos. Segure meu braço de um jeito que me dê a certeza absoluta de que é você. E me olhe demorado. Silencie todos os meus receios. Me mostre o labirinto pra eu abandonar de vez a estrada em linha reta. Acenda o que em mim houver de melhor e de pior. E quando eu mostrar as pedras na mão, só me fale de amor. Cale a minha voz com sua boca. Encoste em mim de um jeito novo ao som de discos velhos. Acalme minha inquietude com seu corpo. Sejamos pele, instinto e poesia. E me envolva com seus braços como se o resto fosse realmente apenas o resto. Deixe que eu encontre todas as rotas possíveis dentro do seu abraço. Mas, antes de mais nada, entre por essa porta e diga que me adora. 

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

SEM VERGONHA


Outro dia me perguntaram se eu não me sinto intimidada ao escrever no blog. E me questionaram como eu poderia ter vergonha de tanta coisa e não ter vergonha de me expor aqui.

Sim. Falar de si mesmo configura um tipo de nudez muito peculiar que, em certos casos, expõe ao mundo algo que roupas não são capazes de esconder. É uma nudez por dentro. E, para lidar com tudo isso sem se intimidar, é preciso uma despreocupação tamanha com os julgamentos alheios. É preciso um preparo prévio para as possíveis reações dos seus amigos e da sua família e dos seus conhecidos e dos seus parentes de segundo ou terceiro grau que possivelmente entrarão no blog por mera curiosidade, lerão apenas um texto e ficarão surpresos porque “a menininha cresceu”. Ficarão surpresos ao perceberem nas linhas algo que eles nem sempre conseguem enxergar nos olhos. É preciso, sobretudo, um desprendimento dos fatos. Escrevendo a gente guarda, mas não resguarda.

Não. Eu não me sinto intimidada em mostrar o que espero do amor. A Tati Bernardi diz que escrever é como matar o que aconteceu. Eu assino embaixo. Cada texto é uma página virada. Mas se engana quem pensa que o que fica é a morte do passado. Não. Fica uma aceitação do que já foi e um rascunho do que pode ser. Fica uma esperança de que os próximos amores sejam mais líricos do que aqueles que eu já vivi, com a desculpa de que me renderão mais poesia. No fundo, escrevo pra colecionar paixões.

Foi escrevendo ao longo desses anos todos que eu desenhei, dentro de mim, como o amor será quando ele chegar. E fantasiei essa ideia de que um dia ele vai chegar e, por ser tão semelhante aos meus desenhos, eu vou reconhecê-lo de imediato. Mas finjo que não acredito nessa ideia. Que não acredito nesse “um dia chegará e será lindo”. No fundo, se não acreditasse, sequer escreveria. Escrevo porque acredito. E escrevo, sobretudo, pra continuar acreditando.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

RABISCOS

Procuro em cada cor o tom que traduz a gente. Em meus desenhos coloridos, sei que você vai estar. Você e o amor. Eu te desenhei pra não precisar escrever. Rabisquei um pouco pra te fazer sorrir. Não borre meu desenho bonito! Descobri que alguns lápis de cor não fazem mal a ninguém.


Estamos em branco. Mas só por enquanto.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

COMO SE FOSSE POSSÍVEL


Era uma quarta-feira asfixiante de março. Eu entrei na sala 10 do prédio azul e a nossa história volátil começou a ser narrada dentro de mim. Em cinco segundos captei tudo. Uma sala grande com cadeiras novas, quadro branco, dois ventiladores de teto, vinte e cinco alunos e um deles era você. Você e seus olhos puxados (pela primeira vez na vida eu amava olhos puxados), sua pele no tom ideal. Você, sem nenhuma razão, me pareceu diferente dos outros. Sempre conferi ao diferente um significado quase onírico. E, talvez por isso, gostei de você antes de tudo. Sempre fui assim. Esse meu sexto sentido sempre me diz previamente de quem gostar.

Era um típico “primeiro dia de aula”, e nós obviamente levaríamos uma hora nos apresentando uns aos outros. Ficou definido que falaríamos nossos nomes, gostos e ideais. Seu nome simples de duas sílabas e cinco letras com acento agudo na última vogal me pareceu absolutamente sonoro. Sua voz quase doce e quase imponente, tangendo o ideal, cambaleando entre o que se espera de um homem e o que se espera do amor. Seu ideal era ser feliz. Tão simples e tão aceitável. Eu ali, prolixa, tentando encontrar em algum canto perdido um ideal que fosse suficientemente denso e você sorrindo como se fosse possível ser feliz ali mesmo. Eu me rendi.

A certeza de que você podia significar algo bom pra mim veio quando percebi que você me olhava de um jeito absurdamente indiscreto como se quisesse um pouco mais de mim a cada segundo. Mas tudo isso talvez não passasse de ficção. Eu te olhava do alto da minha pilha de ilusões. Na sexta, eu me sentei ao seu lado porque gostava de você desde a última quarta-feira. Eu escrevi no seu livro porque tinha a letra mais bonita. Eu te dei um sorriso quase tímido, como se compactuássemos um segredo, como se conversássemos sem palavras.

Na semana seguinte, a sala 10 me pareceu muito mais fria e desconfortável. E na próxima, e na próxima... Você tinha sido transferido de turma e eu não sabia mais onde te encontrar. O prédio azul era enorme e você podia estar em qualquer lugar. E a vontade dilacerante de te ver me asfixiou muito mais do que o calor daquela quarta-feira em que eu descobri que ser feliz podia ser muito mais simples do que eu supunha.

Dali em diante, só te vi de relance. Descendo as escadas enquanto eu subia.  No ponto de ônibus do outro lado da avenida. Na saída do restaurante enquanto eu entrava. Mas quer saber? É melhor assim. Você ficou em mim como alguém que podia ser mais. Alguém que ouvia e lia e assistia tudo o que eu ouvia e lia e assistia. Alguém que tinha os traços que eu gostava. Que tinha a voz que eu queria ouvir. Que me olhava indiscretamente sem fazer ou dizer mais nada. Alguém com quem eu almoçaria qualquer dia, nem que fosse só pra falar de todas aquelas coisas de que nós gostávamos e que nos tornavam diferentes dos outros de um modo tão sutil. Alguém de quem eu posso falar sem medo. Você não vai ler este texto, e é justamente por isso que falo de amor enquanto falo de você como se fosse possível te amar sem saber nada a seu respeito além do que já foi dito e como se ser feliz fosse realmente tão simples assim.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

NA BALADA

São sete da noite de uma quinta-feira fria na tal cidade grande. Depois de horas analisando todas as peças brancas do armário, opto por um vestido um pouco acima dos joelhos em laise. É uma festa de engenheiros, o que deixa claro que não posso ir vestida como bem entender. Eu já equipei a bolsa e o coração. Mas o ingresso não deixa dúvidas: início às 23h. Eu não sabia o que fazer entre sete e onze da noite. Assisti a algumas porcarias na tevê até as nove. Certo, agora já é um bom momento para começar a maquiagem. Corretivo, base, pó, blush, lápis, sombra, rímel, batom, gloss. Mais pó. Mais rímel. Ainda me reconheço? Sim. Então mais sombra. Tudo certo. Ainda são 21h30 e eu não sei o que fazer entre nove e meia e onze da noite. Entro na página do facebook destinada à balada só pra passar o tempo. Mais de quatro mil pessoas com presença confirmada. Nunca estive no Campinas Hall, mas por alguma razão não acredito que lá seja espaçoso o suficiente pra comportar quatro mil pessoas com conforto. Mas quem é que liga pra conforto afinal?

Agora são 22h e eu começo a pensar se não seria muito mais legal estar de pijamas e pantufas ao invés de usar um vestido sem mangas numa noite tão fria. Evito tentar responder. Minha amiga disse que ir com roupa de inverno na balada é coisa de velho. Por mim, eu iria. Por dentro tenho sessenta anos desde que nasci. Mas, afinal, preciso tentar mudar. Pra começar, preciso esquecer de que estou com frio. Agora são 22h30 e ainda não está nem perto da hora de sair de casa. Afinal, eu tenho a sorte (sorte?) de morar a cinco minutos do tal Campinas Hall, o que só atrasa a minha saída e aumenta minha agonia. Daqui a trinta minutos os malditos portões vão se abrir e eu vou entrar louca pra ser feliz ao lado de quatro mil pessoas. Daqui a pouco minha amiga vai me ligar pra avisar que já saiu de casa e eu farei o mesmo. Os portões mágicos vão se abrir e eu vou experimentar a felicidade mais falsa do mundo. Não, nada disso. Eu também posso ser feliz como todo mundo.

São 23h em ponto. O telefone não toca. Começo a morrer de vontade de limpar essa maquiagem toda, tirar este cheiro forte de perfume doce da minha pele e dormir. Sempre tive sono cedo, não nasci pra essa vida. A quem estou tentando enganar? Daria tudo pra estar na minha cama, onde eu certamente seria feliz do meu modo. Finjo que não ligo pra nada disso e volto a vasculhar a página do evento no facebook. Agora já são quase cinco mil pessoas confirmadas, o que desperta em mim uma claustrofobia que sequer me pertence. Os organizadores da festa acabaram de postar na página e disseram que vão vender mais ingressos na portaria. Eu me desespero. Que nada! Tudo certo. São 23h25 e o telefone finalmente toca. Minha amiga está a caminho e agora eu já não posso desistir. Minha maquiagem já não está bonita como há duas horas. Vai ser legal, eu digo pra mim mesma um milhão de vezes. Li em algum lugar que uma mentira dita muitas vezes vira verdade. Quem foi que disse isso mesmo? Claro, um dos líderes políticos do nazismo. De que isso importa agora? O nazismo, a mentira, a verdade... Não importa. Pego minha bolsa e vou ser feliz. Mas espera. Vou levar uma blusinha de manga comprida, só por precaução. Dizem que uma mulher prevenida vale por duas. Vou estar com o coração em dobro nesta noite. Mas espera. Não sei se lá tem comida e não posso ficar mais de três horas sem comer. Ataco o pote de barras de cereais e coloco no fundo da bolsa, só por precaução. Minha amiga também disse que comer na balada é coisa de velha. Saio de casa com o coração na mão. No fundo, uma vontade angustiante de trocar a pista de dança pelo meu colchão. Mas eu estou maquiada com rímel, batom e vontade de ser feliz como todo mundo.

Já é quase meia noite e eu estou finalmente “na balada”. Os portões mágicos já estão abertos e a fila pra entrar é muito maior do que eu supunha. Na fila feminina, os vestidos são aproximadamente do mesmo comprimento daqueles que eu usava quando tinha dez anos. Os saltos 15 fazem com que eu, que não chego a 1,60m e uso um sapato de pouco mais de quatro centímetros, me sinta uma anã que, por sorte, cresceu um pouquinho além das expectativas. Ficamos eu e meu ingresso esperando a hora de entrar.

Pronto. Já é meia noite, hora de festa de gente grande começar. Por um minuto, sinto saudades das festas infantis que começavam às sete da noite e tinham salgadinhos e docinhos à vontade. Queria trocar o open bar por open food. Mas agora já estou dentro da festa e não há como voltar atrás. Das cinco mil pessoas com presença confirmada, já chegaram umas duas mil e a pista já está cheia de corpos em movimento. Eu sou só mais um átomo deste organismo. Paguei R$25 e não tenho direito a sequer um metro quadrado para me movimentar. Tem uma dupla no palco usando calças jeans mais justas do que as minhas e tocando aquilo que costumam chamar de sertanejo universitário. As pessoas parecem ter as letras das músicas na ponta da língua, mas eu, que obviamente não sou deste planeta, não conheço sequer um refrão. Começo alternando o peso do corpo entre uma perna e outra. Aos poucos, solto os ombros, mas não demais. Pessoas passam por mim o tempo todo. No início, fico incomodada a cada vez que pisam no meu pé e mais ainda quando não pedem desculpas. Depois me acostumo. Tento fazer um comentário qualquer com minha amiga, mas ela não escuta nada porque o som está absurdamente alto. Repito. Ela continua não ouvindo. Deixa pra lá. Conversar pra que? Bobagem. Estamos na balada!

Encontro um amigo que, como eu, parece um pouco desconcertado. Tentamos conversar, mas eu mal consigo pensar em qualquer coisa com uma música tão alta socando meus neurônios. Eu me desculpo, explico a velha história de que por dentro tenho sessenta anos, que não sei o que estou fazendo naquele lugar e digo que nos falamos melhor em outra oportunidade.

Já é 1h30 da manhã e estou cansada, com sono e com fome.  Um cara vem pedir pra dançar comigo. Imagina! Eu pisaria no seu pé, justifico. Eu não sei dançar, insisto. Tá, eu detesto dançar, pronto. Eu não mordo, ele diz. Tento me afastar. Perto de mim, casais se formam em menos de cinco minutos. No caminho para o banheiro, que é quase como uma viagem com trânsito congestionado, um homem de mais ou menos 1,80m, braços fortes e beleza viril barra minha passagem com o corpo e diz alguma coisa que eu não entendo. Peço pra repetir. Será que a gente podia conversar? - ele pergunta. Não, definitivamente não vai dar pra conversar. Eu mal escuto o que você diz. É uma pena. É só uma conversa, ele insiste no meu ouvido. Sou teimosa e adoro autossabotagem, então digo que não dá e sigo em frente. É claro que não demorei muito pra me arrepender, mas afinal o mundo não está perdido. Estou na balada.

No fim das contas, já estava mexendo o corpo de uma maneira menos desajeitada. Por incrível que pareça, já não estava mais tão chato. Vou até o bar pegar uma água. Preciso gritar umas três vezes que quero água pra que a garçonete escute. Quando ela finalmente escuta, parece não acreditar. Água? Água pura? Bem, pensando melhor, pode ser água com açúcar pra acalmar os nervos. Mas vamos sintetizar o pedido porque dialogar neste lugar beira o impossível. Sim, água pura. Recebo outra proposta pra conversar. Bem, o que há de mal em conversar? Pois bem. Vamos conversar. Antes de querer saber meu nome, o cara quis saber por que eu bebia justamente água. Depois de filosofarmos um pouco sobre água e vodka, finalmente chegamos à parte de trocar nomes. Mas cá entre nós, são três da manhã e pra mim chega. Eu já me diverti demais e é hora de ir pra casa. Eu me despeço dele tão subitamente quanto a ideia de ir embora me ocorreu. E me despeço da minha amiga, que ainda vai dançar até cinco da manhã em cima de um salto de quinze centímetros.

Volto pra casa pensando na festa. Foi legal. Podia ter menos gente, é claro. A música bem que podia estar mais baixa. E devia ter uma mesa de salgadinhos. De resto, foi tudo lindo. Eu bem que podia ter me esforçado um pouco mais e conversado com aquela beleza viril que parou na minha frente. Podia ter dançado com alguém. Tudo bem, dançar sertanejo universitário não é lá minha especialidade, mas eu bem que podia ter me entregado mais. Volto pra casa revendo meus conceitos. Não preciso ser assim tão séria. Não preciso passar o resto da vida presa a convenções, tentando separar minimamente o que é e o que não é aconselhável. No mês que vem o Campinas Hall talvez me veja novamente. E eu juro que vou ser feliz. 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

INTUIÇÃO



Já não sei dizer por quantas vezes equivocadas eu te disse “adeus”. E você, de um jeito ou de outro, quase sem querer, sempre voltava. Nem que fosse pra me pedir um último beijo, que obviamente jamais seria o último. Éramos um do outro e isso estava comprovado. Essa nossa posse recíproca era nossa lei inviolável. Pertencíamos um ao outro em cada célula, em cada veia, em cada segundo, em cada compasso. E já era exatamente assim antes mesmo de eu suspeitar que te amaria um dia.

Mas não me rendi de primeira. Fui fiel ao meu signo, ao meu humor doce e ácido, ao meu gênio indomável, ao meu coração cheio de farpas. Mas você me domava de um jeito infinitamente soberano. E me dominava como relógio em pulso de gente pontual. E me dominava como os comerciais de TV em sala de capitalista. E me dominava como música alta em noite de festa. Não. Você me dominava de um jeito absurdamente superior a tudo isso.

Mas não importa. Mesmo depois de tanto falso adeus, de algum modo, eu sabia que aquele seria o último. Sabia que estava molhando o seu rosto com lágrimas pela última vez. Sabia que meus olhos acompanhavam a sua partida decidida até o final da rua pela última vez. Mas, sobretudo, sabia que o amor ficava.